A Taesa, uma das maiores transmissoras de energia do Brasil, diz estar se preparando para o pior diante do El Niño e de seus impactos no setor elétrico. Com concessões nas cinco regiões, a companhia fez previsões de impacto com base em modelos climáticos e identificou duas frentes: "O Sul é uma região em que, até novembro, nós vamos ter muitas questões de vendavais, tempestades, tornados, onde tem nossas linhas de transmissão. Outro ponto que nos impacta bastante são as regiões Norte e Nordeste com queimadas", afirma Luis Alves, diretor técnico. "Nós temos que estar preparados para o pior." As informações são da Folha de S.Paulo.
O alerta vem no dia seguinte ao da Organização Meteorológica Mundial, que disse que o El Niño já está "solidamente instalado" e ganhou "dimensão excepcional", com pico previsto para o fim do ano. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o mundo entrou numa "zona de perigo de eventos climáticos extremos" à medida que os efeitos do fenômeno começam a ser sentidos.
Sul: prever o vento
No Sul, o ponto-chave é a predição. Além de contratos com empresas meteorológicas para receber informações diárias, a Taesa implantou estações meteorológicas próprias para aferir a velocidade do vento e monitorar o deslocamento de tempestades ao longo das linhas. A companhia também deslocou torres de emergência para a região — estruturas modulares que permitem recompor a energia em dias, e não semanas, quando uma torre de transmissão cai. Alves lembra que a empresa opera ativos que completaram 25 anos e foram projetados para padrões climáticos menos extremos do que os atuais.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase sobre os 25 anos é a que importa. "Torre de transmissão é projetada para o vento máximo esperado em 50 anos. As da Taesa foram calculadas nos anos 1990 e 2000, com o clima daquela época. O clima mudou; a torre não. O que a empresa está fazendo — estação meteorológica, torre reserva, brigada — é remendo inteligente para infraestrutura que ficou obsoleta antes do prazo. R$ 15 milhões é pouco para 16 mil quilômetros de linha; é o que cabe na tarifa. O custo real de adaptar o sistema elétrico brasileiro ao novo clima ninguém calculou, porque ninguém quer pagar", avalia.
Norte e Nordeste: fogo nas linhas
Contra as queimadas, a Taesa mantém brigadas de prontidão e câmeras de monitoramento que detectam princípios de incêndio ao longo das linhas. A novidade deste ano é um convênio com órgãos ambientais para fazer aceiros — faixas de terra sem vegetação que contêm o avanço do fogo — de forma preventiva: "Com a previsão da queimada, eu consigo deslocar equipamentos próximos às linhas de transmissão que fazem esses aceiros", diz Alves. A fumaça de queimadas causa curtos-circuitos em linhas de alta tensão — o "desligamento por fumaça" que já derrubou linhões no Centro-Oeste e no Norte em anos de seca.
R$ 15 milhões em dois anos
Todas as iniciativas adotadas nos últimos dois anos para enfrentar o super El Niño somam cerca de R$ 15 milhões, segundo o diretor. É valor modesto diante da receita anual permitida de R$ 4,9 bilhões da companhia — e a proporção reflete o modelo regulatório: transmissoras recebem receita fixa pela disponibilidade das linhas e são penalizadas por indisponibilidade, o que incentiva a prevenção, mas dentro do que a tarifa comporta.
Torre para 400 km/h: quem paga?
Rinaldo Pecchio, diretor-presidente da Taesa, enquadra o El Niño num contexto maior, em que fenômenos severos serão mais frequentes — e levanta a questão econômica: é preciso refletir sobre a viabilidade de preparar todo o sistema físico para eventos extremos e se a sociedade está disposta a pagar. "Tem como fazer uma torre que aguente ventos de 400 km/h? Tem, só que ela vai ser tão pesada, um custo e uma base tão maiores que não faz sentido", afirma. É o dilema da resiliência: proteger contra tudo custa mais do que reparar depois de alguns eventos — até que os eventos deixem de ser alguns.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o CEO fez a pergunta certa e ninguém vai responder. "Pecchio está dizendo: dá para blindar o sistema, mas a conta de luz vai subir. É honesto. O problema é que a alternativa — não blindar — também tem conta: apagão no Sul em novembro, linhão derrubado por fumaça no Norte, indústria parada. Essa conta não aparece na tarifa; aparece no PIB e no prejuízo de quem ficou sem luz. A Aneel e o ONS deveriam estar calculando o ponto ótimo entre os dois. Em vez disso, cada transmissora faz o que cabe nos seus R$ 15 milhões e torce", observa.
O El Niño de 2026: o que esperar
O El Niño — aquecimento anormal do Pacífico equatorial — altera os padrões de chuva no Brasil: mais chuva e tempestades no Sul, seca no Norte e no Nordeste, calor no Centro-Sul. O de 2023-2024 trouxe a seca histórica da Amazônia e as enchentes do Rio Grande do Sul; a OMM classifica o atual como "excepcional", o que sugere efeitos comparáveis ou maiores. Para o setor elétrico, significa vento e raio nas linhas do Sul, fogo e fumaça nas do Norte, e demanda recorde de ar-condicionado no Sudeste.
A Taesa e o sistema
Fundada em 2009, a Taesa tem 49 concessões, 16,6 mil km de linhas e receita anual de R$ 4,9 bilhões; Cemig (21,6%) e ISA Investimentos (14,8%) são os principais acionistas, com 63,4% em bolsa. Concorre com Axia, ISA Energia Brasil e Alupar. As transmissoras formam a espinha dorsal do Sistema Interligado Nacional: uma linha derrubada no Sul pode isolar uma região e provocar apagão em cascata — como em 2023, quando uma falha no Ceará desligou 25 estados.
Apagão de 2023: a lição
Em 15 de agosto de 2023, uma falha em linha de transmissão no Ceará desencadeou desligamento em cascata que atingiu 25 estados e o Distrito Federal, deixando dezenas de milhões sem energia por horas. A investigação apontou combinação de falha em equipamento e resposta inadequada de proteção — e mostrou como o sistema interligado transmite problemas na mesma velocidade em que transmite energia. É o cenário que as transmissoras querem evitar quando uma torre cai no Sul em plena tempestade: o dano local vira nacional em segundos.
Como a transmissora ganha
Diferentemente das geradoras, que vendem energia, as transmissoras recebem Receita Anual Permitida fixa, definida em leilão, pela disponibilidade da linha — independentemente de quanta energia passa. A cada hora de indisponibilidade, perdem parcela dessa receita. O modelo cria incentivo direto à prevenção: cada torre que cai custa receita além do reparo. Mas também limita o investimento ao que a receita comporta — e é dentro dessa restrição que a Taesa fez os R$ 15 milhões de contingência.
Regulação e resiliência
A Aneel discute desde 2024 a incorporação de critérios de resiliência climática nos leilões de transmissão — exigir projetos calculados para o clima futuro, não o passado — e a criação de reserva de contingência para eventos extremos. O ONS, por sua vez, atualizou protocolos de operação para períodos de queimadas. São passos iniciais; a adaptação do parque existente, como o da Taesa, depende de cada empresa e do que a receita regulada permite.
O que muda para o consumidor
No curto prazo, a preparação da Taesa e de outras transmissoras reduz a chance de apagões prolongados no Sul entre setembro e novembro. No médio, a discussão levantada por Pecchio — quanto a sociedade quer pagar por resiliência — vai aparecer na tarifa: linhas mais robustas e redundância custam, e o custo é repassado. A alternativa, como a Taesa deixa claro, é conviver com o risco.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o setor elétrico é onde a mudança climática vira conta. "Guterres fala em zona de perigo; a Taesa fala em torre de emergência no Sul e aceiro no Norte. É a mesma notícia em duas escalas. O Brasil tem o sistema elétrico mais interligado do mundo — e por isso o mais vulnerável a uma torre que cai no lugar errado. Os R$ 15 milhões da Taesa são o seguro barato. O seguro caro, que ninguém contratou, é reconstruir o sistema para o clima de 2050. A conta vai chegar de um jeito ou de outro: na tarifa ou no apagão", analisa.
A Taesa opera 16,6 mil quilômetros de linhas de transmissão em 49 concessões nas cinco regiões do Brasil. A Organização Meteorológica Mundial classificou o El Niño de 2026 como de "dimensão excepcional", com pico previsto para o fim do ano.
Foto: Gannu03 (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.