Meio Ambiente

"O todo é maior do que a soma das partes"

Evento de 26 a 28 de agosto, na Rede Trinacional com Argentina e Paraguai, consolida um campo nascido na CoPCoex da ESALQ-USP em 2019 e definido pela IUCN em 2026.

"O todo é maior do que a soma das partes"

Entre os dias 26 e 28 de agosto, o Projeto Onças do Iguaçu realizou o I Simpósio Internacional de Coexistência, o SICOEX — primeiro evento no Brasil dedicado exclusivamente ao tema —, organizado no âmbito da Rede Trinacional de Coexistência. O encontro reuniu cerca de 200 pessoas no Parque Nacional do Iguaçu para falar sobre coexistência entre pessoas e fauna silvestre: pesquisadores, gestores de áreas protegidas, profissionais de campo, organizações da sociedade civil e pessoas que trabalham diretamente com comunidades, principalmente do Brasil, da Argentina, do Paraguai, do México, do Chile e do Peru. As informações são de coluna publicada pelo ((o))eco pela coordenadora do projeto, doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil e pesquisadora associada do Instituto Pró-Carnívoros.

Para a equipe, o desafio foi maior do que organizar um evento desse porte: enquanto no auditório se discutiam atendimento a predações, medidas preventivas, monitoramento, relacionamento e confiança, chegavam notícias de um conflito real acontecendo naquele exato momento — um caso particularmente complicado de predação de um potro por uma onça-parda. Tudo "ao mesmo tempo agora". Conflitos entre pessoas e animais silvestres não são novos; o que está mudando é a maneira como a conservação começa a olhar para eles. Nos últimos anos, a coexistência vem deixando de ser assunto periférico: grupos se formam, experiências se conectam e redes nascem. Uma das iniciativas pioneiras no Brasil foi a CoPCoex, a Comunidade de Prática em Coexistência Humano-Fauna, criada em 2019 a partir de um grupo ligado ao Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação de Fauna Silvestre da ESALQ-USP; depois vieram a Rede Pantaneira de Coexistência e, na Tríplice Fronteira, a Rede Trinacional, reunindo instituições do Brasil, da Argentina e do Paraguai. A criação desses fóruns reflete uma mudança na forma de entender o desafio de conservar fauna em paisagens ocupadas por pessoas, e em 2026 o Grupo Especialista em Conflito e Coexistência Humano-Fauna da IUCN publicou uma definição específica para o termo. A tese da coluna é que podemos ter excelentes protocolos, uma equipe treinada, equipamentos adequados e as melhores medidas preventivas — mas há algo que não cabe no checklist: a construção da relação. Moradores que participam da captura de uma onça na própria propriedade, como registra a foto que ilustra o texto, são a imagem dessa relação em construção.

Onça, boi, potro e gente: o conflito que a conservação demorou a levar a sério

O Parque Nacional do Iguaçu, com 185 mil hectares de Mata Atlântica na fronteira com a Argentina, abriga uma das últimas populações viáveis de onça-pintada do bioma — cerca de 100 animais, contados pelo projeto que a autora coordena, recuperados de menos de 30 nos anos 2000 —, cercada por fazendas, sítios, cidades e a rodovia que leva às Cataratas; quando a onça sai do parque, encontra gado, cavalo, cachorro e gente, e a predação de um animal doméstico é, para o produtor, prejuízo e ameaça, e para o predador, sentença de morte por retaliação — a principal causa de mortalidade de onças no Brasil, mais que a caça esportiva ou o atropelamento. A resposta tradicional da conservação foi a fiscalização e a multa, que produziram ódio e mais mortes; a resposta que o campo da coexistência propõe, desde a CoPCoex de 2019, é outra: atender o produtor quando a predação acontece, indenizar ou ajudar a prevenir — cercas elétricas, currais noturnos, cães de guarda, manejo de pasto —, monitorar o animal com colar e, sobretudo, construir a relação que faz o fazendeiro ligar para o projeto em vez de pegar a espingarda. A onça-parda que predou o potro durante o simpósio é o caso-limite: espécie mais tolerante à presença humana que a pintada, mais frequente em áreas rurais e menos protegida pela lei e pela opinião pública, e um potro é prejuízo alto para um pequeno criador. A definição da IUCN de 2026, que a coluna cita, formaliza o que o Iguaçu e o Pantanal aprenderam na prática: coexistência não é ausência de conflito, é a capacidade de resolvê-lo sem eliminar o animal nem abandonar o produtor. Para o interior paulista — Araras incluída, onde onça-parda aparece em canaviais e matas ciliares e gera pânico a cada avistamento —, o modelo é o mesmo.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a coluna descreve uma mudança de mentalidade que o Brasil precisava. "Durante décadas, conservação de onça era proibir, multar e prender — e o fazendeiro matava escondido. O Projeto Onças do Iguaçu e a rede que nasceu na ESALQ mudaram a pergunta: em vez de 'como impedir o produtor', 'como ajudar o produtor a conviver'. É cerca elétrica, é indenização, é atender o telefone às três da manhã quando o potro morreu — e é relação, como diz a autora, que não cabe em protocolo. O resultado é a onça voltando ao Iguaçu, de 30 para 100. O portal registra o simpósio e a lição para o interior: a onça-parda que aparece na cana de Araras não é caso de polícia; é caso de coexistência. Alguém precisa atender o telefone", avalia.

SICOEX: o primeiro simpósio

De 26 a 28 de agosto, no Parque Nacional do Iguaçu, com 200 participantes de Brasil, Argentina, Paraguai, México, Chile e Peru; painéis sobre atendimento a predações, prevenção, monitoramento e relação com comunidades; organizado pelo Projeto Onças do Iguaçu na Rede Trinacional — o primeiro evento brasileiro dedicado exclusivamente ao tema.

A predação durante o evento: teoria e prática ao mesmo tempo

Um potro predado por onça-parda em propriedade da região exigiu atendimento da equipe enquanto o simpósio discutia exatamente isso; a coluna usa o episódio para lembrar que coexistência não é conceito de auditório, mas trabalho de campo com prejuízo real, emoção e urgência.

CoPCoex, Rede Pantaneira, Rede Trinacional: as redes

A comunidade de prática nascida na ESALQ-USP em 2019 conectou pesquisadores e profissionais; o Pantanal, com onças e pecuária lado a lado, formou rede própria; a Tríplice Fronteira uniu instituições de três países para o corredor de Mata Atlântica — estruturas que dão ao campo continuidade além de projetos isolados.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a definição da IUCN é um marco silencioso. "Quando a União Internacional para a Conservação da Natureza define 'coexistência', o termo deixa de ser jargão de projeto e vira categoria de política pública — pode entrar em lei, em licenciamento, em plano de manejo. É o que faltava para que atendimento a predação e indenização a produtor sejam obrigação do Estado, não caridade de ONG. O portal registra e sugere ao Ibama e às secretarias estaduais: o Iguaçu e o Pantanal já têm o manual; falta aplicar onde a onça encontra o boi, inclusive no interior paulista", observa.

Onça-pintada e onça-parda: duas espécies, dois conflitos

A pintada, maior e mais dependente de mata, preda gado em bordas de áreas protegidas; a parda, mais adaptável, entra em áreas rurais e periurbanas e preda bezerros, potros, ovelhas e cães — e é menos protegida pela lei e pela simpatia pública; ambas morrem sobretudo por retaliação, que a coexistência tenta evitar.

Medidas preventivas: o que funciona

Cercas elétricas em currais, recolhimento noturno de animais jovens, cães de guarda de rebanho, luzes e dispositivos sonoros, manejo de pasto longe da mata e, quando necessário, captura e translocação com colar de monitoramento — medidas testadas no Iguaçu e no Pantanal, com apoio do projeto ao produtor.

A relação: o que não cabe no checklist

Confiança construída com visitas, atendimento rápido, transparência sobre o que o projeto pode e não pode fazer, e reconhecimento do prejuízo do produtor; a autora argumenta que é esse vínculo — não o equipamento — que faz o morador participar da captura da onça em vez de matá-la, como mostra a foto da coluna.

Iguaçu: a recuperação das onças

De menos de 30 animais nos anos 2000 a cerca de 100 hoje, a população de onça-pintada do parque é o maior sucesso de conservação da espécie na Mata Atlântica, atribuído ao monitoramento, à cooperação com a Argentina e ao trabalho de coexistência com produtores do entorno — o modelo que o simpósio apresentou ao continente.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o título da coluna resume a ciência da conservação em 2026. "O todo é maior que a soma das partes: protocolo, cerca, colar, equipe — cada um sozinho falha; juntos, com relação, funcionam. É verdade para onça e é verdade para qualquer política pública. O portal registra o primeiro simpósio de coexistência do país e a onça-parda que, do lado de fora, lembrou a todos por que estavam ali. E leva a pergunta para casa: quando a onça aparecer no canavial de Araras — e vai aparecer —, quem vai construir a relação?", analisa.

A coluna da coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu sobre o I Simpósio Internacional de Coexistência, realizado de 26 a 28 de agosto de 2026 no Parque Nacional do Iguaçu com cerca de 200 participantes de seis países, foi publicada pelo ((o))eco em 2 de setembro de 2026; o Grupo Especialista em Conflito e Coexistência Humano-Fauna da IUCN publicou em 2026 uma definição específica para coexistência.

Foto: Wikideas1 (CC0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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