As árvores nativas da Mata Atlântica que cercam a Região Metropolitana de São Paulo estão sendo intensamente contaminadas por poluentes gerados pela atividade humana — e nem todas resistem da mesma forma. É o que revela um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) de São Paulo, que avaliou cerca de 350 árvores de 29 espécies na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da cidade. Entre as espécies que mais sofrem com a poluição está a peroba-rosa, considerada uma das mais ameaçadas do bioma, segundo reportagem do portal ((o))eco.
O trabalho tinha um objetivo prático: identificar quais árvores nativas são resilientes à poluição do ar e, portanto, têm potencial para uso em projetos de reflorestamento e arborização urbana. O resultado é um mapa de resistência que pode orientar o que plantar — e o que evitar — nas ruas, praças e parques de uma das regiões mais poluídas do país.
As árvores como sensores da qualidade do ar
O trânsito intenso e a fumaça industrial são as principais fontes de poluição atmosférica nas grandes cidades, e seus efeitos sobre a saúde humana são bem documentados: doenças respiratórias e cardiovasculares que atingem principalmente crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. O que o estudo do IPA destaca é que as plantas também absorvem essas toxinas — e, ao fazê-lo, oferecem informações valiosas sobre a qualidade do ar dos locais onde vivem.
Essa abordagem é chamada de biomonitoramento. "O fato desses organismos responderem de maneira integrada ao estresse ambiental permite avaliar não apenas o acúmulo de um determinado poluente, mas também como a planta responde ao conjunto de condições ambientais às quais está exposta. Além disso, o biomonitoramento pode representar uma alternativa mais acessível em relação aos métodos de monitoramento físico-químico tradicionalmente utilizados pelas agências ambientais", explicou ao ((o))eco Ricardo Nakazato, doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo IPA e professor da Universidade Guarulhos.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a ideia tem uma lógica simples e poderosa. "Uma estação de monitoramento mede o ar num ponto, numa hora. Uma árvore fica ali dez, vinte, cinquenta anos, respirando tudo que passa. Ler o que a árvore acumulou é ler a história da poluição daquele lugar. E é muito mais barato do que espalhar sensores pela cidade", avalia.
Seis espécies sensíveis, quatro tolerantes
Os pesquisadores coletaram amostras de cerca de 350 árvores de 29 espécies em quatro parques localizados em São Paulo, Cotia e Iperó, escolhidos por estarem sob diferentes fontes de emissão de poluentes e condições climáticas distintas. "Fizemos um grande esforço amostral", relatou Nakazato.
Os resultados mostram uma variação considerável entre as espécies. Das 29 avaliadas, seis foram consideradas sensíveis à poluição, 17 moderadamente resistentes, quatro tolerantes e duas apresentaram comportamento variável de acordo com o local. "Esses estudos mostraram que o nível de tolerância ao estresse oxidativo induzido por distúrbios ambientais varia consideravelmente entre as espécies arbóreas nativas da Mata Atlântica", explicou o pesquisador.
O caso da peroba-rosa é o mais emblemático. Árvore de grande porte, madeira nobre e crescimento lento, ela foi intensamente explorada ao longo do século 20 e hoje figura entre as espécies mais ameaçadas da Mata Atlântica. O estudo mostra que, além da pressão histórica do corte, ela enfrenta agora uma segunda ameaça: é uma das árvores que mais sofrem com a poluição do ar — o que reduz suas chances de recuperação justamente nas áreas próximas às cidades, onde os programas de reflorestamento costumam se concentrar.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, essa descoberta tem consequência direta para a política ambiental. "Plantar peroba-rosa numa avenida de São Paulo para 'recuperar a espécie' pode ser um erro bem-intencionado. A árvore vai sofrer, crescer mal e talvez morrer. O estudo diz onde ela pode ser plantada com chance real de sobreviver — longe das fontes de poluição — e onde é melhor usar as quatro espécies tolerantes. É ciência virando manual de plantio", observa.
Arborização urbana e reflorestamento: objetivos diferentes
A reportagem do ((o))eco distingue as duas aplicações do estudo. A arborização urbana é o plantio controlado de árvores e plantas de pequeno e médio porte dentro das cidades, em calçadas, praças e quintais. O reflorestamento, por sua vez, é o cultivo planejado de árvores e vegetais de diferentes portes em áreas maiores e mais densas, no entorno das cidades — áreas de preservação permanente, margens de rios e grandes parques.
Ambas as práticas geram o que os especialistas chamam de serviços ecossistêmicos: além da melhora da qualidade do ar, promovem a redução da sensação térmica, o aumento da umidade e a melhoria da drenagem da água das chuvas. Esses benefícios ajudam a enfrentar emergências climáticas cada vez mais frequentes, evitando ilhas de calor, enchentes, inundações e alagamentos nas cidades.
Segundo Nakazato, o principal objetivo do estudo foi justamente "compreender como esse conhecimento poderia ser aplicado em projetos de reflorestamento e arborização urbana" — transformar um diagnóstico de contaminação em uma ferramenta de decisão.
O Cinturão Verde: 78 municípios e 20% do PIB
A escolha da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo como área de estudo não foi casual. Declarada Reserva da Biosfera pela Unesco em 9 de junho de 1994, a região é considerada um hotspot ecológico global — uma área de biodiversidade excepcional, com espécies endêmicas que só existem ali —, reconhecida por integrar a preservação dos ecossistemas com o desenvolvimento urbano, a segurança alimentar e a qualidade de vida de milhões de pessoas.
A reserva abrange 78 municípios do estado de São Paulo, concentra cerca de 24 milhões de habitantes — quase 10% da população brasileira — e responde por aproximadamente 20% do PIB nacional. Dentro de seu perímetro convivem distritos urbanos densos, zonas industriais, diversos tipos de agricultura e remanescentes florestais de Mata Atlântica e de Cerrado. É exatamente essa combinação de intensa pressão humana com alto valor de conservação que a torna um laboratório ideal para medir como a poluição afeta a vegetação nativa.
O que muda para as cidades
O estudo chega em um momento em que prefeituras de todo o país ampliam programas de arborização como resposta ao calor extremo e às enchentes. A escolha de espécies, porém, costuma seguir critérios de estética, velocidade de crescimento e facilidade de manutenção — raramente a tolerância à poluição. O mapa de resistência produzido pelo IPA oferece um critério adicional, baseado em evidência, para orientar essas decisões.
Para as espécies sensíveis, como a peroba-rosa, a conclusão não é abandoná-las, e sim plantá-las nos lugares certos: áreas de reflorestamento afastadas das fontes de emissão, onde possam cumprir seu papel ecológico sem o estresse contínuo dos poluentes urbanos. Para as espécies tolerantes, abre-se a possibilidade de uso mais intensivo justamente nas áreas mais degradadas, onde a vegetação é mais necessária e mais difícil de manter.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o valor do trabalho está em conectar duas agendas que costumam andar separadas. "Conservação da Mata Atlântica e arborização de cidade são tratadas como assuntos diferentes, com orçamentos diferentes e técnicos diferentes. O estudo do IPA mostra que são o mesmo problema visto de dois lados: as árvores nativas que sobrevivem à poluição são exatamente as que a cidade precisa, e as que não sobrevivem são as que a floresta precisa proteger. Fazer essa ponte é o que transforma pesquisa em política pública", analisa.
Os resultados completos do estudo, com a classificação das 29 espécies avaliadas, foram detalhados pela reportagem do ((o))eco e podem servir de referência para secretarias municipais de meio ambiente e projetos de restauração florestal em toda a área de ocorrência da Mata Atlântica.
Foto: Geospatial John (CC0) via Wikimedia Commons.