Meio Ambiente

Dezenas de milhares protestam em Zagreb contra a demora do governo croata

Caminhada por Lika reúne dezenas de milhares em Zagreb contra 34 mil toneladas de lixo italiano perto de Gospić; Plenković anuncia empresa para a limpeza.

Dezenas de milhares protestam em Zagreb contra a demora do governo croata

Dezenas de milhares de pessoas se reuniram neste sábado (5 de setembro) na praça central de Zagreb para protestar contra a demora do governo em iniciar a remoção de mais de 30 mil toneladas de resíduos armazenados no centro da Croácia — material que, segundo ambientalistas, está contaminando a água potável da região. Um dos maiores protestos realizados no país em anos, o ato foi batizado de "Caminhada por Lika", em referência à região montanhosa onde os resíduos estão. As informações são da Folha.

No ano passado, as autoridades encontraram entre 34 mil e 37 mil toneladas de resíduos em um terreno próximo à cidade de Gospić, na região de Lika; grande parte do material havia sido importada da Itália em 2023 e 2024. O governo prometeu limpar o local, mas grupos ambientalistas afirmam que pouco foi feito desde então: os resíduos — que incluem material médico e outros tipos de lixo industrial — estariam contaminando ar, solo e água de Lika, região conhecida por suas extensas áreas de natureza preservada. Manifestantes carregavam faixas como "Os pulmões da Croácia já não conseguem respirar", "Parem com a destruição da Croácia" e "A natureza não perdoa". "Estamos insatisfeitos com a resposta do governo. O local já deveria ter sido limpo há muito tempo", disse Verica Jurnjak, que viajou de Gospić para participar. "É uma vergonha que ninguém se importe com nossos filhos e com o futuro deles." O primeiro-ministro Andrej Plenković visitou Gospić na quarta-feira (2) e afirmou que o governo escolheu uma empresa para executar a primeira fase da limpeza, a remoção dos resíduos do local. O ator croata Rade Šerbedžija, conhecido por filmes como "Snatch" e "Missão: Impossível 2", também participou: "Estou aqui porque preciso estar. É nosso dever defender nosso país. O que aconteceu é uma vergonha, e alguém precisa ser responsabilizado".

Lixo que viaja: como resíduos italianos foram parar nas montanhas croatas

A União Europeia regula o transporte de resíduos entre países-membros — exige notificação, autorização e destinação em instalações licenciadas —, mas o sistema é explorado por intermediários que compram lixo industrial e hospitalar de quem paga para se livrar dele, prometem tratamento em outro país e o abandonam em galpões ou terrenos alugados, embolsando a diferença; a Itália, com histórico de máfia no setor de resíduos, é origem frequente, e Croácia, Romênia, Bulgária e Polônia, destinos recorrentes de escândalos semelhantes na última década. Em Lika, o esquema despejou mais de 30 mil toneladas — o equivalente a mil caminhões — num terreno perto de Gospić, a cerca de 200 quilômetros de Zagreb, numa região de florestas, montanhas e nascentes que abastecem cidades e alimentam o Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, patrimônio da Unesco e principal atração turística do país; a descoberta, em 2025, gerou inquérito, mas não remoção, e o material segue exposto às chuvas há um ano. O protesto de sábado, com dezenas de milhares numa nação de 3,8 milhões de habitantes, é proporcionalmente uma das maiores mobilizações ambientais da Europa recente — e a presença do ator mais conhecido do país mostra que o tema saiu do nicho ambiental para virar questão nacional.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o caso croata é aviso para qualquer país que importa lixo. "Trinta e quatro mil toneladas de resíduo industrial e hospitalar italiano largadas numa montanha croata que abastece a água de uma região inteira, descobertas há um ano e ainda lá — porque limpar custa milhões e ninguém quer pagar, nem o governo que deixou entrar nem os intermediários que sumiram. A Croácia é membro da União Europeia, com regras rígidas de resíduos; mesmo assim aconteceu, porque regra sem fiscalização é convite. O Brasil recebe contêineres de lixo disfarçado de reciclável desde os anos 2000 — o caso do lixo hospitalar britânico em Santos, em 2009, é o mais famoso — e tem o mesmo problema de porto que não abre contêiner. Que a Caminhada por Lika sirva de lembrete: lixo que viaja procura quem não olha", avalia.

Lika e Gospić: a região atingida

Planalto montanhoso entre a costa dálmata e o interior, Lika é uma das áreas menos povoadas e mais preservadas da Croácia, com florestas, cavernas, o rio Lika e nascentes cársticas que alimentam os aquíferos da região e o parque de Plitvice; Gospić, sua principal cidade, tem cerca de 12 mil habitantes e vive de turismo rural e agricultura — atividades que a contaminação ameaça diretamente.

Material médico e industrial: o que há no depósito

Resíduos hospitalares — que exigem incineração controlada —, sobras industriais, embalagens contaminadas e material de origem não identificada, segundo as autoridades; a exposição a chuva e vento por mais de um ano espalha contaminantes no solo e nos cursos d'água, e ambientalistas relatam odor, mudança na água e preocupação com metais pesados e patógenos.

Plenković e a "primeira fase": o que o governo promete

O primeiro-ministro, no poder desde 2016 e reeleito em 2024, visitou Gospić dias antes do protesto e anunciou a contratação de empresa para retirar os resíduos — sem prazo nem destino final divulgados —; a segunda fase, de descontaminação do solo e da água, não tem plano. Para os manifestantes, é resposta tardia a um problema conhecido há um ano.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a origem italiana do lixo é o centro da história. "A Itália tem a Terra dos Fogos, a Camorra no setor de resíduos e décadas de lixo exportado para onde a fiscalização é fraca; a Croácia, que entrou na União Europeia em 2013, virou destino porque tinha terreno barato, controle frouxo e intermediários dispostos. O governo croata tem duas culpas: deixou entrar e não tirou. O ato de sábado, com o ator Šerbedžija na frente, é o país cobrando responsabilização — e a União Europeia, que financia a limpeza de lixões em países novos, deveria cobrar da Itália a conta do que exportou. O portal registra: 34 mil toneladas, um ano, zero removido. É o padrão global de crime ambiental — descobrir é fácil, limpar é caro, e quem paga é quem bebe a água", observa.

Regras da União Europeia para transporte de resíduos

O regulamento europeu de transferência de resíduos, reforçado em 2024, exige notificação prévia, rastreabilidade digital e proíbe exportação de lixo para tratamento inadequado; a aplicação, porém, depende de inspeção nas fronteiras internas do bloco, que não existem — e é nesse vácuo que operam os intermediários. A Comissão Europeia investiga casos semelhantes na Romênia e na Bulgária.

Plitvice e o turismo em risco

O Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, a poucas dezenas de quilômetros de Lika, recebe mais de um milhão de visitantes por ano e depende da pureza dos aquíferos cársticos da região; contaminação a montante ameaça o principal cartão-postal do país — argumento que o setor de turismo croata leva ao governo junto com os ambientalistas.

Rade Šerbedžija: a voz que ampliou o protesto

Ator de teatro e cinema, nascido na Croácia e com carreira em Hollywood — "Missão: Impossível 2", "Snatch", "Batman Begins", "Harry Potter" —, Šerbedžija é figura pública respeitada nos Bálcãs e sua presença deu ao ato repercussão internacional; sua frase — "alguém precisa ser responsabilizado" — resume a demanda por investigação de quem autorizou a importação.

O Brasil e o lixo importado

O Brasil já recebeu contêineres de lixo hospitalar e doméstico da Europa disfarçados de material reciclável — casos em Santos e Rio Grande em 2009 e 2010 levaram à devolução à Inglaterra —, e a Política Nacional de Resíduos Sólidos proíbe a importação de resíduos perigosos; a fiscalização nos portos, porém, é amostral, e o país segue alvo de tentativas.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a Caminhada por Lika é exemplo do que a mobilização ambiental consegue. "Um ano de lixo parado, um governo que prometia, e dezenas de milhares na praça de Zagreb fizeram o primeiro-ministro ir a Gospić e contratar empresa em uma semana. Não resolve — falta descontaminar, responsabilizar, cobrar da Itália —, mas mostra que país pequeno com sociedade organizada move governo. O portal registra a lição para o Brasil, onde lixo industrial em rio ou aterro clandestino raramente junta gente na praça. A natureza não perdoa, dizia a faixa; o eleitor croata também não", analisa.

O protesto "Caminhada por Lika", que reuniu dezenas de milhares de pessoas em Zagreb contra a demora na remoção de mais de 30 mil toneladas de resíduos industriais e hospitalares descobertos perto de Gospić, ocorreu em 5 de setembro de 2026 e foi noticiado pela Folha; grande parte do material foi importada da Itália em 2023 e 2024.

Foto: Lauri Veerde (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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