O Brasil está autorizado a contratar crédito externo de até US$ 1 bilhão com o Banco Interamericano de Desenvolvimento para investir no Eco Invest Brasil, uma das principais iniciativas de aceleração da transição ecológica dos próximos anos. O despacho do Ministério da Fazenda, publicado nesta sexta-feira (4) no Diário Oficial, aprovou a contratação após manifestações favoráveis da Secretaria do Tesouro Nacional e da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, com base no artigo 40 da Lei de Responsabilidade Fiscal e em resoluções do Senado. Com a autorização, a União pode formalizar a operação com o banco multilateral. As informações são da Agência Brasil.
Coordenado pelos ministérios da Fazenda e do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Eco Invest integra o Plano de Transformação Ecológica — Novo Brasil e tem como objetivo ampliar a atração de investimento privado estrangeiro, com foco em mecanismos de proteção cambial e no aperfeiçoamento das condições institucionais e regulatórias do ambiente de negócios.
Hedge cambial: o mecanismo central
O principal obstáculo ao investimento estrangeiro de longo prazo no Brasil é o câmbio: um projeto de energia ou de infraestrutura que leva dez anos para pagar enfrenta a volatilidade do real, e o custo de proteção no mercado privado é proibitivo para prazos longos. O Eco Invest introduziu o hedge cambial subsidiado — o governo, com recursos do Fundo Clima e de bancos multilaterais, oferece proteção a custo reduzido —, o que, segundo a Fazenda, reduziu riscos e ampliou a participação de capital estrangeiro nos leilões do programa desde 2024. É a inovação que fez do Eco Invest referência em outros países emergentes.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o programa é a política climática que o mercado entende. "O Eco Invest não é subsídio a fundo perdido nem promessa de COP. É um instrumento financeiro: o governo protege o investidor estrangeiro contra a desvalorização do real e, em troca, ele coloca dinheiro em biorrefinaria, reciclagem, rede elétrica. Um bilhão do BID vira vários bilhões de investimento privado porque o capital catalítico aceita mais risco. É blended finance de manual, e o Brasil está entre os poucos que fizeram funcionar. A Fazenda de Durigan e o Meio Ambiente de Marina Silva concordam nisso — o que já é raro", avalia.
Blended finance e capital catalítico
O principal instrumento é a combinação de recursos públicos e privados em financiamento misto. Por meio do capital catalítico, governo e instituições financeiras aportam recursos com maior tolerância a risco de mercado — considerando não só o retorno financeiro, mas o social —, o que alavanca recursos para investimentos convencionais que não entrariam sozinhos. Na prática, a parcela pública absorve a primeira perda e o investidor privado entra com condições que, sem ela, não aceitaria.
Biorrefinaria na Bahia: 20 mil barris
No eixo de transição energética, um dos projetos é a construção de uma biorrefinaria no interior da Bahia com capacidade para mais de 20 mil barris de óleo vegetal destinados à produção de SAF — combustível sustentável de aviação — e diesel renovável, compatíveis com a frota aérea atual. O SAF é a aposta da aviação para reduzir emissões sem trocar motores, e o Brasil, com macaúba, soja e cana, é candidato a maior produtor mundial. A biorrefinaria baiana é o tipo de projeto de longo prazo e alto capital que o hedge cambial viabiliza.
Economia circular: 2 milhões de pessoas
Na área de economia circular, as iniciativas do programa têm potencial de impactar positivamente mais de 2 milhões de pessoas no Nordeste, no Sudeste e no Sul — projetos de reciclagem, reaproveitamento de resíduos e cadeias de catadores. É o eixo com impacto social mais direto: renda para quem já trabalha na base da reciclagem e infraestrutura para cidades que ainda mandam a maior parte do lixo para aterro.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o detalhe mais relevante é o novo eixo de adaptação. "O Eco Invest nasceu para mitigar — energia limpa, reciclagem. Agora financia adaptação: enterrar rede elétrica na Bahia, em São Paulo e no Mato Grosso do Sul para que tempestade não derrube poste. É o reconhecimento de que a mudança climática já chegou e que parte do dinheiro precisa ir para proteger o que existe, não só para construir o que é limpo. A Taesa disse ontem que se prepara para o pior com R$ 15 milhões; o Eco Invest coloca o BID nessa conta. É a política pública acompanhando o clima", observa.
Adaptação: aterrar linhas vulneráveis
O programa passou a financiar projetos de adaptação climática, incluindo a modernização da infraestrutura elétrica em estados como Bahia, São Paulo e Mato Grosso do Sul — com o aterramento de linhas vulneráveis a chuvas intensas e ventos fortes para reduzir interrupções de fornecimento. A rede subterrânea custa várias vezes mais que a aérea, o que explica por que as distribuidoras não a adotam sem financiamento dedicado; com o El Niño excepcional previsto para o fim do ano, o investimento tem urgência.
Os leilões de 2024 e 2025
O primeiro leilão de hedge cambial do Eco Invest, em 2024, atraiu propostas de bancos nacionais e internacionais que somaram mais de R$ 40 bilhões em projetos, com subsídio público de fração desse valor — a alavancagem que o programa promete. Os leilões seguintes, em 2025, incluíram linhas para bioeconomia e recuperação de áreas degradadas, com participação de gestoras europeias e asiáticas. O crédito do BID de 2026 amplia a capacidade de subsídio para novas rodadas e sinaliza que o modelo passou no teste de mercado — dinheiro externo veio.
SAF: por que o Brasil
O combustível sustentável de aviação é produzido a partir de óleos vegetais, gorduras residuais, etanol ou biomassa, e a aviação mundial se comprometeu a usar percentuais crescentes até 2050. O Brasil tem matéria-prima abundante — macaúba, soja, cana, sebo bovino — e experiência industrial com biocombustíveis, o que o torna candidato natural a exportador. A biorrefinaria baiana financiada pelo Eco Invest é uma das primeiras plantas dedicadas no país, e sua viabilidade depende exatamente do capital de longo prazo que o hedge cambial destrava.
O BID e o Brasil
O Banco Interamericano de Desenvolvimento é o maior financiador multilateral da América Latina, e o Brasil seu maior cliente. O empréstimo de US$ 1 bilhão para o Eco Invest se soma a operações anteriores do banco com o programa e a linhas do Banco Mundial e de agências europeias — o Brasil usa o Eco Invest como plataforma para concentrar financiamento climático internacional sob regras únicas. A garantia da União e a autorização do Senado são os requisitos da LRF para dívida externa.
O Plano de Transformação Ecológica
Lançado em 2023 pela Fazenda, o Plano de Transformação Ecológica reúne o Eco Invest, o mercado regulado de carbono, a taxonomia sustentável, os títulos soberanos verdes e o Fundo Clima ampliado. É a agenda econômica do governo para a transição — a que se apresenta a investidores e à COP — e o Eco Invest é seu braço de atração de capital. Em ano eleitoral, é também vitrine: a autorização do BID sai às vésperas da campanha.
O que muda para quem investe
Com o crédito autorizado, o programa pode lançar novas rodadas de leilão de hedge cambial e de capital catalítico, em que investidores estrangeiros e bancos brasileiros disputam recursos para projetos de energia, bioeconomia, economia circular e adaptação. Os editais definem setores, prazos e contrapartidas; a Fazenda tem usado leilões competitivos para reduzir o custo do subsídio.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Eco Invest deveria sobreviver à eleição. "É um programa técnico, com BID e Banco Mundial dentro, que traz dólar para projeto de longo prazo no Brasil. Não tem cor partidária — Haddad criou, Durigan mantém, e qualquer ministro da Fazenda sensato continuaria. O risco é o vencedor de outubro tratar como marca do adversário e deixar morrer, como aconteceu com tanta política boa. Um bilhão do BID para biorrefinaria e rede elétrica enterrada é investimento que aparece daqui a cinco anos. Quem cortar não vai ser cobrado; quem mantiver não vai ser elogiado. É por isso que precisa ser lei, não programa", analisa.
O despacho do Ministério da Fazenda autorizando a contratação de crédito de até US$ 1 bilhão com o BID para o Eco Invest Brasil foi publicado no Diário Oficial da União em 4 de setembro de 2026.
Foto: USFWS Headquarters (Public domain) via Wikimedia Commons.