Meio Ambiente

Guarda indígena, direitos da natureza, flotilha até a COP30 e música

"A Amazônia não precisa de heróis. Precisamos negociar e ocupar cargos", diz Alexis Grefa; povo Siekopai, com 800 pessoas, patrulha território "em perigo de extinção".

Guarda indígena, direitos da natureza, flotilha até a COP30 e música

Contra todo tipo de ameaça, povos indígenas empregam diferentes instrumentos de proteção em seus territórios: articulação jurídica, incidência internacional, ativismo, equipes de vigilância, navegações em comboio e até música. Foi o que mostraram lideranças de diferentes povos no TEDxAmazônia, realizado no Equador na última semana. "Durante muito tempo pensei que defender a Amazônia significava somente resistir", disse Alexis Grefa, dirigente de Assuntos Internacionais da etnia kichwa de Pastaza. "Mas a Amazônia não precisa de heróis. Precisamos negociar, criar propostas e ocupar cargos nas decisões sobre o futuro do planeta." As informações são da Folha de S.Paulo.

Grefa integrou no ano passado uma flotilha até a COP30, em Belém, com representantes de 60 organizações indígenas que exigiam transição energética justa. O evento, organizado em parceria com o TEDxQuito, reuniu lideranças, cientistas, empreendedores e artistas de diferentes países amazônicos para mostrar conexões entre os Andes e a Amazônia — e soluções para a defesa dos territórios.

Siekopai: 800 pessoas e uma guarda

Resistência é o que Davixon Payaguaje aprendeu. Coordenador da Guarda Indígena Siekopai, ele lidera patrulhamentos para identificar invasões, desmatamento e outras ameaças ao território de seu povo — hoje 800 pessoas, em Sucumbíos, entre o Equador e a Colômbia. "Nossa nacionalidade está em perigo de extinção", diz. Antigamente, conta, os antepassados protegiam a comunidade pela ingestão de yagé, a ayahuasca, tradição que reafirma o vínculo espiritual com a terra: "Transformavam-se em onça, em jiboia ou qualquer espírito para cuidar do território. Infelizmente, isso se perdeu. Hoje protegemos fisicamente o território, fazendo monitoramentos e percorrendo-o com os guardas."

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase de Davixon resume uma transição. "Os antepassados viravam onça; os netos viram guarda com GPS e rádio. É a mesma função — proteger o território — com ferramentas diferentes, porque a ameaça mudou: não é mais o espírito, é a motosserra. Oitocentas pessoas patrulhando fronteira entre Equador e Colômbia, onde há petróleo, garimpo e guerrilha, é o Estado que não existe substituído por quem sempre esteve lá. A guarda indígena não é folclore; é a única polícia ambiental que funciona em boa parte da Amazônia", avalia.

Indonésia: 50 milhões de indígenas e o dinheiro que não chega

Estratégia diferente adota Rukka Sombolinggi, secretária-geral da Aman, aliança dos povos indígenas do arquipélago indonésio — país com uma das maiores populações indígenas do mundo, ao menos 50 milhões de pessoas, contra 1,7 milhão no Brasil, segundo o IBGE. A constituição indonésia reconhece os povos tradicionais, mas faltam mecanismos legais e financiamento para proteger territórios. "Estamos sempre lutando contra os mesmos inimigos, contra as mesmas empresas em diferentes lugares", diz. As ameaças são as de sempre — mineração, desmatamento, grilagem, agronegócio, madeira ilegal — e o financiamento climático que deveria chegar aos povos fica no caminho: "A maior parte do dinheiro fica nos escritórios que trabalham com povos indígenas. E, enquanto isso, nossos líderes são assassinados por proteger a natureza."

Equador: direitos da natureza desde 2008

No Equador, a proteção à natureza ganhou status de lei em 2008, quando a constituição reconheceu os direitos da natureza — luta encabeçada por Patricia Gualinga, defensora histórica dos direitos humanos diante do extrativismo petrolífero no território Sarayaku. O caso Sarayaku é referência continental: em 2012, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Equador por permitir exploração de petróleo no território sem consulta ao povo kichwa, e a comunidade tornou-se símbolo da resistência à indústria petroleira na Amazônia.

Autogovernança, não "Estado dentro do Estado"

Gualinga afirma que, para se fortalecerem, os povos precisam de governos territoriais indígenas — o que não significa "um Estado dentro de outro Estado". "É uma autogovernança para que possam reivindicar títulos de propriedade, exigir direitos, impedir a aplicação do marco temporal e exigir que a contaminação não fique impune", diz. Ela vê avanços no Brasil: "Há 20 anos, quando viajei ao Brasil e dizia que era indígena, pessoas me olhavam como se eu fosse estranha, um símbolo folclórico, porque não conheciam os povos da Amazônia. Agora há ministros e parlamentares indígenas."

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a menção ao marco temporal por uma líder equatoriana é significativa. "Patricia Gualinga fala de autogovernança e cita o marco temporal — a tese brasileira de que só vale terra ocupada em 1988. Ela sabe que, se o Brasil consolidar o marco, o Peru e o Equador copiam. A Amazônia é uma só, e a jurisprudência viaja. O Brasil tem ministra indígena, tem deputadas indígenas — e tem Congresso que aprovou o marco temporal por cima do STF. Gualinga elogia o avanço e avisa sobre o retrocesso na mesma frase. É diplomacia de quem enfrentou petroleira e Corte Interamericana", observa.

A música de Eric Terena

O território Sarayaku inspirou uma das músicas do DJ brasileiro Eric Terena, que se apresentou no TEDxAmazônia. "Toco essa música em vários países e as pessoas não entendem, mas repetem a letra, que fala dos petroleiros invadindo, da mineração chegando e que é preciso proteger o território. Esse é o modo da música curar", diz. Ele contrapõe o som das máquinas de mineração na floresta: "É um massacre acústico. Um som invasor que ensurdece e prejudica nossa relação com a natureza." Terena, do povo terena de Mato Grosso do Sul, é um dos artistas indígenas brasileiros com maior circulação internacional.

Guardas indígenas no Brasil

O modelo da guarda Siekopai tem equivalentes brasileiros: os Guardiões da Floresta, do povo guajajara, na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, patrulham contra madeireiros há mais de uma década — e pagaram com vidas, como a de Paulo Paulino Guajajara, assassinado em 2019. Em Roraima, os yanomami organizaram vigilância contra o garimpo; no Pará, os munduruku expulsaram balsas de dragagem do Tapajós. São iniciativas que o Estado passou a apoiar formalmente a partir de 2023, com a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas financiando equipamentos e treinamento — mas que continuam expondo os guardiões ao risco que o Estado deveria assumir.

Da flotilha à COP30: incidência internacional

A flotilha de 60 organizações que desceu rios até Belém em 2025 foi o exemplo mais visível de incidência internacional — levar a pauta indígena ao centro da conferência climática, na cidade-sede, por via fluvial. A COP30 criou espaço formal para povos indígenas nas negociações e discutiu financiamento direto a territórios, o ponto que Rukka Sombolinggi cobra. A distância entre o compromisso e o dinheiro na ponta é o que as lideranças medem agora.

Andes e Amazônia: uma floresta, vários países

"Indígenas são fundamentais para a biodiversidade global e estão na linha de frente sofrendo ameaças por defenderem a floresta", diz Rodrigo V. Cunha, organizador do TEDxAmazônia. "E não basta falar de um só país quando o que está em risco é o futuro do clima no planeta." A Amazônia se estende por nove países, e as ameaças — petróleo no Equador, coca e mineração na Colômbia, garimpo no Brasil e na Venezuela — cruzam fronteiras como os rios. A articulação entre povos de países diferentes é resposta a isso.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o TEDx mostrou o que a política climática não mostra. "Alexis Grefa disse a frase do evento: a Amazônia não precisa de heróis, precisa de gente em cargo. É o oposto do romantismo com que o mundo trata o indígena — o guardião silencioso da floresta. Ele quer negociar, ocupar, decidir. Sonia Guajajara no ministério, Célia Xakriabá na Câmara — o Brasil está à frente nisso, e a líder equatoriana reconheceu. O que falta é o dinheiro chegar ao território em vez de parar no escritório, como disse a indonésia. Trezentos anos depois, a pauta é a mesma: terra e autonomia. Só mudou o palco", analisa.

O TEDxAmazônia foi realizado no Equador na última semana de agosto de 2026, em parceria com o TEDxQuito, com participação de lideranças indígenas do Equador, da Colômbia, da Indonésia e do Brasil.

Foto: Wikimedia Commons (Public domain) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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