Meio Ambiente

Fuligem de carros, usinas a carvão e fábricas já responde

Modelagem chinesa atribui ao carbono negro um terço da perda glacial entre 2007 e 2016; lockdowns de 2020 reduziram o derretimento em 40%.

Fuligem de carros, usinas a carvão e fábricas já responde

A poluição por fuligem já é ligada ao aumento do risco de colapsos de geleiras no Himalaia — tema que ganhou urgência após o desastre que devastou vales do Nepal no fim de agosto, com mais de 1.300 mortos e milhares de desaparecidos. Geleiras antes brancas estão cada vez mais cobertas por resíduos de exaustão de carros, usinas a carvão e fábricas, segundo reportagem do New York Times repercutida pelo Olhar Digital; a camada escura faz o gelo absorver mais calor e derreter mais rápido. Uma modelagem da Academia Chinesa de Ciências estimou que o carbono negro do Sul da Ásia respondeu por até um terço da perda total de massa glacial no Himalaia entre 2007 e 2016. As informações são do Olhar Digital.

"Isso está tendo um impacto enorme nessas geleiras, especialmente à medida que elas ficam cada vez mais finas", disse Marco Tedesco, professor de geofísica do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Columbia, ao jornal americano. A ONU alertou nesta semana que o aquecimento global deve ultrapassar 1,5°C nos próximos anos, intensificando a pressão sobre geleiras e cidades costeiras.

Albedo: por que a cor importa

O fenômeno enfraquece o efeito albedo — a capacidade de uma superfície refletir energia solar de volta ao espaço. Neve limpa em alta altitude reflete até 90% da luz recebida; quando fuligem e poeira se depositam, a reflexividade cai, e a superfície passa a absorver calor em vez de devolvê-lo, "como uma camiseta preta usada sob sol forte". A diferença entre refletir 90% e 60% da radiação, numa geleira exposta ao sol de alta montanha por meses, é a diferença entre estabilidade e derretimento acelerado — e o carbono negro é o agente mais eficiente de escurecimento que existe.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a notícia muda a leitura do desastre nepalês. "A avalanche que matou 1.300 pessoas foi tratada como tragédia natural agravada pelo aquecimento global. A ciência está dizendo que um terço do derretimento não vem do CO2 — vem da fuligem de Nova Délhi, Lahore e Daca depositada no gelo. Isso é diferente: o CO2 fica séculos na atmosfera; a fuligem some em semanas. Reduzir queima de carvão e diesel no Sul da Ásia clareia a neve quase de imediato — os lockdowns de 2020 provaram, com 40% menos derretimento. É a política climática mais rápida disponível no planeta, e ninguém a chama assim", avalia.

Poeira do Paquistão nas geleiras

Um estudo com seis anos de dados de satélite mostrou como fuligem e poeira mineral das áreas industriais do Paquistão viajam até geleiras de alta altitude e escurecem sua superfície. "Podemos notar cada vez mais perda no futuro se a poluição continuar sem controle. E corremos o risco de mais enchentes, como vimos no Nepal", disse Abira Sengupta, pesquisadora da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que liderou o estudo. A fuligem no ar também prende calor sobre as montanhas, altera a formação de nuvens e reduz as nevascas regionais — privando as geleiras da neve nova de que precisam.

O ciclo que se retroalimenta

"Quando essa camada escura começa a absorver calor, ela derrete a superfície ao redor, o que pode revelar camadas ainda mais antigas de poeira e detritos presos no gelo abaixo. Então, à medida que o derretimento acelera, existe um ciclo que se retroalimenta", explicou Aashutosh Paudel, pesquisador da Universidade Tribhuvan, no Nepal. Cada camada de gelo que derrete expõe a sujeira acumulada em décadas anteriores, que escurece ainda mais a superfície — a geleira fica progressivamente mais escura e mais fina, até o ponto de instabilidade.

Um terço a menos em 30 anos

Segundo a ONU, as geleiras das montanhas nepalesas encolheram um terço em 30 anos, o que aumentou sua instabilidade. Pesquisas apontam que a região do Hindu Kush-Himalaia pode perder até metade da cobertura glacial até o fim do século, mesmo em cenários de aquecimento contido a 2°C. Levan Tielidze, da Universidade Monash, lembra que o Himalaia não é "um ambiente congelado e relativamente estável", mas "sistemas dinâmicos nos quais interagem geleiras, neve, permafrost, encostas rochosas, rios e processos de monção".

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Himalaia é o problema de dois bilhões de pessoas. "As geleiras do Hindu Kush-Himalaia alimentam o Ganges, o Indo, o Brahmaputra, o Yangtzé, o Mekong — os rios de que dependem Índia, Paquistão, Bangladesh, China e o Sudeste Asiático. Perder metade do gelo até 2100 é perder a regulação de água de um quarto da humanidade. E a fuligem é o fator que se pode controlar em anos, não em séculos. A Índia e o Paquistão, que brigam por tudo, têm aqui o interesse mais comum possível: o carvão de um escurece a geleira que abastece o outro", observa.

Enchentes de lagos glaciais: cinco vezes mais

Enchentes provocadas pelo rompimento de lagos glaciais — os GLOFs, na sigla em inglês — aumentaram cinco vezes por década desde os anos 1950 na região, segundo Dipesh Chapagain, do Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas. O derretimento forma lagos represados por morainas instáveis; quando a barreira cede, a água desce os vales com força destrutiva. O desastre de agosto no Nepal e no Tibete seguiu esse padrão — colapso de geleira no topo, avalanche de lama e água nos vales.

Blatten: o que o alerta evita

Em 2025, o colapso de uma geleira nos Alpes suíços destruiu a vila de Blatten — e resultou em apenas uma morte, porque o monitoramento detalhado permitiu evacuar a população a tempo. No Himalaia, que abriga mais de 63,7 mil geleiras e carece de sistemas de alerta precoce, isso é muito mais difícil. Tielidze defende sistemas integrados que combinem satélites, detecção sísmica e alertas automatizados — infraestrutura que custa fração do prejuízo de US$ 2,56 bilhões estimado no Nepal.

Carbono negro: some em semanas

Diferentemente do CO2, que persiste na atmosfera por séculos, o carbono negro desaparece do ar em dias ou semanas — o que significa que reduzir as emissões limpa o ar quase de imediato. Um estudo de 2023 do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical usou os lockdowns da Covid-19 em 2020 como experimento real: a queda temporária na poluição deixou a neve mais clara e reduziu o derretimento no Himalaia em até 40%. É evidência de que política de qualidade do ar — filtros em usinas, diesel limpo, fim da queima de resíduos — tem efeito glacial direto.

As fontes: carvão, diesel, queima

O carbono negro do Sul da Ásia vem de usinas termelétricas a carvão da Índia e do Paquistão, de veículos a diesel sem filtro, de fornos de tijolo, da queima de palha após a colheita no Punjab e de fogões domésticos a lenha e esterco. São fontes dispersas, ligadas à pobreza e ao crescimento industrial, e sua redução exige investimento em tecnologia e em alternativas — gás de cozinha, transporte elétrico, filtros — que os países da região vêm adotando lentamente.

"Adaptar, não a um apocalipse"

"O que aprendemos com isso é que podemos nos adaptar às mudanças climáticas, mas não a um apocalipse climático", disse Shreya K.C., copresidente de um grupo de advocacy da Loss and Damage Youth Coalition, sediado em Katmandu. A frase resume a posição dos países de montanha nas negociações climáticas: adaptação tem limite, e o fundo de perdas e danos — criado para financiar exatamente casos como o nepalês — precisa sair do papel.

O que o Brasil tem a ver

O Brasil não tem geleiras, mas tem carbono negro: queimadas na Amazônia e no Cerrado emitem fuligem que escurece a neve dos Andes — estudos mostram deposição de fumaça amazônica em geleiras da Bolívia e do Peru, com o mesmo efeito de albedo. A lição do Himalaia se aplica: controlar queimadas é, também, proteger a água andina de que dependem Lima, La Paz e Quito.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a ciência entregou uma solução e a política precisa pegar. "Um terço do derretimento do Himalaia vem de fuligem que some em semanas se parar de ser emitida. Não é preciso esperar 2050 nem a COP: é filtro em usina, diesel limpo e fim da queima de palha — coisas que a Índia e o Paquistão sabem fazer e não fazem por custo. O Nepal enterrou 1.300 pessoas em agosto. Se a fuligem cair pela metade, a neve clareia em um ano e a próxima geleira demora mais a cair. É a política climática mais barata e mais rápida do mundo, e está sendo tratada como nota de rodapé", analisa.

A estimativa de que o carbono negro respondeu por até um terço da perda de massa glacial no Himalaia entre 2007 e 2016 é da Academia Chinesa de Ciências. A avalanche de 26 de agosto de 2026 deixou mais de 1.300 mortos no Nepal e no Tibete.

Foto: Wikimedia Commons (Public domain) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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