Meio Ambiente

El Niño está "solidamente instalado" e caminha para intensidade "muito forte"

Historicamente, El Niño intensifica secas e incêndios na Amazônia, na América Central, na Indonésia e na Austrália, perturba a monção na Índia e traz chuvas torrenciais ao leste da África.

El Niño está "solidamente instalado" e caminha para intensidade "muito forte"

O fenômeno El Niño está "solidamente instalado" e deve se fortalecer nos próximos meses, alcançando intensidade "muito forte", alertou a Organização Meteorológica Mundial na quinta-feira (3 de setembro). "[Isso terá] impactos importantes nos regimes de temperatura e precipitação, além dos riscos associados de inundações, secas e ondas de calor extremo", aponta a atualização do órgão das Nações Unidas, que projeta o pico do episódio para o fim de 2026 e indica "uma probabilidade excepcionalmente alta", próxima de 100%, de que o El Niño se mantenha até fevereiro de 2027. As informações são da Folha.

"O El Niño ganha diante de nossos olhos uma dimensão excepcional. A ciência é inequívoca: o planeta avança por águas desconhecidas, e essas águas estão se aquecendo. A temperatura da superfície do mar atinge níveis recordes, as temperaturas continuam subindo e estamos em uma zona de alto risco, onde os fenômenos meteorológicos extremos se tornam a nova norma", alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres. O El Niño é um fenômeno natural que retorna a cada dois a sete anos: as águas superficiais do centro e do leste do Pacífico equatorial se aquecem a partir da primavera, provocando, nos meses seguintes, mudanças nos regimes de ventos, pressão e precipitação em escala global. Entre maio e julho de 2026, a temperatura da superfície naquela área ficou em média 1,5°C acima do normal e chegou a 2°C em julho; registros entre o fim de julho e meados de agosto atingiram de 2,2°C a 2,6°C acima da média, "o que evidencia a continuidade do fortalecimento do fenômeno". Sob a superfície, as temperaturas foram, em algumas zonas, mais de 8°C acima da média em julho e no início de agosto. Embora cada episódio seja diferente, o El Niño historicamente provocou ou intensificou secas e riscos de incêndio na Amazônia, na América Central, na Indonésia e na Austrália, perturbações da monção na Índia e chuvas torrenciais no leste da África.

O que "muito forte" significa

A OMM classifica o El Niño pela anomalia de temperatura na região central do Pacífico: fraco até 1°C, moderado até 1,5°C, forte acima disso e muito forte quando supera 2°C de forma sustentada — categoria alcançada apenas em 1982-83, 1997-98 e 2015-16, os três episódios mais devastadores do registro moderno, com secas históricas na Amazônia e no Nordeste, enchentes no Sul do Brasil e no Peru, colapso da pesca no Pacífico e recorde global de temperatura. As anomalias de 2,2°C a 2,6°C medidas em agosto, com o calor acumulado em profundidade, indicam que 2026-27 pode entrar nesse grupo — e que o pico, no último trimestre de 2026, coincidirá com a estação seca amazônica e o período de queimadas. Somado ao aquecimento global de fundo, que já elevou a temperatura média do planeta em cerca de 1,3°C, um El Niño muito forte tende a produzir novo recorde anual de calor em 2027.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o aviso da OMM tem endereço no Brasil. "El Niño muito forte, pico no fim do ano, duração até fevereiro: é o roteiro de 2023, quando o rio Negro bateu o menor nível da história, comunidades ficaram isoladas, botos morreram na água quente e a fumaça cobriu Manaus. Naquele ano, o fenômeno foi forte; agora a OMM fala em muito forte, com 2,6°C de anomalia e água profunda 8°C mais quente. A Amazônia acabou de sair de duas secas seguidas; o Nordeste depende da chuva de verão; o Sul vai receber o excesso. O governo tem três meses para preparar estoque de água, combate ao fogo e logística fluvial. Guterres diz que estamos em águas desconhecidas; o Brasil já navegou nelas e sabe o que vem", avalia.

2023 e 2024: o que o último El Niño fez no Brasil

O episódio de 2023-24, classificado como forte, produziu a pior seca da história registrada na Amazônia: o rio Negro, em Manaus, caiu a 12,70 metros em outubro de 2023 — mínima em mais de um século de medições — e a 12,11 metros em outubro de 2024, quando a seca se repetiu; mais de 150 botos morreram no lago Tefé com a água acima de 39°C, comunidades ficaram isoladas por meses, a navegação parou e a fumaça das queimadas cobriu capitais. No Sul, as chuvas de setembro e novembro de 2023 causaram enchentes no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, com dezenas de mortos — prelúdio da catástrofe de maio de 2024. É esse roteiro que a OMM projeta em versão mais intensa.

Do neutro ao muito forte: a transição de 2026

Após uma La Niña fraca no fim de 2025 e um período neutro no início de 2026, o Pacífico aqueceu rapidamente a partir do outono, com o calor acumulado em profundidade — os mais de 8°C acima da média em algumas zonas subsuperficiais — alimentando a superfície; é a assinatura dos episódios muito fortes, em que a energia armazenada no oceano sustenta anomalias elevadas por meses. A velocidade da transição surpreendeu modelos e é parte do que Guterres chama de "águas desconhecidas".

Amazônia: seca, fogo e rios baixos

El Niño reduz a chuva na Amazônia ao deslocar a convecção para o Pacífico; nos episódios de 2015-16 e 2023-24, rios atingiram mínimas históricas, a navegação parou, o abastecimento de comunidades dependeu de balsas e aviões, e incêndios florestais ganharam escala inédita. Com o pico previsto para o fim de 2026 — auge da estiagem —, o cenário de 2023 pode se repetir em 2026 e no início de 2027.

Nordeste: o risco de chuva fraca

A estação chuvosa do semiárido, de fevereiro a maio, é enfraquecida por El Niño; se o fenômeno persistir até fevereiro de 2027, como projeta a OMM, a próxima safra e o abastecimento de açudes ficam sob risco. O monitoramento da Funceme e do Inmet será decisivo para acionar medidas de convivência com a seca.

Sul do Brasil: o excesso

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná recebem chuva acima da média durante El Niño — foi assim em 2023, com enchentes no Vale do Taquari em setembro e novembro; a combinação com sistemas frontais e atmosfera mais quente eleva o risco de eventos extremos no fim de 2026 e verão de 2027. Defesas civis já estão em alerta.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase de Guterres é a mais importante da nota. "'Fenômenos extremos se tornam a nova norma.' El Niño sempre existiu; o que mudou é que ele agora acontece sobre um oceano já recorde de calor. Cada El Niño empurra a temperatura global para um patamar novo do qual ela não volta inteiramente — 2016 foi recorde, 2023 e 2024 foram recordes, 2027 deve ser. A OMM está avisando com quatro meses de antecedência, o que é tempo para agir: água, comida, energia, saúde. Quem trata o aviso como notícia de ciência vai tratar a seca como surpresa", observa.

Agricultura e energia: os setores em alerta

Soja e milho no Centro-Oeste tendem a ter chuva regular ou acima do normal, mas o Norte e o Nordeste sofrem; hidrelétricas do Nordeste e do Norte perdem afluência, enquanto as do Sul enchem — o operador do sistema já modela o cenário. Preços de alimentos e de energia respondem ao fenômeno com meses de defasagem.

Temperatura global: rumo a novo recorde

O El Niño libera calor do oceano para a atmosfera; os anos seguintes a episódios fortes — 1998, 2016, 2024 — foram recordes globais; a OMM e o serviço europeu Copernicus já indicam 2027 como candidato a ano mais quente da história, com o limite de 1,5°C do Acordo de Paris sendo ultrapassado em média anual pela segunda vez.

Saúde: dengue, calor e fumaça

Calor e chuva irregular favorecem o Aedes aegypti; secas com queimadas elevam internações respiratórias na Amazônia; ondas de calor matam idosos em cidades grandes. O Ministério da Saúde monitora o El Niño como fator de risco epidemiológico desde 2023.

Como o Brasil se preparou antes — e o que faltou

Em 2023, o governo federal criou gabinete de crise para a seca amazônica, distribuiu água e cestas e dragou trechos de rio, mas as ações começaram após o colapso dos níveis; para 2026, órgãos como o Cemaden, a ANA e a Defesa Civil defendem antecipar estoques, planos de contingência e brigadas de incêndio antes do pico, agora previsto com precisão.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o alerta da OMM é oportunidade de fazer diferente. "Pela primeira vez, a ONU diz com meses de antecedência que o El Niño será muito forte, quando vai atingir o pico e até quando dura. Em 2023, o Brasil reagiu depois que o rio secou. Em 2026, dá para agir antes: comprar barcaças, estocar remédio em Tabatinga, contratar brigadistas em Roraima, alertar o produtor do Ceará. Não é previsão de tempo; é planejamento de emergência com quatro meses de vantagem. Se o país desperdiçar esse tempo, a culpa não será do Pacífico", analisa.

A atualização da Organização Meteorológica Mundial sobre o El Niño, com projeção de intensidade "muito forte", pico no fim de 2026 e persistência até fevereiro de 2027, foi divulgada em 3 de setembro de 2026 e noticiada pela Folha.

Foto: Su Siock Ching (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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