Um ataque de guerrilheiros com cerca de 20 drones contra uma guarnição militar no leste da Colômbia deixou ao menos dois soldados mortos e cinco feridos nesta sexta-feira (4), segundo as autoridades. O presidente Abelardo de la Espriella, que trava guerra aberta contra organizações ilegais com apoio dos Estados Unidos, responsabilizou o Exército de Libertação Nacional (ELN). "Digo ao ELN com absoluta clareza: por cada policial ou soldado que assassinarem, farei recair sobre vocês todo o peso e toda a força legítima do Estado", escreveu no X. O atentado ocorreu na região de Catatumbo, onde as forças de segurança realizam operações ofensivas por ordem do presidente — que na próxima semana recebe, em Barranquilla, o secretário de Estado americano, Marco Rubio. As informações são da Folha de S.Paulo.
Uma fonte do Exército na região afirmou à AFP que os guerrilheiros usaram pelo menos 20 drones carregados com explosivos. O prefeito de Ocaña, município onde fica a guarnição atacada, decretou toque de recolher noturno; vídeos nas redes sociais mostram estudantes de uma universidade deitados no chão das salas de aula, com o som das explosões ao fundo.
Catatumbo: a fronteira do ELN
Catatumbo, no departamento de Norte de Santander, na fronteira com a Venezuela, é uma das regiões mais violentas da Colômbia: concentra cultivos de coca, rotas de tráfico e a disputa entre o ELN e dissidências das Farc pelo controle do território. Desde janeiro de 2025, quando uma ofensiva do ELN contra as dissidências deixou dezenas de mortos e milhares de deslocados, a região vive sob estado de emergência. É lá que De la Espriella concentrou as operações ofensivas do primeiro mês de governo — e é lá que a guerrilha respondeu com a arma mais moderna de seu arsenal.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os drones mudam a equação. "Vinte drones com explosivos contra uma guarnição é tática de Ucrânia aplicada por guerrilha andina. O ELN não tem aviação, mas tem drone comercial de R$ 5 mil com granada amarrada — e isso basta para matar soldado dentro do quartel. O presidente promete 'todo o peso do Estado'; o problema é que o peso do Estado colombiano nunca conseguiu tomar Catatumbo em 60 anos. Agora a guerrilha tem asa. A resposta militar vai vir, com apoio americano; a pergunta é se toque de recolher e bombardeio resolvem uma guerra que se tornou tecnológica", avalia.
De la Espriella: um mês de guerra
Prestes a completar o primeiro mês no cargo, De la Espriella intensificou bombardeios e operações terrestres contra as organizações ilegais — e fez questão de mostrar: apareceu caminhando entre cadáveres cobertos com mantas brancas em entrevistas coletivas e vídeos divulgados pela presidência para prestar contas das ações. É a estética da "mão dura" que o elegeu, em contraste com o governo anterior, de Gustavo Petro, que apostou na "paz total" com negociações simultâneas com todos os grupos armados — estratégia que fracassou e deixou o ELN mais forte.
Escudo das Américas: o apoio de Trump
De la Espriella conta com o apoio de Donald Trump para atacar as máfias da cocaína. Em agosto, a Colômbia passou a integrar o Escudo das Américas, aliança antidrogas liderada pelo presidente americano que reúne governos alinhados do continente e prevê cooperação militar, inteligência e operações conjuntas. A visita de Marco Rubio a Barranquilla na próxima semana é o selo dessa aliança — e o ataque de Ocaña, às vésperas, é a mensagem do ELN de que a guerra não vai ser vencida com fotos.
ELN: a guerrilha que sobreviveu
O Exército de Libertação Nacional, fundado em 1964 sob inspiração da Revolução Cubana, é a última grande guerrilha da Colômbia após a desmobilização das Farc em 2016. Com cerca de 6 mil combatentes, financia-se com tráfico, mineração ilegal e extorsão, opera dos dois lados da fronteira com a Venezuela — onde teve, sob Maduro, refúgio e tolerância — e negociou com todos os governos recentes sem chegar a acordo. A queda de Maduro, capturado por militares americanos, tirou do ELN o santuário venezuelano; a ofensiva de De la Espriella tira o espaço colombiano. A resposta é escalar.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o ataque expõe o custo da nova estratégia. "Petro negociou e o ELN cresceu. De la Espriella bombardeia e o ELN mata soldado com drone. Nenhuma das duas abordagens funcionou até agora, porque o problema não é o ELN — é a coca. Enquanto Catatumbo for a região com mais coca do mundo, vai haver quem lute por ela, com fuzil ou com drone. O Escudo das Américas é aliança militar; o que Catatumbo precisa é de estrada, escola e cultura que pague mais que a coca. Isso nenhum secretário de Estado traz na mala", observa.
A herança de Petro: a "paz total" que não veio
O governo de Gustavo Petro (2022-2026) apostou em negociar simultaneamente com o ELN, as dissidências das Farc e o Clã do Golfo, sob o rótulo de "paz total". As mesas abriram e fecharam sucessivas vezes; o cessar-fogo com o ELN, decretado em 2023, ruiu em 2024 após ataques da guerrilha, e a ofensiva de janeiro de 2025 em Catatumbo — com dezenas de mortos e mais de 50 mil deslocados — foi o golpe final. Petro suspendeu o diálogo e decretou emergência; o ELN saiu da negociação mais forte territorialmente do que entrou. Foi sobre esse fracasso que De la Espriella construiu a candidatura da mão dura — e é a ele que a guerrilha responde agora com drones.
Venezuela sem Maduro: o santuário que acabou
Por duas décadas, o ELN usou o território venezuelano como retaguarda — acampamentos, rotas de droga e mineração de ouro em Bolívar e Amazonas, com tolerância do governo chavista. A captura de Nicolás Maduro por militares americanos e a transição em Caracas, sob supervisão de Washington, fecharam esse refúgio ou, ao menos, o tornaram incerto. Uma guerrilha sem santuário externo tende a dois caminhos: negociar ou escalar dentro do país. O ataque de Ocaña sugere o segundo — e explica por que De la Espriella, com a Venezuela neutralizada, sente que pode apertar sem que o ELN escape pela fronteira.
Drones: a nova arma das guerrilhas
O uso de drones comerciais adaptados com explosivos, popularizado na guerra da Ucrânia, chegou à América Latina pelas mãos de cartéis mexicanos e, agora, de guerrilhas colombianas. São baratos, difíceis de detectar e permitem atacar posições fortificadas sem expor combatentes. As forças armadas colombianas, treinadas para combate na selva, têm defesa antidrone limitada — e o ataque a Ocaña, com 20 aparelhos simultâneos, mostra capacidade de coordenação que preocupa. A cooperação com os EUA deve incluir sistemas de interferência e detecção, tecnologia que Washington desenvolveu para o Oriente Médio.
Ocaña: a cidade sob toque de recolher
Ocaña, com cerca de 100 mil habitantes, é o centro urbano de Catatumbo e sede de universidade, hospital regional e da guarnição atacada. O toque de recolher noturno decretado pelo prefeito é medida que a cidade conhece: já foi adotada em 2025, durante a ofensiva do ELN contra as dissidências. Os vídeos de estudantes deitados no chão das salas ilustram o que a guerra significa para civis — a rotina interrompida pelo som de explosões a poucas quadras.
O que vem: Rubio em Barranquilla
A visita de Marco Rubio deve formalizar acordos de cooperação no âmbito do Escudo das Américas — possivelmente incluindo apoio de inteligência, equipamento antidrone e treinamento. Para De la Espriella, é a chance de mostrar resultado a Washington; para o ELN, o ataque de Ocaña foi a forma de mostrar que ainda está lá. A escalada é provável: o presidente prometeu resposta proporcional a cada morte, e a guerrilha demonstrou que tem meios de provocar mais.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Brasil deveria acompanhar de perto. "Catatumbo fica na fronteira com a Venezuela, que agora é território de transição sob influência americana. O ELN opera na Amazônia venezuelana e brasileira — garimpo ilegal em Roraima tem dedo de guerrilha colombiana. Se De la Espriella e Rubio apertarem Catatumbo, o ELN vai para onde há menos Estado, e o norte do Brasil é candidato. Drone com explosivo em quartel colombiano hoje é drone em base de garimpo em Roraima amanhã. O Escudo das Américas não inclui o Brasil; o problema que ele empurra, inclui", analisa.
O ataque à guarnição militar de Ocaña, em Norte de Santander, ocorreu na sexta-feira (4). O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tem visita prevista a Barranquilla na semana seguinte.
Foto: Fernando Flores from Caracas, Venezuela (CC BY-SA 2.0) via Wikimedia Commons.