Economia

O 1% mais rico concentra 24,3% da renda e 37,3% da riqueza declarada no Brasil

Entre 2017 e 2023, 85% do aumento da renda ficou com os 0,1% mais ricos; mulheres negras ganham 54% menos que homens não negros. Dividendos isentos são a distorção central.

O 1% mais rico concentra 24,3% da renda e 37,3% da riqueza declarada no Brasil

A desigualdade no Brasil vai além das diferenças de renda: mesmo com a melhora dos indicadores sociais nos últimos anos, a concentração de riqueza no topo continua aumentando — e, com ela, a concentração de poder político e econômico. É a conclusão do relatório "Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia", da Oxfam Brasil, divulgado em agosto e sintetizado pelo g1 em seis gráficos. O 1% mais rico concentrou 24,3% de toda a renda do país em 2023 e deteve 37,3% da riqueza declarada; os 10% mais ricos ficam com 52% da renda declarada. As informações são do g1.

Para a organização, esse cenário amplia a capacidade dos grupos mais ricos de influenciar eleições, políticas públicas e decisões do Estado, enquanto mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente excluídos seguem sub-representados. A pesquisa reuniu dados do IBGE, da Receita Federal, do Ministério da Fazenda e do TSE, além de estudos nacionais e internacionais sobre renda, patrimônio, tributação e representação política.

Gráfico 1: a distância diminui, mas segue alta

Dados da Pnad Contínua mostram que o 1% mais rico recebe hoje o equivalente a 36,2 vezes a renda dos 40% mais pobres — a menor diferença desde o início da série, em 2012, mas ainda expressiva. "A pobreza é metade da conversa. A desigualdade é sobre a relação entre quem tem muito e quem tem pouco. O Brasil avançou na redução da pobreza, mas ainda não enfrenta o principal problema, que é a intensa concentração de riqueza no topo", afirma Viviana Santiago, diretora-executiva da Oxfam Brasil. O relatório ressalva que pesquisas domiciliares subestimam a renda dos mais ricos — lucros, dividendos e aplicações raramente aparecem nas entrevistas —, e por isso recorre aos dados do Imposto de Renda, que mostram concentração maior.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os dois dados contam a mesma história por ângulos diferentes. "A Pnad diz que o Gini caiu e o pobre melhorou — é verdade. O Imposto de Renda diz que o 1% ficou com 24% da renda e o 0,1% com 85% do crescimento — também é verdade. Não há contradição: o Bolsa Família e o salário mínimo puxaram a base, e a Selic e os dividendos isentos puxaram o topo mais rápido. O Brasil reduziu pobreza e aumentou concentração ao mesmo tempo. A Oxfam está dizendo que a segunda metade da conversa não começou", avalia.

Gráfico 2: 85% do crescimento para os 0,1%

Entre 2017 e 2023, a fatia da renda nacional do 1% mais rico passou de 20,4% para 24,3%. A renda desse grupo cresceu em média 4,4% ao ano, contra 1,4% da renda média das famílias — e a maior parte do ganho ficou no topo do topo: cerca de 85% do aumento da renda coube aos 0,1% mais ricos, e metade dele ao 0,01%. Cerca de 90% dos rendimentos desse grupo vêm de lucros, dividendos e aplicações financeiras, não de salários. É o mesmo mecanismo que a Folha descreveu nesta semana a partir dos dados de Sergio Gobetti: juros altos e renda de capital concentrando o ganho.

Gráfico 3: riqueza é ativo financeiro

Além da renda, o patrimônio segue concentrado: o 1% detém 37,3% de tudo o que é declarado. Entre os 0,1%, cerca de 80% do patrimônio é composto de ativos financeiros — ações, fundos, aplicações — e apenas 15% de imóveis. A predominância de ativos financeiros, aponta o relatório, favorece o aumento da riqueza ao longo do tempo, porque esses investimentos geram rendimentos contínuos — e, no Brasil, com Selic de dois dígitos, geram muito. É a riqueza que se reproduz sozinha, sem trabalho e, em boa parte, sem imposto.

Gráfico 4: gênero

As mulheres são 44,1% dos declarantes de IR, mas concentram 38% da renda declarada; recebem em média R$ 120,6 mil por ano, contra R$ 155,3 mil dos homens. No patrimônio, a distância aumenta: elas detêm 29,5% dos bens declarados, com patrimônio médio de R$ 246 mil — pouco mais da metade dos R$ 463,6 mil dos homens. A diferença se reflete na tributação: 56,5% da renda das mulheres vem de salários, tributados integralmente, enquanto 53,5% da renda dos homens vem de lucros e dividendos, isentos. No grupo que recebe mais de 320 salários mínimos por mês, as mulheres respondem por 11,6% da renda.

Gráfico 5: gênero e raça

No mercado de trabalho formal, homens não negros recebem em média R$ 6.560 por mês; mulheres não negras, R$ 5.039; homens negros, R$ 3.875; mulheres negras, R$ 3.026. Incluído o trabalho informal, a renda média das mulheres negras cai para R$ 2.079 — cerca de 54% inferior à dos homens não negros. A menor renda reduz a capacidade de poupar e investir, o que dificulta a acumulação de patrimônio ao longo da vida e reproduz a desigualdade entre gerações.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, os gráficos de gênero e raça são os que mais explicam o Brasil. "A mulher negra ganha 54% menos que o homem branco, paga imposto sobre tudo o que ganha — porque é salário — e não acumula patrimônio, porque não sobra. O homem branco rico recebe dividendo isento e acumula ação que rende juro. Não é só desigualdade de renda; é desigualdade de regra: a renda de um é tributada, a do outro não. A Oxfam mostra que o sistema tributário escolheu quem paga — e escolheu a mãe solo negra", observa.

Gráfico 6: o imposto que favorece o topo

O relatório conclui que o sistema tributário brasileiro ajuda a manter a desigualdade: a maior parte da arrecadação vem de impostos sobre consumo e salários, que pesam proporcionalmente mais sobre as famílias de baixa renda, enquanto patrimônio, heranças e rendimentos do capital recebem tributação relativamente menor. A tabela do IR é progressiva para quem vive de salário, mas não se aplica da mesma forma a quem recebe lucros e aplicações — e a alíquota efetiva paga pelos 0,01% mais ricos é de apenas 4,6%, inferior à de muitos assalariados. "Uma mãe solo negra pode pagar mais imposto do que um bilionário, porque praticamente toda a renda dela é destinada ao consumo, que é altamente tributado", diz Viviana Santiago.

A distorção central: dividendos isentos

A principal distorção, segundo o estudo, é a isenção do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos, em vigor desde os anos 1990 — o Brasil é um dos poucos países do mundo que não tributa o dividendo na pessoa física. Em 2023, quase 35% de toda a renda isenta declarada no país veio desse tipo de rendimento. O modelo, apontam os autores, reforça o ciclo de concentração ao favorecer o aumento da riqueza dos grupos de maior renda e ampliar sua influência econômica e política. A proposta do governo de imposto mínimo sobre altas rendas, em discussão no Congresso, é a tentativa de atacar exatamente esse ponto.

Captura da democracia: o argumento político

O título do relatório aponta para além da economia: a concentração de riqueza se converte em capacidade de financiar campanhas, contratar lobby, influenciar regulação e ocupar espaços de decisão — enquanto mulheres e pessoas negras seguem sub-representadas no Congresso, nos governos e nas cortes. A Oxfam usa dados do TSE sobre financiamento e perfil dos eleitos para sustentar que a desigualdade econômica produz desigualdade política, e que esta, por sua vez, bloqueia as reformas — como a tributação de dividendos — que reduziriam a econômica. É o ciclo que o relatório chama de captura.

O que muda — e o que não muda

O relatório reconhece avanços: queda da pobreza, Gini no menor nível da série, valorização do salário mínimo, programas sociais robustos. E aponta o que não mudou: a estrutura tributária regressiva, a isenção de dividendos, a concentração patrimonial em ativos financeiros. "As medidas adotadas até agora procuram enfrentar a situação de quem tem muito pouco, mas não enfrentam a concentração de renda no topo", resume Viviana Santiago. A reforma tributária de 2023 unificou os impostos sobre consumo; a reforma da renda, que tocaria no topo, segue pendente.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o relatório chega em campanha e deveria pautar o debate. "Quatro por cento e meio de alíquota efetiva para o 0,01% mais rico — esse é o número que todo candidato deveria ser obrigado a comentar. Lula propôs imposto mínimo para renda acima de R$ 600 mil e o Congresso enrolou. Flávio Bolsonaro fala em cortar imposto. Nenhum dos dois explica por que o bilionário paga menos que a caixa de supermercado. A Oxfam juntou os dados da Receita, do IBGE e do TSE e mostrou o desenho. A pergunta para outubro não é quem vai ajudar o pobre — os dois prometem. É quem vai tributar o rico. E, até agora, a resposta é ninguém", analisa.

O relatório "Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia" está disponível no site da Oxfam Brasil. Os dados de renda e patrimônio são das declarações de Imposto de Renda de 2023, as mais recentes abertas pela Receita Federal.

Foto: Oxfam East Africa (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

Develop by Cliki