Meio Ambiente

A 49°C, a capital da pimenta do Paquistão vê um modo de vida derreter

País onde a agricultura é um quarto da economia está entre os mais vulneráveis ao clima. "Parece que a natureza já não está do nosso lado", diz produtor.

A 49°C, a capital da pimenta do Paquistão vê um modo de vida derreter

O Paquistão é um dos maiores produtores mundiais de pimenta chili, e a pequena Kunri, no sudeste do país, é a capital nacional desse cultivo: os agricultores secam as pimentas à moda antiga, ao sol, e nos dias de mercado a poeira é tão intensa que faz os olhos lacrimejarem e a garganta arder. Mas calor, inundações, seca e a imprevisibilidade e os custos que os acompanham estão fazendo desaparecer lentamente um modo de vida que moldou gerações. Numa manhã recente, Ahsan Ali Dars caminhava por sua plantação, antes exuberante e agora marcada por lavouras queimadas, solo ressequido e áreas vazias; em poucas horas, a temperatura passaria dos 49°C. As informações são da Folha de S.Paulo.

A agricultura responde por quase um quarto da economia paquistanesa e emprega metade da força de trabalho. O país de mais de 250 milhões de habitantes está entre os mais vulneráveis do mundo à mudança climática: as inundações de 2022 destruíram quase 1,8 milhão de hectares de terras agrícolas, e nas províncias de Sindh e Punjab — o celeiro do país — agricultores dizem que os efeitos ainda são sentidos. A pimenta chili está entre as culturas mais afetadas.

Kunri: 200 toneladas por dia

Kunri é uma cidade pacata de 25 mil habitantes na província de Sindh, a cerca de 110 quilômetros da fronteira com a Índia, que ganha vida nos dias de mercado após a colheita. Em novembro passado, depois de uma safra bem-sucedida, centenas de produtores e compradores negociaram entre pilhas de pimentas de mais de 2,4 metros de altura; compradores abastados ziguezagueavam de motocicleta entre os montes, diaristas avançavam curvados sob o peso das sacas. Em média, mais de 200 toneladas eram vendidas diariamente só naquele mercado durante a temporada. A região responde por mais de 85% da produção paquistanesa de chili.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, Kunri é o retrato do que a mudança climática faz com quem não a causou. "O agricultor de Sindh não emitiu carbono para ter 49°C em março. Ele planta pimenta como o avô plantava, seca ao sol como sempre se secou, e agora não sabe mais em que mês semear. Adiantou para março — ficou quente demais. Atrasou para maio — a planta jovem cozinha no verão. Dobrou o fertilizante para manter a planta viva. Cada adaptação custa dinheiro que ele não tem e que o grande proprietário tem. É a desigualdade climática em escala de sítio: o clima muda para todos, mas só alguns conseguem pagar para se adaptar", avalia.

O calendário que não existe mais

Nos últimos anos, o clima trouxe ondas de calor e inundações num ciclo vertiginoso, atingindo com dureza os pequenos produtores tradicionais. Muitos tentam alterar o calendário de plantio: Dars passou a semear em março, em vez de maio, para que as plantas estivessem desenvolvidas antes do calor do verão. Em alguns anos funcionou. Neste, até março estava quente demais para plantar — e ele adiou a semeadura para maio, encurtando a temporada e expondo as mudas a estresse térmico maior. Numa corrida contra o tempo, Dars e outros aplicam ao solo muito mais fertilizante do que antes, na tentativa de manter as plantas vivas até a colheita, que começa em setembro.

"Se chover demais, se não chover"

No fim de julho, as monções levaram as primeiras gotas de chuva aos campos de Dars — e, com elas, o risco de chuva em excesso. "Se chover demais, a lavoura será destruída", disse. "Se não chover, também será desastroso." O risco de inundação também torna mais perigosa a secagem tradicional: após a colheita, as pimentas ficam no chão ao sol por dez dias, e o excesso de umidade as deixa vulneráveis a fungos. Muhammad Khan, autoridade distrital de Kunri, estima que até um terço da produção é desperdiçado nas etapas de secagem e processamento. "A secagem é o principal problema para os pequenos proprietários rurais por causa da névoa que surge à noite", disse.

Secadores que nunca chegaram

Há anos os pequenos agricultores de Kunri reivindicam instalações modernas para secar as pimentas em ambiente controlado. "Sempre que o governo dizia que abriria um centro, nada acontecia", afirmou Muhammad Saleem, corretor no mercado local. As autoridades reconhecem que não dão conta: os grandes proprietários absorvem melhor os custos adicionais, diz Khan, e o governo de Sindh aprovou recentemente um novo mercado de pimentas em Kunri, com armazéns e espaços para leilões, para proteger melhor a colheita. É promessa antiga; a diferença é que agora o clima não espera.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a solução de Kunri está no que o Brasil já fez. "Um terço da colheita perdida na secagem por falta de um galpão com ventilação — isso não é problema climático, é problema de infraestrutura que o clima expôs. O Brasil resolveu isso no café e na soja com secadores cooperativos há 40 anos. O governo de Sindh promete um mercado com armazém há anos e não entrega. Enquanto isso, o pequeno agricultor perde a pimenta para o fungo e o grande compra secador. A adaptação climática, na prática, é uma lista de obras pequenas que ninguém faz porque o beneficiário é pobre", observa.

Grandes e pequenos: quem absorve o custo

A autoridade distrital é explícita: os grandes proprietários absorvem melhor os custos adicionais da mudança climática. Têm capital para secadores, para poços mais profundos, para fertilizante em dobro, para esperar um ano ruim. O pequeno produtor de Kunri, que planta em poucos hectares e vende no dia de mercado, não tem margem — e é ele quem perde a safra para o fungo na secagem e quem abandona a pimenta pelo mamão. O resultado provável, se nada mudar, é concentração: a produção de chili sobrevive em Sindh, mas nas mãos de menos gente, e o modo de vida que moldou gerações desaparece com os pequenos.

Diversificar: 800 pés de mamão

Diante da queda da produtividade, do custo dos fertilizantes e dos problemas de irrigação, muitos agricultores começaram a diversificar. Neste ano, Dars destinou 1,6 hectare a 800 pés de mamão — e admite que, independentemente da cultura, poucas talvez resistam aos eventos extremos. "Parece que a natureza já não está mais do nosso lado", disse. A frase resume o dilema: mudar de cultura protege contra a perda de uma safra, mas não contra o calor de 49°C que atinge todas.

Paquistão: linha de frente do clima

O Paquistão contribui com menos de 1% das emissões globais de gases de efeito estufa e figura entre os dez países mais afetados por eventos climáticos extremos. As enchentes de 2022 cobriram um terço do território, deslocaram 8 milhões de pessoas e causaram US$ 30 bilhões em prejuízos; as ondas de calor de 2024 e 2025 registraram temperaturas acima de 50°C em Sindh. É o argumento central dos países em desenvolvimento nas negociações climáticas — o fundo de perdas e danos, criado na COP27 e operacionalizado na COP28 — e o caso de Kunri é o que o fundo deveria financiar: secadores, armazéns, irrigação, sementes adaptadas.

O que o Brasil tem a ver com Kunri

O Brasil enfrenta versão própria do problema: a seca de 2024 na Amazônia, as enchentes do Rio Grande do Sul, o calor que antecipou a colheita do café e reduziu a safra de laranja. Pequenos produtores brasileiros de café, cacau e hortaliças relatam o mesmo que Dars — o calendário que não funciona mais, o custo de adaptar. A diferença é a capacidade do Estado: Embrapa, seguro rural, crédito do Pronaf. Onde o Estado é fraco, como em Sindh, o clima decide sozinho quem sobrevive.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a pimenta de Kunri é um aviso sobre a comida do mundo. "O Paquistão é um dos maiores produtores de chili do planeta, e 85% vem de uma região que está a 49°C em março. Se Kunri quebra, o preço da pimenta sobe de Karachi a Londres. O que está em jogo não é só o Dars e os 25 mil habitantes: é a cadeia de um tempero que meio mundo usa. E o mesmo vale para o café da Etiópia, o cacau de Gana, a laranja de São Paulo. A agricultura tropical de pequena escala é a mais vulnerável e a que alimenta mais gente. Quem acha que mudança climática é assunto de urso polar deveria olhar o preço do tempero", analisa.

A reportagem sobre a produção de pimenta em Kunri, na província de Sindh, foi publicada pela Folha de S.Paulo a partir de material do The New York Times. A colheita de 2026 na região começa em setembro.

Foto: Johan Christian Dahl (Public domain) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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