Meio Ambiente

Guarás do Recôncavo Baiano revelam a importância dos manguezais

No Porto do Cajá, a maré vazante expõe caranguejos e moluscos que alimentam os guarás; na enchente, o mangue vira berçário de peixes; o Paraguaçu forma o lagamar do Iguape.

Guarás do Recôncavo Baiano revelam a importância dos manguezais

No Porto do Cajá, a paisagem muda junto com a maré. Quando a água começa a recuar, o espelho que cobre parte do estuário desaparece lentamente e revela um solo escuro, recortado pelas raízes do mangue. É Maragogipe, no Recôncavo Baiano, onde, ao amanhecer e no fim da tarde, os guarás costumam fazer suas revoadas. O guará — nome tupi-guarani — é identificado também pelo nome científico Eudocimus ruber, mistura de grego e latim que significa "ave de coloração vermelha gloriosa"; mais do que uma joia da biodiversidade, fora do risco de extinção, os guarás são indicadores da complexidade ecológica dos grandes estuários tropicais. As informações são de reportagem do ((o))eco.

A história conhecida da espécie acompanha as transformações dos manguezais ao longo do litoral atlântico, com ocorrência em diferentes países da América do Sul; sua presença depende da disponibilidade de alimento, da dinâmica das marés e da existência de extensas áreas de manguezal capazes de manter uma cadeia de relações ecológicas que envolve peixes, crustáceos, moluscos, microrganismos e inúmeras outras espécies. É esse conjunto de fatores que faz do Recôncavo um habitat singular entre centenas de quilômetros do litoral baiano: enquanto muitos trechos do litoral brasileiro perderam parte de seus manguezais para a expansão urbana, atividades industriais e outras formas de ocupação costeira, a Baía de Todos os Santos ainda conserva um dos maiores sistemas estuarinos do país. Com cerca de mil quilômetros quadrados de espelho d'água, a baía ocupa posição singular na costa brasileira; em suas margens distribuem-se dezenas de municípios, comunidades pesqueiras, áreas protegidas e remanescentes de manguezais que são a base de intensa produtividade biológica. No mapa, a rede de manguezais e apicuns revela um território contínuo, moldado pelo encontro das águas doces que descem do interior com o Rio Paraguaçu e pela influência diária do Atlântico, formando o lagamar da Baía do Iguape. Na maré baixa, o sedimento exposto concentra pequenos caranguejos, camarões, moluscos e outros invertebrados que são a base da alimentação dos guarás; quando a água retorna, os mesmos manguezais tornam-se abrigo para peixes juvenis, crustáceos e outras espécies que dependem do estuário para crescer antes de seguir para o oceano. O aumento dos avistamentos na Bahia é resultado de 30 anos de reflorestamento com mudas nativas e de ações de educação ambiental voltadas a pescadores e marisqueiras — trabalho que envolve a Fundação Vovó do Mangue e pesquisadores da região.

O pássaro que sumiu e voltou: por que o guará é o termômetro do mangue brasileiro

O guará foi, durante o século 20, uma das aves mais perseguidas do litoral brasileiro — a plumagem vermelha, que vem dos carotenoides dos caranguejos que come, era usada em adornos desde o período colonial, e a destruição dos manguezais para portos, indústrias, salinas e cidades eliminou a espécie de estados inteiros: em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, o guará desapareceu por décadas e só voltou a partir dos anos 2000, com a recuperação de mangues em Cubatão, na Baía de Guanabara e no Rio Doce, em projetos que se tornaram símbolo de que a reversão é possível. A Bahia, que nunca perdeu a espécie por completo, viveu um processo diferente: no Recôncavo, a pesca artesanal e a mariscagem — praticada majoritariamente por mulheres, que coletam sururu, ostra e caranguejo no mangue — dependem do mesmo ecossistema que sustenta o guará, e foi essa comunidade, com apoio de organizações locais como a Fundação Vovó do Mangue e de universidades, que replantou mudas de mangue-vermelho, mangue-branco e siriúba por três décadas em áreas degradadas, aprendeu a não cortar o mangue para lenha e a respeitar o defeso do caranguejo, e viu as revoadas aumentarem como resultado visível; o guará, ave conspícua e fotogênica, virou indicador — se ele está, o caranguejo está, o peixe juvenil está, a água está limpa — e a economia local, com turismo de observação em Maragogipe e Cachoeira, começa a valorizar a ave viva. O contexto nacional é de pressão: os manguezais, que cobrem cerca de 14 mil quilômetros quadrados no Brasil e estocam mais carbono por hectare que qualquer floresta, tiveram a proteção legal ameaçada por tentativas de revogação em 2020, mantida pela Justiça, e seguem perdendo área para carcinicultura, especulação imobiliária e, agora, elevação do nível do mar. A Baía de Todos os Santos, com seus mil quilômetros quadrados, é o laboratório do que funciona.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem é uma rara boa notícia ambiental — e uma lição sobre como ela acontece. "Não foi decreto, não foi multa, não foi COP: foram trinta anos de marisqueira plantando muda de mangue e de pescador aprendendo que o caranguejo que ele deixa hoje é o guará que ele vê amanhã. O resultado é uma revoada vermelha em Maragogipe e um estuário que ainda produz. Em São Paulo, o guará sumiu e só voltou quando Cubatão parou de envenenar o mangue; na Bahia, nunca precisou voltar porque a comunidade não deixou ir. O portal registra a história porque é o modelo de conservação que funciona no Brasil — gente do lugar cuidando do lugar — e porque o mangue, que ninguém acha bonito, é o berçário de todo peixe que chega à mesa, inclusive em Araras, a 200 quilômetros do mar", avalia.

O guará: a ave e sua ecologia

Ave de porte médio da família dos íbis, com bico longo e curvo e plumagem vermelha intensa produzida pelos pigmentos dos crustáceos que come; vive em colônias, alimenta-se na maré baixa e nidifica em manguezais altos e isolados; sua distribuição vai da Venezuela ao Sul do Brasil, com populações que oscilam conforme a saúde dos estuários.

Maragogipe e o Porto do Cajá

Município do Recôncavo às margens do Paraguaçu, com economia de pesca, mariscagem e agricultura, Maragogipe tem no Porto do Cajá um dos pontos de observação mais conhecidos das revoadas; o turismo de natureza, ainda incipiente, é aposta da comunidade para valorizar o mangue em pé.

Trinta anos de reflorestamento

Mudas de espécies nativas de mangue plantadas por comunidades, com apoio de fundações e universidades, recuperaram áreas degradadas por corte, aterro e poluição; o trabalho, contínuo desde os anos 1990, é a base do aumento dos guarás — e do estoque pesqueiro de que pescadores e marisqueiras vivem.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a Baía de Todos os Santos é patrimônio subestimado. "Mil quilômetros quadrados de baía, dezenas de municípios, o maior sistema estuarino do Nordeste, refinaria, porto, petróleo, e ainda assim o mangue resiste e o guará voa. Isso não é sorte; é resultado de comunidades que fizeram o trabalho que o Estado não fez. O portal registra e observa que a baía sofre pressão de novos empreendimentos, de esgoto e do mar que sobe — e que os trinta anos de muda podem se perder em uma década se a proteção legal do mangue for afrouxada, como tentaram em 2020. O guará é o alarme: quando ele sumir, o resto já foi", observa.

Marisqueiras e pescadores: as guardiãs do mangue

A mariscagem no Recôncavo é atividade feminina, tradicional e de baixa renda; as marisqueiras foram público-alvo da educação ambiental e protagonistas do replantio — e são as primeiras a sentir quando o mangue adoece; sua organização em associações deu à conservação base social durável.

Baía de Todos os Santos: o sistema estuarino

Segunda maior baía do Brasil, recebe o Paraguaçu, o Jaguaripe e o Subaé, tem manguezais, apicuns, recifes e ilhas, e abriga Salvador, portos, refinaria e polo petroquímico; a convivência entre indústria e ecossistema é tensa, e áreas protegidas — como a Reserva Extrativista da Baía do Iguape — tentam garantir o equilíbrio.

Manguezais no Brasil: carbono, berçário e ameaça

Com cerca de 14 mil quilômetros quadrados, os mangues brasileiros são os mais extensos das Américas; estocam carbono no solo por milênios, protegem a costa de tempestades e são berçário de 80% das espécies pesqueiras comerciais; perdem área para camarão, cidades e nível do mar, e a proteção legal — Área de Preservação Permanente — foi contestada em 2020 e mantida.

Lições para outros estuários

Cubatão, Guanabara e Rio Doce recuperaram guarás com despoluição e replantio; o Recôncavo mostra que prevenir é mais barato que recuperar, e que a comunidade local é o agente mais eficaz; o modelo — educação, muda, defeso, turismo — é replicável em qualquer manguezal brasileiro com gente que dependa dele.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a revoada de Maragogipe deveria estar em todo livro de ciências. "Uma ave vermelha que sumiu de metade do litoral e volta onde o mangue foi cuidado — é a ecologia explicada num pássaro. As crianças de Araras, que o portal quer ver aprendendo sobre a Amazônia, deveriam aprender também sobre o mangue e o guará: que o pigmento vem do caranguejo, que o caranguejo vem do mangue, que o mangue vem de quem planta. Trinta anos de marisqueiras fizeram o que a lei não fez. O portal registra, com respeito, o trabalho de quem cuida do lugar", analisa.

A reportagem do ((o))eco sobre o aumento dos avistamentos de guarás no Recôncavo Baiano, resultado de 30 anos de reflorestamento de manguezais e educação ambiental com pescadores e marisqueiras em Maragogipe, na Baía de Todos os Santos, foi publicada em 2 de setembro de 2026; a espécie Eudocimus ruber está fora do risco de extinção e é indicadora da saúde dos estuários tropicais.

Foto: Jay (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

Develop by Cliki