Meio Ambiente

Incêndios cada vez maiores estão apagando florestas do oeste dos Estados Unidos

Estudo na Science Advances analisou 3.500 incêndios e concluiu que o fogo avança rápido demais para a regeneração; cientistas testam "migração assistida" de mudas de altitudes mais quentes.

Incêndios cada vez maiores estão apagando florestas do oeste dos Estados Unidos

Em uma encosta do lado oeste da serra Nevada, na Califórnia, onde uma cobertura de pinheiros-amarelos-do-oeste existiu por séculos, incêndios florestais transformaram cerca de 688 hectares em área descampada coberta por arbustos marrons. Segundo os cientistas, essa floresta desapareceu para sempre: arbustos espinhosos e carvalho-venenoso ocuparam o lugar das árvores, e o que restou dos pinheiros foram troncos queimados. O caso ilustra uma transformação em curso em todo o oeste dos Estados Unidos, do Oregon ao Novo México, em que incêndios maiores e mais intensos avançam por florestas que não evoluíram para sobreviver a chamas tão fortes nem a um clima mais quente. Estudos recentes estimam que até 40% das florestas de coníferas da região se converterão em vegetação arbustiva até 2100. As informações são da Folha de S.Paulo.

"Trata-se de uma mudança permanente de um tipo de ecossistema para outro fundamentalmente diferente", disse Winslow Hansen, ecólogo florestal do Cary Institute of Ecosystem Studies, centro de pesquisa independente em Millbrook, Nova York. As consequências para as pessoas e a vida selvagem, segundo os pesquisadores, devem ser profundas.

Sem árvores, a neve derrete antes

O primeiro efeito é hídrico. Alguns estados do oeste americano obtêm até 75% de sua água do derretimento da neve acumulada nas montanhas durante o inverno. As florestas funcionam como reguladoras desse processo: a sombra das copas retarda o degelo e distribui a água ao longo da primavera e do verão. "Quando a floresta é removida, essa neve fica mais sujeita a derreter antes do tempo", disse Benjamin Hatchett, cientista da Universidade Estadual do Colorado. O resultado é água demais cedo e de menos depois — para comunidades que já enfrentam escassez.

Hatchett acrescenta que o clima mais quente e árido resseca o solo e retira umidade das plantas, tornando-as mais suscetíveis ao fogo. "Essa atmosfera mais sedenta é uma grande preocupação", afirmou. É um ciclo: o calor seca a floresta, a floresta queima, a área queimada perde a capacidade de reter água e a região fica mais seca.

Carbono: a floresta que some aquece o futuro

As florestas absorvem da atmosfera o dióxido de carbono que aquece o planeta — e árvores maiores e mais velhas armazenam muito mais carbono do que árvores jovens e arbustos. A perda das florestas de coníferas hoje, portanto, significa menos absorção amanhã: a mudança de ecossistema converte um sumidouro de carbono em uma paisagem que estoca pouco. "A perda das florestas de coníferas hoje significa um amanhã mais quente", resume a reportagem.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o mecanismo tem paralelo direto com a Amazônia. "É o mesmo ciclo que os cientistas descrevem para a floresta amazônica: fogo mais frequente, regeneração que falha, substituição por vegetação mais baixa que estoca menos carbono e retém menos água. Nos Estados Unidos, o resultado é pinheiro virando arbusto; no Brasil, é floresta virando savana degradada. A física é a mesma. O que muda é que lá eles têm 40 pesquisadores medindo em tempo real, e aqui a discussão ainda é se o problema existe", avalia.

Nenhuma muda: a regeneração que parou

Para entender os efeitos em cascata, Hansen e Johan Eckdahl, pós-doutorando da Universidade da Califórnia em Berkeley, visitaram a serra Nevada neste mês. Em uma área de pesquisa de 30 metros em uma encosta que queimou no incêndio Oak, em 2022, catalogaram cada planta com flores e cada arbusto, coletaram terra e mediram umidade e temperatura do solo. Em condições normais, mudas brotariam por toda parte após um incêndio; árvores jovens cresceriam, disputariam espaço, água e luz, e a floresta retornaria em uma ou duas décadas.

Não foi o que encontraram. "Não encontramos uma única muda de pinheiro-amarelo-do-oeste", disse Hansen. "As suas sementes se adaptaram ao fogo. É assim que ela vive. Mas os incêndios são simplesmente quentes demais para elas." A combinação de fogo mais intenso com clima mais quente e seco interrompeu um processo de regeneração que funcionou por milênios. Mesmo quando as mudas se estabelecem, enfrentam condições adversas: em toda a serra Nevada, cerca de um quinto das coníferas não está bem adaptado ao clima atual.

3.500 incêndios: o estudo da Science Advances

A constatação de campo é confirmada em escala. Neste mês, Jonathan Coop, ecólogo especializado em incêndios da Western Colorado University, e colegas publicaram na revista Science Advances um estudo que analisou quase 3.500 incêndios florestais ocorridos entre 2012 e 2023 em florestas de coníferas do Canadá e do oeste dos Estados Unidos. A conclusão: os incêndios se tornaram tão extensos e avançam tão rapidamente que as sementes de pinheiro não conseguem se regenerar — a distância entre a área queimada e a árvore-mãe sobrevivente mais próxima ficou grande demais.

"As florestas têm uma resiliência inata e, em circunstâncias normais, conseguem suportar um ou dois golpes e se recuperar", disse Coop. "Mas as circunstâncias simplesmente não são mais normais." Ele acompanha a mudança há duas décadas e cresceu tendo como playground as montanhas Jemez, no norte do Novo México — região que queimou duas vezes desde os anos 1970 e hoje está praticamente sem árvores. "Quase não há sinal de que um dia tenham existido florestas ali, muito menos de que estejam voltando. Restam apenas alguns troncos carbonizados, parecidos com palitos de fósforo."

Onde o risco é maior

Em todo o sudoeste dos Estados Unidos — mais seco e sujeito a estiagens mais longas do que a costa noroeste do Pacífico —, as florestas de pinheiros correm risco particularmente alto de não se recuperar, segundo Coop. O padrão sugere que a transformação não será uniforme: regiões mais úmidas podem preservar suas coníferas por mais tempo, enquanto o Novo México, o Arizona e o sul da Califórnia tendem a perder cobertura florestal mais rápido.

Monitorando com satélite e mapeamento 3D

Além do trabalho no Cary Institute, Hansen dirige a Colaboração para a Resiliência a Incêndios Florestais no Oeste, grupo de 40 pesquisadores que usa sensoriamento remoto por satélite, mapeamento 3D e modelos computacionais de clima futuro para monitorar a saúde das florestas. Neste verão americano, equipes contratadas pelo grupo mapeiam a gravidade dos incêndios em mais de 100 locais na Califórnia, no Colorado e no Novo México, para orientar pesquisas sobre como umidade, nutrientes e microrganismos do solo influenciam a recuperação — e quanto tempo ela leva.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a escala do monitoramento é o que permite agir. "Cem locais mapeados, satélite, 3D, modelo climático: os americanos estão medindo a morte da floresta com precisão de metro. Não para lamentar — para decidir onde plantar, que espécie, de que altitude. É ciência aplicada a uma perda que já aconteceu. O Brasil tem o Inpe, tem o MapBiomas, tem capacidade equivalente. O que falta é tratar a Amazônia e o Cerrado com a mesma urgência que a Califórnia trata a serra Nevada", observa.

Migração assistida: plantar a árvore do futuro

À medida que a regeneração natural perde força, cientistas tentam dar uma ajuda. Em Montana, Kimberley Davis, ecóloga do Serviço Florestal dos Estados Unidos, trabalhou com a Conservation International em um experimento de "migração assistida": coletaram mudas de lariço-ocidental — conífera nativa que pode chegar a 61 metros — a 1.036 metros de altitude e as plantaram em uma área queimada entre 1.400 e 1.890 metros. As mudas de altitudes mais baixas, adaptadas a clima mais quente, cresceram melhor do que as retiradas de altitudes maiores.

Experimentos semelhantes estão em andamento na Califórnia e no estado de Washington. A lógica é antecipar o clima: se a montanha vai ficar mais quente, plantar hoje a árvore que já vive em lugares mais quentes. "Manter o maior número possível de árvores vivas na paisagem quando ela queima é realmente importante", disse Davis. "Porque a fonte de sementes é muito importante."

Incerteza: "a biologia sempre traz surpresa"

Todos os pesquisadores ouvidos pela reportagem reconhecem incerteza considerável na previsão de quais florestas sobreviverão. Apesar das ferramentas de aprendizado de máquina, sensoriamento remoto e análise genética, ainda é difícil identificar a fórmula de uma floresta bem-sucedida. Os cientistas calculam com base em temperatura, umidade e outros fatores, disse Hatchett, "mas as plantas seguem seu próprio rumo". "A biologia sempre vai trazer alguma surpresa."

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a lição é sobre o que "recuperação" significa. "A gente fala em reflorestar como se bastasse plantar e esperar. A serra Nevada mostra que, quando o clima muda, a floresta antiga não volta — nem plantada. O que pode voltar é outra floresta, com outra espécie, de outra altitude, escolhida por gente que entende de clima futuro. É uma mudança de mentalidade: parar de restaurar o passado e começar a plantar o que vai sobreviver. Vale para a Califórnia e vale para o Pará", analisa.

O estudo de Coop e colegas está publicado na Science Advances. A Colaboração para a Resiliência a Incêndios Florestais no Oeste deve divulgar os resultados do mapeamento de 2026 no próximo ano.

Foto: shankar s. from Dubai, united arab emirates (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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