Meio Ambiente

Brasil precisa restaurar 12 milhões de hectares até 2030 e o Pará responde

Análise do gerente florestal do instituto defende que restaurar não é só plantar árvore: exige diagnóstico, assistência técnica, renda e governança local, com agricultores e comunidades como agentes.

Brasil precisa restaurar 12 milhões de hectares até 2030 e o Pará responde

O Brasil tem uma das maiores agendas de restauração ecológica do mundo: recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 — uma área maior que Portugal. No Pará, estado central para qualquer estratégia climática amazônica, a meta é recuperar 5,65 milhões de hectares no mesmo horizonte, quase metade do total nacional. Os números dão escala ao desafio, mas impõem uma pergunta incômoda, formulada em análise publicada pelo portal ((o))eco às vésperas do Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro: quem, no território, está preparado para transformar metas públicas em áreas restauradas, produtivas e mantidas ao longo do tempo?

A reflexão é do gerente florestal do Imaflora — Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola —, engenheiro florestal que lidera o Fórum de Florestas Nativas da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Sua tese é direta: a restauração precisa deixar de ser tratada apenas como meta ambiental, com mapas e indicadores, e passar a ser um processo territorial, com gente, renda e governança.

Restaurar não é apenas plantar árvores

A restauração ecológica ganhou espaço nas políticas climáticas, nos compromissos corporativos, nas estratégias de bioeconomia e nos mercados de carbono. Mas, alerta o texto, há um risco recorrente quando o debate fica restrito a metas: a ideia de que restaurar significa plantar mudas. Dependendo da paisagem, restaurar pode envolver regeneração natural assistida — proteger a área e deixar a floresta voltar sozinha —, plantio de espécies nativas, sistemas agroflorestais que combinam árvores e cultivos, manejo do solo e da água, controle de espécies competidoras, manutenção por anos, monitoramento e arranjos produtivos que façam sentido para quem vive da terra.

"Sem diagnóstico territorial, assistência técnica e governança, a restauração tende a perder permanência e impacto", resume a análise. Uma área plantada e abandonada volta a ser pasto ou capoeira em poucos anos; uma área restaurada com quem mora nela, e com retorno econômico, tende a ficar.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o alerta é oportuno porque a pressa em anunciar metas costuma ignorar a manutenção. "Doze milhões de hectares é um número de discurso. Cinco anos de manutenção de cada hectare é um número de orçamento. A restauração falha no ano dois, quando a muda precisa de roçada e ninguém paga. O Imaflora está dizendo o que todo técnico de campo sabe: quem restaura é o produtor, não o ministério. Se ele não ganhar com isso, a floresta não fica", avalia.

Agricultores e comunidades como agentes, não beneficiários

O ponto mais forte da análise é a inversão de papéis. Em regiões amazônicas, afirma o autor, formar capacidades locais significa combinar conhecimento técnico com saberes do campo, adaptar metodologias às realidades produtivas e reconhecer que agricultores familiares, produtores rurais, associações, cooperativas, povos indígenas e comunidades tradicionais "não são apenas beneficiários da restauração. São agentes centrais para que ela aconteça, seja mantida e gere resultados duradouros".

Isso exige, segundo o texto, uma combinação cuidadosa de diagnóstico participativo, formação teórica e prática, oficinas de campo, unidades demonstrativas, assistência técnica e monitoramento contínuo. Cada escolha de método — regeneração natural, plantio, agrofloresta — precisa estar vinculada ao contexto ecológico, social e econômico da área. "Sem essa leitura, a restauração corre o risco de produzir números sem permanência; com ela, pode se tornar uma estratégia real de recuperação ambiental, segurança alimentar, renda e adaptação climática."

De onde vem a meta de 12 milhões

O compromisso de restaurar 12 milhões de hectares até 2030 foi assumido pelo Brasil no Acordo de Paris, em 2015, como parte de sua contribuição nacionalmente determinada, e detalhado em 2017 no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, o Planaveg. Parte dessa área corresponde a passivos legais — reservas legais e áreas de preservação permanente desmatadas que o Código Florestal obriga a recompor —, e parte a restauração voluntária, incentivada por políticas públicas e pelo mercado de carbono.

Há ainda um alerta científico recente: pesquisadores do Centro Brasileiro de Conhecimento em Biodiversidade publicaram na revista Science um aviso de que a falta de diversidade de espécies nos plantios de restauração coloca os esforços em risco — florestas restauradas com poucas espécies são mais vulneráveis a pragas, fogo e mudanças climáticas.

Dez anos depois do compromisso e a quatro do prazo, a distância entre meta e execução é o pano de fundo da análise. O Pará, que concentra a maior fatia — 5,65 milhões de hectares — e foi sede da COP30, em Belém, é o estado em que a pergunta "como fazer durar?" tem mais peso.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Pará é o teste decisivo. "Quase metade da meta nacional está num único estado, que também é campeão de desmatamento e sediou a conferência do clima. Se a restauração não funcionar no Pará, não funciona em lugar nenhum. E no Pará ela só funciona com o produtor rural — o mesmo que desmatou — enxergando vantagem em replantar. Isso não se resolve com muda grátis; se resolve com assistência técnica, crédito e mercado para o que a agrofloresta produz", observa.

Caminhos diferentes para paisagens diferentes

A análise insiste que não há receita única. A regeneração natural assistida é a opção mais barata onde ainda há floresta próxima e banco de sementes no solo — basta cercar, controlar o fogo e o gado, e esperar. O plantio de nativas é necessário onde o solo está degradado e a fonte de sementes desapareceu. Os sistemas agroflorestais, que combinam cacau, açaí, fruteiras e madeira com espécies de restauração, são o caminho para o pequeno produtor que precisa de renda enquanto a floresta cresce.

Escolher errado custa caro: plantar mudas onde a regeneração natural bastaria desperdiça recursos; apostar na regeneração onde o solo está exaurido produz fracasso. É por isso que o diagnóstico territorial vem antes de qualquer meta.

Financiamento, ciência e o cotidiano

"No Dia da Amazônia, talvez o debate mais relevante não esteja em anunciar novas ambições, mas em discutir as condições para que elas se realizem", escreve o autor. A restauração em larga escala depende de financiamento, ciência, tecnologia e políticas públicas — mas também de agricultores, comunidades, povos indígenas, técnicos locais e organizações capazes de sustentar a implementação no dia a dia.

A posição do Imaflora é de compromisso institucional: "a Amazônia não precisa de restauração como vitrine, mas como processo de longo prazo, com qualidade técnica, inclusão social e benefícios concretos para quem vive, produz e protege os territórios". A pergunta que deve orientar os próximos anos, conclui, é menos "quanto vamos restaurar?" e mais "como vamos fazer essa restauração durar?".

O que muda para quem está longe da Amazônia

A discussão parece distante para quem vive no Sul e no Sudeste, mas não é. A floresta amazônica regula o regime de chuvas de boa parte do Brasil por meio dos chamados "rios voadores" — a umidade transportada pelo vento da Amazônia para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul. Restaurar 12 milhões de hectares não é só cumprir compromisso internacional: é proteger a chuva que abastece reservatórios, irriga lavouras e move hidrelétricas a milhares de quilômetros de Belém.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o texto do Imaflora deveria orientar a política pública. "O Brasil é bom em meta e ruim em manutenção. A restauração é o caso perfeito: anunciamos 12 milhões de hectares em 2015 e, em 2026, discutimos como fazer durar. A resposta está no texto — diagnóstico, assistência técnica, renda para quem restaura, governança local. Nada disso é novidade. O que falta é orçamento contínuo e gente no campo. Enquanto a restauração for evento de COP e não rotina de extensão rural, vai continuar sendo vitrine", analisa.

O Brasil iniciou a elaboração de um novo Plano Nacional de Restauração, e a meta de 2030 segue vigente. O Pará mantém sua própria meta estadual de 5,65 milhões de hectares como parte de sua estratégia climática.

Foto: pfatter (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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