O que significa ter fartura ou viver de maneira abundante? A resposta varia de acordo com quem responde e, principalmente, com a forma como cada pessoa se relaciona com o que está ao seu redor. Nas comunidades amazônicas, a ideia de fartura não está necessariamente associada ao acúmulo de bens: antes de tudo, está relacionada à possibilidade de alimentar os seus. Ser uma pessoa farta pode significar ter o suficiente para a família e compartilhar o que se pesca, cultiva ou coleta com quem divide o mesmo território — é o peixe que alimenta os filhos e chega à casa do vizinho, a macaxeira servida no café da manhã que primeiro nutre a família e, quando há excedente, vira renda. As informações são de coluna publicada pelo ((o))eco pela superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável, a FAS.
Existe nessa dinâmica um forte senso de coletividade e uma forma particular de organizar a sobrevivência: o alimento nem sempre começa como mercadoria. A época do açaí, da bacaba, do patauá, da pesca e de tantos outros produtos organiza parte da alimentação e da renda das famílias, que aprendem a viver com a sazonalidade; as ocupações são flexíveis — o pescador pode ser extrativista, professor, liderança comunitária ou agente de saúde, funções conectadas a uma vida que não separa trabalho, comunidade e território. No ambiente urbano, a segurança se constrói de outra maneira: dependemos da renda e da capacidade de comprar ou substituir o que precisamos, e acumulamos recursos para períodos de dificuldade. As mudanças climáticas, porém, colocam as duas formas de viver diante da mesma pergunta: o que acontece quando aquilo que deveria estar disponível simplesmente desaparece? Nas comunidades, uma seca extrema altera o nível dos rios, dificulta deslocamentos, interfere na pesca e modifica os ciclos das espécies; na cidade, o impacto parece distante, mas logo aparece em feiras, mercados, preços e na qualidade dos alimentos. Exemplo: o tucumã ficou mais caro no Amazonas pela queda na produção causada pela seca de dois anos atrás — segundo o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do estado, eram 4 milhões de quilos em 2022, e entre 2023 e 2024 o número caiu para 2 milhões. Em 2026, a reflexão ganha importância com o fortalecimento do El Niño no Pacífico e as projeções de intensificação entre o fim do ano e o início de 2027: se, de um lado, o fenômeno pode reduzir chuvas e trazer seca a partes da Amazônia, de outro, a escassez chega à mesa de quem tem dinheiro para comprar. É nesse ponto que fartura e escassez se encontram: ter dinheiro deixa de ser garantia quando aquilo que se pretende consumir não foi produzido. A coluna ilustra com Tatiana Rodrigues Brasil, da Comunidade Quilombola do Tambor, no Rio Jaú, e sua pequena produção de óleo de andiroba.
As secas de 2023 e 2024: quando a floresta parou de produzir
A Amazônia viveu em 2023 a pior seca de sua história registrada e, em 2024, uma ainda pior: o Rio Negro atingiu em Manaus o nível mais baixo em 122 anos de medição, o Madeira secou a ponto de parar hidrelétricas e a navegação, o Solimões virou banco de areia em trechos, mais de 150 comunidades ficaram isoladas sem água potável, remédio ou combustível, botos e toneladas de peixes morreram no lago Tefé com água a 40 °C, e a fumaça de incêndios em floresta seca cobriu o Norte, o Centro-Oeste e chegou a São Paulo — tudo sob um El Niño forte somado ao aquecimento anômalo do Atlântico Norte. O tucumã que a coluna cita é o indicador que o consumidor de Manaus sente: a fruta do café da manhã amazonense, do sanduíche "X-caboquinho", custava R$ 10 o quilo e passou de R$ 25 quando as palmeiras, estressadas pela seca, produziram metade; açaí, castanha, pirarucu e camarão tiveram quedas semelhantes, e o preço subiu nas feiras para quem tem dinheiro e desapareceu da mesa para quem colhia. O argumento da FAS — fundação criada em 2008 pelo governo do Amazonas e pelo Bradesco para pagar por serviços ambientais a comunidades ribeirinhas, hoje presente em dezenas de unidades de conservação — é que a "fartura" comunitária, baseada em repartir e em várias fontes, é mais resiliente do que parece, mas não resiste a dois anos sem chuva; e a "segurança" urbana, baseada em comprar, descobre que dinheiro não faz palmeira produzir. Com o El Niño muito forte de 2026-27, a região se prepara para a terceira seca severa em quatro anos.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a coluna diz algo que a economia esquece. "Dinheiro é promessa de que alguém produziu; quando ninguém produziu, a promessa não vale. O ribeirinho sabe disso porque vive do ciclo — açaí em tal mês, peixe em tal outro — e reparte quando sobra, o que é seguro de vida coletivo. O morador de Manaus descobriu com o tucumã a R$ 25. E o morador de Araras vai descobrir com o arroz, o feijão e a carne quando o El Niño secar o Norte e inundar o Sul ao mesmo tempo. A FAS está dizendo que somos todos dependentes da mesma chuva; a diferença é que uns sentem antes. O portal registra a coluna como aviso de quem mora na fonte — e lembra que a seca de 2024 chegou a São Paulo em forma de fumaça, e a de 2027 pode chegar em forma de preço", avalia.
Fartura na comunidade: alimentar e repartir
Peixe, macaxeira, açaí, castanha, caça, roça — a subsistência ribeirinha combina pesca, extrativismo e agricultura de pequena escala, com excedente vendido ou trocado; a partilha com vizinhos e parentes é regra social, não caridade, e funciona como rede de segurança quando uma fonte falha — desde que não falhem todas ao mesmo tempo.
Sazonalidade: o calendário da floresta
Açaí de agosto a dezembro no estuário, bacaba e patauá no fim do ano, pesca farta na vazante, castanha na chuva — cada produto tem época, e a vida se organiza em torno delas; a seca extrema embaralha o calendário: frutas não vingam, peixes não sobem, rios não permitem transporte.
Ocupações flexíveis: uma pessoa, várias funções
O pescador que é agente de saúde, professor e liderança comunitária é retrato das comunidades da FAS — multiplicidade que dilui o risco e sustenta a organização local, mas que também mostra a escassez de renda estável; programas de pagamento por serviços ambientais tentam complementar.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o tucumã é o indicador mais honesto da economia amazônica. "Não tem IBGE que mostre melhor: 4 milhões de quilos em 2022, 2 milhões depois da seca, preço dobrado na feira de Manaus. É a inflação do clima, medida em fruta. E vale para tudo que a floresta produz — açaí, castanha, pirarucu, andiroba —, cadeias que sustentam centenas de milhares de famílias e que a cidade compra sem saber de onde vem. A FAS, que paga comunidades para manter a floresta em pé, sabe que sem chuva não há bolsa que resolva. O portal registra e conecta: o El Niño que o ONS teme para o reservatório do Sudeste é o mesmo que seca o igarapé do quilombo do Tambor. Somos, de fato, dependentes dos mesmos ciclos", observa.
Tucumã: de 4 milhões a 2 milhões de quilos
A palmeira que dá a fruta laranja do café amazonense sofreu com a seca de 2023, e a safra de 2023-24 caiu à metade, segundo o Idam; o preço no varejo de Manaus mais que dobrou, e a recuperação depende de chuva regular — que o El Niño de 2026-27 ameaça.
El Niño 2026-27: a terceira seca em quatro anos
Com o fenômeno classificado como muito forte e pico no fim do ano, a Amazônia central e oriental deve ter chuva abaixo da média até o início de 2027; governo, FAS e Defesa Civil preparam estoques de água, combustível e alimentos para comunidades que ficam isoladas — e o mercado de Manaus prepara preços.
A cidade também depende: preço, qualidade, ausência
Quando a safra falha, o produto amazônico some da feira, encarece ou chega em pior qualidade; o consumidor urbano — de Manaus a São Paulo — sente a floresta pela gôndola; a coluna argumenta que reconhecer essa dependência é o primeiro passo para valorizar quem produz e a floresta que sustenta a produção.
Educar para a dependência mútua
A FAS, que mantém escolas e programas de formação em comunidades, propõe ensinar às novas gerações — urbanas e ribeirinhas — que a floresta em pé tem gente dentro, que essa gente produz o que a cidade consome, e que os ciclos que alimentam uma alimentam a outra; é a educação ambiental como economia, não como ecologia.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a coluna deveria ser lida ao lado do alerta do ONS. "No mesmo dia, o operador do sistema elétrico diz que pode faltar água no reservatório do Sudeste e a FAS diz que faltou tucumã na feira de Manaus. É a mesma seca, o mesmo El Niño, a mesma chuva que não veio. A diferença é quem paga primeiro: o ribeirinho, com fome; o manauara, com preço; o paulista, com bandeira vermelha. A coluna ensina que o dinheiro compra o que foi produzido — e que a floresta é quem produz. O portal registra: em Araras, onde a cana também depende de chuva, a lição vale igual", analisa.
A coluna da superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável sobre fartura, escassez e dependência dos ciclos naturais foi publicada pelo ((o))eco em 4 de setembro de 2026; a produção de tucumã no Amazonas caiu de 4 milhões de quilos em 2022 para 2 milhões entre 2023 e 2024, segundo o Idam, em consequência da seca.
Foto: Johannnindito Adisuryo (Yohanes Nindito Adisuryo) (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.