Os efeitos do El Niño de 2026 devem atingir as regiões do Brasil de modo distinto: Norte e Nordeste tendem a ter menos chuva e secas prolongadas; Sudeste e Centro-Oeste, temperaturas mais altas e alteração no regime de precipitação; no Sul, o principal risco é de chuvas volumosas, temporais e enchentes. O fenômeno — aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial que altera ventos e distribuição de calor e umidade — já está estabelecido e em intensificação, com alta probabilidade de alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026/2027, num planeta mais quente em que o ciclo da água se intensifica e territórios já vulneráveis a secas, chuvas extremas, enchentes e ondas de calor ficam mais expostos. As informações são do portal ((o))eco, em análise da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, a SPVS.
Nesse contexto, adaptar atividades produtivas, cidades e projetos ambientais deixou de ser prevenção e virou necessidade imediata — inclusive a restauração ecológica, que precisa de estratégias para reduzir a perda de mudas e o desperdício de recursos. A SPVS mantém três reservas em Antonina e Guaraqueçaba, no litoral do Paraná, com mais de 19 mil hectares, onde mais de 2 mil hectares de antigas pastagens de búfalos estão em restauração há 25 anos; desde 2024, trabalha em áreas remotas da Reserva Natural Papagaio-de-Cara-Roxa, no projeto Entre Mangues e Caranguejos — 316 hectares contíguos aos manguezais da Estação Ecológica de Guaraqueçaba, dos quais cerca de 30 hectares de braquiária, espécie exótica invasora, exigem intervenção direta e plantio de nativas. O projeto tem apoio da iniciativa Floresta Viva, pelo Edital Manguezais do Brasil, gerido pelo Funbio com recursos da Petrobras e do BNDES. As áreas estão em depressões do terreno sujeitas a acúmulo de água; sob um El Niño intenso, chuvas volumosas e inundações prolongadas podem comprometer a sobrevivência de mudas recém-plantadas — daí a antecipação do plantio e a escolha de espécies resistentes ao alagamento.
Mata Atlântica: 24% do que era
O bioma que mais perdeu cobertura na história do país conserva cerca de 24% da vegetação original — incluindo formações jovens e fragmentos pequenos — e apenas 12,4% de florestas maduras; o maior remanescente contínuo está entre o sul de São Paulo e o norte de Santa Catarina, passando pelo litoral do Paraná, onde a Grande Reserva Mata Atlântica reúne cerca de 3 milhões de hectares, mais de 110 unidades de conservação e comunidades tradicionais. Mais de 145 milhões de brasileiros vivem no território do bioma e dependem dos serviços que ele presta — água, proteção do solo, regulação do clima, redução de enchentes e deslizamentos —, o que faz da restauração de nascentes, margens de rios e áreas úmidas infraestrutura natural de segurança hídrica e de proteção das cidades, e do cumprimento do Código Florestal um investimento em resiliência, não um obstáculo ao desenvolvimento.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a análise da SPVS traz o El Niño para o nível da muda no chão. "Todo mundo fala de El Niño como manchete — seca no Nordeste, enchente no Sul. A SPVS fala do que isso significa para quem planta floresta em Guaraqueçaba: a muda de nativa colocada numa baixada em novembro vai morrer afogada em janeiro se o verão for o que a ciência prevê. A resposta é técnica e simples — plantar antes, escolher espécie que aguenta água — e é o tipo de adaptação que agricultura, saneamento e cidade vão precisar fazer em escala. Restauração com 25 anos de experiência sabe ler o clima. O resto do país precisa aprender rápido", avalia.
Antecipar o plantio: por quê
Mudas plantadas no início da estação chuvosa — outubro e novembro — enraízam antes do pico das chuvas e das inundações de janeiro e fevereiro; sob El Niño forte no Sul, com temporais precoces, a janela encurta, e a SPVS antecipou o plantio para que as plantas tenham semanas de estabelecimento antes do alagamento. É decisão que exige viveiro pronto, mão de obra e logística em áreas remotas acessíveis só por barco — e que evita perder o investimento de um ano.
Espécies que suportam alagamento
Em baixadas sujeitas a acúmulo de água, a escolha recai sobre nativas de ambientes úmidos e de transição com manguezal — guanandi, caxeta, embaúba, espécies de restinga alagável — que toleram raízes submersas por semanas; plantar espécies de terra firme nesses locais é desperdício. A seleção por microambiente é a base da restauração ecológica moderna, e o El Niño a torna decisiva.
Braquiária: a invasora que precisa sair
Gramínea africana introduzida para pastagem, a braquiária domina áreas abertas, impede a regeneração natural e alimenta incêndios; nos 30 hectares do projeto, precisa ser controlada — roçada, sombreada por plantio adensado — para que as nativas se estabeleçam. É o principal obstáculo à restauração de antigas pastagens em todo o país.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o financiamento é o dado que merece atenção. "Floresta Viva, Edital Manguezais, Funbio, Petrobras, BNDES — é dinheiro de estatal e de banco de desenvolvimento pagando para tirar braquiária e plantar nativa ao lado de manguezal no Paraná. É o modelo que o Brasil tem para restauração em escala: fundo gerido por terceiro, edital, ONG executando com ciência. A SPVS tem 25 anos de pasto de búfalo virando floresta. O que a análise pede, no fundo, é que o Código Florestal seja tratado como investimento — e que quem financia entenda que, com o clima mudando, o plantio precisa mudar de data e de espécie. Financiar restauração sem adaptação climática é jogar muda fora", observa.
Grande Reserva Mata Atlântica: o território
Iniciativa que articula unidades de conservação, comunidades caiçaras, quilombolas e indígenas, prefeituras e organizações em 3 milhões de hectares do litoral sul-sudeste, a Grande Reserva é o maior bloco contínuo de Mata Atlântica preservada — e o laboratório onde a SPVS testa restauração, turismo de natureza e produção de baixo impacto. Guaraqueçaba, com sua Estação Ecológica e seus manguezais, é o núcleo.
Manguezais: por que restaurar o entorno
Berçários de peixes e crustáceos, barreiras contra ressacas, estoques de carbono por hectare superiores a florestas terrestres — os manguezais dependem da vegetação de transição que os cerca; restaurar os 316 hectares contíguos à Estação Ecológica protege o mangue de sedimentos, fogo e invasoras, e conecta ecossistemas. O Edital Manguezais do Brasil financia justamente essa interface.
El Niño e a agricultura: a mesma lição
Janelas de plantio deslocadas, produtividade afetada, risco de perda — o que a SPVS aplica à restauração vale para a soja do Centro-Oeste, o arroz do Sul e a cana de São Paulo: antecipar, escolher variedades resistentes, planejar drenagem. A Embrapa e as cooperativas emitem alertas semelhantes para a safra 2026/27.
Código Florestal: obrigação e oportunidade
A recomposição de APPs e reservas legais prevista na Lei 12.651/2012, via Programa de Regularização Ambiental, é a maior demanda de restauração do país — milhões de hectares —; executá-la com técnica adaptada ao clima é o que a análise da SPVS defende, e o que separa cumprimento de papel de floresta em pé.
O que se espera do verão
Temporais e enchentes no Sul, calor no Sudeste, seca no Norte e Nordeste — e, nas reservas de Guaraqueçaba, o teste das mudas plantadas cedo em solo que vai alagar. O resultado, medido em sobrevivência na primavera de 2027, dirá se a adaptação funcionou.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a análise é aula de realismo ambiental. "Não adianta plantar árvore se o clima vai afogá-la. A SPVS olhou a previsão do El Niño, olhou o terreno em baixada, olhou o calendário e mudou o plano: planta antes, com espécie que aguenta água. É o que se espera de quem faz restauração há 25 anos — e o que se deve exigir de todo projeto financiado com dinheiro público de agora em diante. A Mata Atlântica tem 24% do que era; cada muda que morre afogada é um pedaço a menos. Adaptar é a única forma de restaurar", analisa.
A análise da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental sobre adaptação da restauração ecológica ao El Niño de 2026, com base no projeto Entre Mangues e Caranguejos na Reserva Natural Papagaio-de-Cara-Roxa, em Guaraqueçaba, foi publicada pelo portal ((o))eco em 3 de setembro de 2026.
Foto: JosepMGracia (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.