Meio Ambiente

MPF pede que TikTok exclua perfis que vendem mercúrio para garimpo ilegal

Perfil voltado ao Brasil usava "Dono de Garimpo" e "Preço de atacado"; plataforma tem 30 dias para responder e diz que já removeu os conteúdos.

MPF pede que TikTok exclua perfis que vendem mercúrio para garimpo ilegal

O Ministério Público Federal recomendou ao TikTok a exclusão de perfis que anunciavam a venda de mercúrio para uso no garimpo ilegal de ouro no Brasil. Em monitoramento realizado em agosto de 2026, o MPF identificou três perfis e 108 publicações que somavam mais de 5,8 milhões de visualizações, com conteúdos em português, espanhol e inglês e contatos para negociação associados a números da China. A recomendação, expedida em 31 de agosto pelo procurador da República André Luiz Porreca Ferreira Cunha, integra inquérito civil de abrangência nacional sobre o uso da rede social na divulgação e negociação ilegal da substância. A plataforma tem 30 dias para responder. As informações são do g1.

Em nota, o TikTok informou que "os conteúdos foram removidos por violar nossas Diretrizes da Comunidade sobre produtos e serviços regulamentados. Proibimos a comercialização, o marketing ou o fornecimento de acesso a produtos e serviços regulamentados, proibidos ou de alto risco."

O que os perfis anunciavam

Os perfis se apresentavam como fábrica situada na "Capital do Mercúrio" — designação do distrito de Wanshan, na província de Guizhou, China, historicamente o maior centro produtor do metal no país — e anunciavam mercúrio com densidade 13,6, pureza de 99,999%, envasado em frascos de 34,5 quilos, o padrão internacional de comercialização, "sem indicação de razão social, endereço ou registro empresarial", segundo a recomendação. As publicações informavam quantidade mínima para compra e formas de envio, e as negociações migravam para aplicativos de mensagens, o que dificulta o rastreamento.

Um dos perfis era direcionado especificamente ao público brasileiro: usava expressões como "No Brasil", "Dono de Garimpo", "Para o seu garimpo" e "Preço de atacado", com hashtags ligadas a garimpo, mineração e ouro no país. No momento do monitoramento, tinha 7.664 seguidores e 26,3 mil curtidas.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o caso mostra a cadeia do garimpo em sua ponta mais visível. "O ouro ilegal da Amazônia não existe sem mercúrio, e o mercúrio não chega ao garimpo sem uma rede de fornecimento. O que o MPF encontrou é essa rede anunciando em vídeo, com hashtag, para 5,8 milhões de pessoas — em português, dirigido ao 'dono de garimpo'. Não é mercado clandestino; é vitrine. E a vitrine está numa plataforma que fatura com o alcance desses vídeos. Derrubar os perfis é o mínimo; a pergunta do MPF é se houve impulsionamento pago, e essa é a resposta que importa", avalia.

Por que o mercúrio é o veneno do garimpo

O mercúrio é usado para separar o ouro dos sedimentos: misturado ao cascalho, forma uma amálgama com as partículas de ouro, que depois é queimada para evaporar o metal e deixar o ouro "limpo". O vapor vai para o ar; o excesso, para o rio. Na água, bactérias convertem o mercúrio em metilmercúrio, forma que se acumula nos peixes e sobe a cadeia alimentar até as populações indígenas e ribeirinhas que dependem da pesca. O MPF alerta que a substância é altamente tóxica, com efeitos neurológicos irreversíveis, especialmente em gestantes e crianças — danos ao desenvolvimento, tremores, perda de visão e coordenação.

Estudos da Fiocruz e de universidades brasileiras vêm documentando há anos níveis de contaminação por mercúrio acima do limite seguro em comunidades yanomami, munduruku e ribeirinhas do Tapajós, do Madeira e de Roraima — precisamente as regiões onde o garimpo ilegal se expandiu na última década. A crise humanitária no território yanomami, declarada emergência de saúde pública em 2023, teve o mercúrio como um de seus componentes.

O que a lei diz sobre o mercúrio

O Brasil é signatário da Convenção de Minamata, tratado internacional em vigor desde 2017 que restringe o uso, o comércio e as emissões de mercúrio, com foco no garimpo artesanal. Internamente, a importação e o comércio do metal são controlados pelo Ibama e pela Polícia Federal: só empresas cadastradas e com finalidade autorizada podem importá-lo, e o uso em garimpo exige licença ambiental — que, na prática, o garimpo ilegal não tem. A oferta em rede social de mercúrio "para o seu garimpo", com envio internacional e sem razão social, é portanto ilegal em todas as etapas: importação, comércio e uso.

Recomendação: o que o MPF pede

Além da exclusão dos perfis, o MPF pede que o TikTok informe, em 30 dias, se acatará a recomendação, quais medidas foram adotadas e se houve impulsionamento pago ou monetização nos perfis investigados — ou seja, se a plataforma lucrou diretamente com os anúncios. Pede também que a íntegra da recomendação seja divulgada por 30 dias na página inicial do site e do aplicativo, ou, alternativamente, que a empresa publique texto próprio deixando clara a proibição do comércio de mercúrio líquido na rede social.

A recomendação não é ordem judicial: é um instrumento pelo qual o MPF alerta o destinatário sobre uma ilegalidade e pede providências. Se não for atendida, o órgão pode ingressar com ação civil pública, pedindo à Justiça que obrigue a plataforma a agir e, eventualmente, a indenizar danos coletivos. É o caminho seguido em outros casos envolvendo redes sociais e conteúdo ilegal — e o que torna a resposta dos 30 dias decisiva.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o MPF está testando a responsabilidade das plataformas. "O TikTok removeu os vídeos quando o MPF bateu à porta. Mas eles ficaram no ar tempo suficiente para 5,8 milhões de visualizações — a plataforma tem moderação automatizada para muita coisa, e 'mercúrio para garimpo' com hashtag de ouro não foi pego. A recomendação pergunta o que a empresa fez para prevenir, não só o que fez para remover. É a mesma lógica da multa de R$ 153 milhões que a ANPD aplicou por proteção de menores: a plataforma responde pelo que deixa passar", observa.

Por que a recomendação saiu de Roraima

A recomendação foi expedida pela Procuradoria da República em Roraima, estado que abriga a maior parte do território yanomami — epicentro da crise do garimpo ilegal nos últimos anos, com milhares de invasores, rios contaminados, desnutrição e malária entre os indígenas. O MPF de Roraima acumula inquéritos sobre a cadeia do garimpo — ouro, combustível, aeronaves, maquinário — e o mercúrio é o insumo que fecha o ciclo. Que o inquérito tenha "abrangência nacional" indica que a atuação vai além do estado: os perfis anunciavam para todo o Brasil, e o TikTok responde em qualquer lugar.

O frasco de 34,5 quilos

O detalhe do envase não é acidental. O mercúrio é comercializado internacionalmente em frascos de ferro de 34,5 quilos — o "flask" de 76 libras, padrão histórico do mercado desde o século XIX — e a menção a esse formato, junto com a densidade de 13,6 e a pureza de 99,999%, é a linguagem do comércio profissional, não do vendedor improvisado. Um frasco abastece semanas de garimpo. A oferta de "quantidade mínima" e "preço de atacado" em vídeo confirma que os perfis miravam compradores de escala: donos de garimpo, não garimpeiros individuais.

TikTok sob pressão no Brasil

A recomendação chega semanas depois de a Autoridade Nacional de Proteção de Dados multar o TikTok em R$ 153,7 milhões por falhas na proteção de menores — a maior sanção da agência e a primeira do gênero no país. A sequência sinaliza uma mudança na postura dos órgãos brasileiros diante da plataforma: de pedidos pontuais de remoção para cobrança sistemática de conformidade, com sanções financeiras e exigência de transparência sobre moderação e monetização.

Garimpo, ouro e redes sociais

O uso de redes sociais pelo garimpo ilegal não se limita ao mercúrio. Investigações da Polícia Federal e reportagens já documentaram grupos em aplicativos de mensagens para venda de ouro, anúncios de maquinário e de balsas em marketplaces, e vídeos de garimpeiros exibindo produção em plataformas de vídeo. A inclusão do mercúrio nesse ecossistema fecha o ciclo: o garimpeiro compra o insumo, o equipamento e vende o produto sem sair do celular. Para os órgãos de fiscalização, a presença digital é também rastro — e o MPF usou exatamente esse rastro para identificar os perfis.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a ação tem valor de precedente. "Se o TikTok aceitar a recomendação e publicar a proibição na página inicial, cria-se um padrão: plataforma que opera no Brasil precisa dizer explicitamente que mercúrio para garimpo é proibido, e precisa mostrar o que faz para barrar. Isso pode ser estendido ao Instagram, ao YouTube, ao Facebook Marketplace. O garimpo ilegal se profissionalizou nas redes; a fiscalização está começando a acompanhar", analisa.

O inquérito civil do MPF sobre o comércio de mercúrio em redes sociais tem abrangência nacional e segue em andamento. A resposta do TikTok à recomendação deve ser apresentada até o fim de setembro.

Foto: Keller Jo, U.S. Fish and Wildlife Service (Public domain) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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