Meio Ambiente

Planeta vai ultrapassar 1,5 °C de aquecimento "provavelmente nos próximos anos"

Mais de 50 ondas de calor sem precedentes em duas décadas; metade da população mundial teve ao menos 30 dias de calor extremo entre maio de 2024 e maio de 2025.

Planeta vai ultrapassar 1,5 °C de aquecimento "provavelmente nos próximos anos"

A humanidade falhou em cumprir o objetivo central da Convenção do Clima da ONU de evitar a interferência perigosa dos seres humanos no sistema climático e agora precisa se preparar para as consequências. Essa é a mensagem principal do novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Pnuma, sobre o chamado "overshoot" — o período em que o aquecimento global ultrapassa 1,5 °C —, divulgado na quarta-feira (2 de setembro). As informações são do ((o))eco.

O documento não estabelece data para a ultrapassagem, mas alerta que ela acontecerá "provavelmente nos próximos anos", trazendo impactos cada vez mais complexos e imprevisíveis; nessa nova realidade, agora confirmada pela ONU, países menos desenvolvidos, pequenos Estados insulares e populações pobres e vulneráveis serão afetados desproporcionalmente. "Este verão, o calor escaldante, os incêndios florestais devastadores e as inundações mortais são um alerta do que está por vir. Precisamos tornar a ultrapassagem de 1,5 °C a menor e mais curta possível. Isso exige uma ultrapassagem da ambição", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres — chamado que tem a ver com os esforços necessários para limitar a intensidade e a duração do overshoot e, depois, fazer a temperatura retornar a níveis abaixo do limite, tarefa virtualmente impossível se as metas nacionais permanecerem nos níveis atuais. Mesmo num cenário otimista, em que todos os planos climáticos sejam implementados integralmente e as metas de emissões líquidas zero cumpridas, a temperatura da Terra deve chegar a 1,8 °C acima do limite pré-industrial; se a ambição e a implementação seguirem nos níveis atuais, o aumento pode chegar a 2,6 °C — ou mais — no fim do século. Mesmo 1,5 °C já leva a cenários de risco elevado: os eventos extremos estão mais intensos e frequentes; nas últimas duas décadas foram documentadas mais de 50 ondas de calor de alto impacto e sem precedentes; entre maio de 2024 e maio de 2025, cerca de metade da população mundial enfrentou pelo menos 30 dias de calor extremo; a mortalidade associada ao calor aumenta em escala global; e o aquecimento elevou a probabilidade e a intensidade de chuvas, inundações e secas, além de favorecer incêndios florestais.

De Paris ao overshoot: o que muda quando a ONU admite que a meta foi perdida

O Acordo de Paris, de 2015, fixou o objetivo de manter o aquecimento "bem abaixo de 2 °C" e de "perseguir esforços" para limitá-lo a 1,5 °C — o limiar que a ciência, no relatório especial do IPCC de 2018, identificou como a fronteira além da qual recifes de coral morrem em massa, o gelo do Ártico desaparece no verão, o nível do mar ameaça ilhas inteiras e as ondas de calor se tornam incompatíveis com a vida ao ar livre em partes do trópico; 2024 foi o primeiro ano civil acima de 1,5 °C, 2025 confirmou a tendência, e o relatório do Pnuma é o primeiro documento oficial da ONU a tratar a ultrapassagem não como risco, mas como certeza — mudando o eixo da política climática de "evitar" para "limitar e reverter", com três implicações: adaptação, porque os impactos de um mundo a 1,6 °C ou 1,8 °C — secas, inundações, calor, colheitas menores — já estão contratados e atingirão desproporcionalmente os pobres; remoção de carbono, porque voltar abaixo de 1,5 °C depois de ultrapassar exige tirar CO2 da atmosfera em escala que nenhuma tecnologia oferece hoje, o que faz das florestas em pé — Amazônia incluída — o único sumidouro disponível; e ambição, porque os planos nacionais apresentados até a COP30, em Belém, somam 1,8 °C no melhor caso, e a implementação real, com os Estados Unidos fora do acordo sob Trump e a Europa afrouxando metas, aponta para 2,6 °C. Para o Brasil, o relatório chega no ano do El Niño muito forte, com o ONS alertando para térmicas, a Amazônia à beira da terceira seca em quatro anos e o país anfitrião da COP30 tendo prometido, e não entregado, a rastreabilidade do gado — como o Pará mostrou nesta semana. O overshoot não é abstração: é o calor de 30 dias por ano que metade da humanidade já sentiu, e é o que Araras vai sentir na próxima onda de 40 °C.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o relatório é a ONU dizendo em voz alta o que os cientistas diziam há anos. "Perdemos 1,5 °C. Não é mais 'se', é 'quando' — provavelmente nos próximos anos, diz o Pnuma. O melhor cenário, com todos cumprindo tudo, é 1,8 °C; o cenário real é 2,6 °C. Guterres pede 'ultrapassagem da ambição', o que é bonito e vazio num ano em que os Estados Unidos saíram do acordo e a Europa recuou. O que resta é adaptação: cidade que aguenta calor, agricultura que aguenta seca, floresta que fica em pé para tirar carbono do ar. O portal registra o relatório e traduz para o leitor: metade da humanidade já teve um mês de calor extremo em um ano, e o Brasil, com El Niño, seca na Amazônia e térmica ligada, está no meio disso. A pergunta não é mais como evitar; é como viver", avalia.

Overshoot: o conceito

Período em que a temperatura média global excede 1,5 °C antes de, hipoteticamente, retornar abaixo do limite por meio de cortes profundos de emissões e remoção de carbono da atmosfera; quanto maior e mais longa a ultrapassagem, maiores os danos irreversíveis — perda de recifes, degelo, extinções — que não se recuperam mesmo com a volta ao limite.

1,8 °C, 2,6 °C: os cenários do Pnuma

Com todos os planos nacionais e metas de zero líquido cumpridos, 1,8 °C; com a implementação atual, 2,6 °C ou mais no fim do século; a diferença entre os dois é a "ambição" que Guterres pede — e que a geopolítica de 2026, com guerra, tarifas e retrocesso americano, torna improvável.

Calor extremo: os números das últimas duas décadas

Mais de 50 ondas de calor de alto impacto e sem precedentes documentadas; metade da população mundial com ao menos 30 dias de calor extremo entre maio de 2024 e maio de 2025; mortalidade por calor crescente, sobretudo entre idosos, trabalhadores ao ar livre e populações pobres sem refrigeração.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase sobre os vulneráveis é o centro moral do relatório. "Quem menos emitiu vai sofrer mais — ilhas, países pobres, o trópico. E, dentro de cada país, os pobres: quem trabalha na rua, mora em casa sem ar-condicionado, planta sem irrigação. O overshoot é uma injustiça em escala planetária, e o relatório diz isso com todas as letras. O Brasil está dos dois lados: emite, com desmatamento e gado, e sofre, com seca, calor e enchente. O portal registra e lembra que adaptação custa dinheiro — e que a conta, como sempre, vai para quem não tem", observa.

Adaptação: o que a nova realidade exige

Cidades com sombra, água e abrigos de calor; agricultura com irrigação, seguro e variedades resistentes; defesa civil para inundações e deslizamentos; sistemas de saúde preparados para ondas de calor — investimentos que o relatório considera inevitáveis e que os países em desenvolvimento não conseguem financiar sem ajuda.

Remoção de carbono: a aposta incerta

Voltar abaixo de 1,5 °C após o overshoot exige remover bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera; captura direta do ar e bioenergia com captura são caras e imaturas; reflorestamento e conservação de florestas são a opção disponível — o que valoriza a Amazônia e o fundo de florestas tropicais lançado na COP30.

Os planos nacionais: 1,8 °C no papel

As NDCs apresentadas até a COP30 somam, se cumpridas, 1,8 °C; a implementação fica aquém — os Estados Unidos deixaram o acordo, a União Europeia afrouxou metas de 2040, a China ainda cresce emissões; o Pnuma cobra revisão em 2027 e mostra que a distância entre promessa e prática é o problema central.

Brasil: anfitrião da COP30 e o teste do El Niño

Com meta de redução de 59% a 67% até 2035, desmatamento em queda mas rastreabilidade do gado adiada, e um El Niño muito forte chegando, o país é caso de estudo do overshoot: sumidouro potencial na Amazônia, emissor pela pecuária, e vítima da seca e do calor que o relatório descreve — tudo ao mesmo tempo.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o relatório encerra uma era de negociação e abre uma de gestão de danos. "Trinta anos de COPs para chegar ao dia em que a ONU diz que perdemos a meta e agora é limitar o estrago. Não é derrota da ciência — ela avisou desde 1990 —; é derrota da política, que preferiu o próximo mandato ao próximo século. O portal registra o relatório do Pnuma e faz o que jornal pode fazer: dizer ao leitor de Araras que o calor de 40 °C, a seca da cana e a enchente do Mogi não são acidentes — são o overshoot, e vieram para ficar", analisa.

O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente sobre o overshoot — a ultrapassagem do limite de 1,5 °C de aquecimento global, prevista "provavelmente nos próximos anos" — foi divulgado em 2 de setembro de 2026 e repercutido pelo ((o))eco; mesmo no cenário mais otimista, a temperatura deve chegar a 1,8 °C acima do nível pré-industrial, e, no ritmo atual, a 2,6 °C ou mais no fim do século.

Foto: NASA (Public domain) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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