O Ibama autorizou a Petrobras a perfurar três novos poços exploratórios na Bacia da Foz do Amazonas, em águas ultraprofundas do Amapá, segundo documento visto pela agência Reuters. A decisão, assinada na quinta-feira (3) pelo presidente do órgão, Jair Schmitt, representa avanço nos esforços da estatal para produzir petróleo na área ambientalmente sensível da costa amazônica: os novos poços são fundamentais para determinar se a descoberta anunciada em agosto é comercialmente viável. A licença exige que a Petrobras apresente cronograma atualizado do projeto em 30 dias e atualize a análise de riscos ambientais como condição para mantê-la. As informações são da Folha de S.Paulo.
A descoberta do primeiro poço foi comemorada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que viajou ao Amapá dias depois para saudá-la como "um passaporte para o futuro deste país". Se a viabilidade comercial for confirmada, a produção poderia começar em cerca de sete anos, segundo a presidente da Petrobras, Magda Chambriard.
Por que três poços a mais
Uma descoberta de petróleo é apenas o primeiro passo. O poço pioneiro confirma que há óleo; os poços seguintes — chamados de delimitação ou avaliação — medem a extensão do reservatório, a qualidade do óleo, a pressão e a produtividade, dados necessários para calcular se o volume justifica o investimento de bilhões de dólares em plataformas, dutos e navios. Sem eles, a descoberta é promessa; com eles, vira projeto ou é abandonada. Os três poços autorizados são essa etapa: é neles que a Petrobras descobrirá se a Foz do Amazonas é uma nova Guiana ou um achado sem escala.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a licença é o momento em que a disputa muda de natureza. "Até agora, a briga era se a Petrobras podia perfurar. O Ibama disse sim, com condições, e a descoberta veio. Agora a pergunta é quanto óleo há — e isso só os três poços respondem. Se for muito, o Brasil terá um debate real sobre explorar petróleo na foz do Amazonas com produção em 2033; se for pouco, o assunto morre sozinho. O Ibama fez o certo ao exigir cronograma e nova análise de risco: cada poço a mais é um risco a mais, e o primeiro já vazou fluido", avalia.
O vazamento do primeiro poço
No início de 2026, houve vazamento de fluido durante a perfuração do primeiro poço — fluido de perfuração, a mistura usada para lubrificar a broca e controlar a pressão, e não petróleo. O incidente, embora contido, alimentou a preocupação dos povos indígenas do Amapá quanto ao impacto de um eventual boom petrolífero num estado ainda amplamente coberto por floresta amazônica preservada. A exigência de atualização da análise de riscos na nova licença é resposta direta a esse episódio: a Petrobras terá de demonstrar que o plano de resposta a emergências cobre os cenários que o primeiro poço revelou.
Margem Equatorial: a fronteira
A Bacia da Foz do Amazonas integra a Margem Equatorial brasileira — a faixa marítima do Amapá ao Rio Grande do Norte que a Petrobras considera sua fronteira de exploração mais promissora. A geologia é semelhante à dos blocos da Guiana, onde a ExxonMobil desenvolve campos gigantes que transformaram o pequeno país vizinho em um dos maiores produtores per capita do mundo em menos de uma década. A aposta da Petrobras é que a mesma formação geológica se estenda pelo lado brasileiro; a descoberta de agosto é o primeiro indício de que sim.
O debate dentro do governo
A exploração da Foz gerou disputa interna no governo Lula: de um lado, o Ministério de Minas e Energia e a Petrobras, com o argumento de que a estatal precisa repor reservas — o pré-sal tem prazo — e de que o Brasil não pode abrir mão de riqueza que a Guiana e o Suriname já exploram ao lado; de outro, o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama, que negaram a primeira licença em 2023 por deficiências no plano de emergência e só a concederam após anos de exigências adicionais. A licença desta semana, assinada pelo presidente do Ibama, indica que o órgão considera as condições atendidas — mas mantém o controle por meio das condicionantes.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Ibama saiu fortalecido do processo. "O órgão negou em 2023, foi acusado de travar o país, resistiu à pressão do Planalto e só liberou quando a Petrobras entregou o que faltava — centro de fauna, plano de resposta, simulação de vazamento. Agora libera mais três poços com cronograma e nova análise de risco. Não é o Ibama que 'atrapalha'; é o Ibama que faz o licenciamento funcionar como deve. Se a produção vier em 2033, virá com o plano de emergência mais exigente da história do petróleo brasileiro. Isso é mérito da resistência de 2023", observa.
Sete anos até a produção
O prazo citado por Magda Chambriard — produção em cerca de sete anos, se a descoberta for viável — reflete o ciclo da indústria: avaliação com os novos poços, declaração de comercialidade, plano de desenvolvimento, licenciamento de produção, contratação de plataforma e instalação. É um horizonte que ultrapassa dois mandatos presidenciais e que torna a Foz do Amazonas um tema de política de Estado, não de governo. O petróleo que Lula celebra como "passaporte" só seria embarcado em 2033, sob outro presidente.
Indígenas e a costa do Amapá
A costa amapaense abriga terras indígenas, o maior cinturão de manguezais do mundo e um sistema de recifes descoberto em 2016 — a "Amazônia submersa" que pesquisadores apontam como vulnerável a vazamentos. Os povos indígenas do Oiapoque, próximos aos blocos, reivindicam consulta prévia, prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, e o Ministério Público Federal acompanha o licenciamento. O vazamento de fluido no primeiro poço deu concretude ao temor: a distância entre o poço e o litoral é grande, mas as correntes da região são fortes e pouco estudadas.
A licença de perfuração e suas condicionantes
A primeira licença para perfurar na Foz do Amazonas foi concedida pelo Ibama após a Petrobras atender exigências que o órgão havia apontado como deficientes na negativa de 2023: a instalação de um centro de reabilitação de fauna no Amapá, a reformulação do plano de resposta a emergências com simulações de vazamento em diferentes cenários de corrente e vento, a redução do tempo de chegada de embarcações de contenção ao poço e a avaliação de impactos sobre comunidades indígenas. A nova autorização, para três poços, mantém essas condicionantes e acrescenta a atualização da análise de risco — reflexo do incidente com fluido — e o cronograma em 30 dias, que permite ao Ibama acompanhar cada etapa em vez de aprovar um pacote.
Guiana: o espelho
A comparação com a Guiana é inevitável e ambígua. Desde 2015, a ExxonMobil descobriu mais de 11 bilhões de barris na costa guianense, na mesma formação geológica que se estende ao Amapá, e o país passou de produção zero a mais de 600 mil barris por dia em menos de uma década — com PIB crescendo a taxas de dois dígitos. É o argumento da Petrobras: o óleo está lá, o vizinho está tirando, e o Brasil perde se não fizer o mesmo. O contra-argumento ambiental é que a Guiana explora longe da foz do maior rio do mundo, sem os recifes, os manguezais e as correntes que tornam a costa amapaense única — e que o Brasil, ao contrário da Guiana, já tem o pré-sal e não precisa apostar tudo numa fronteira sensível.
O petróleo e a eleição
A descoberta entrou na campanha. Lula a citará no pronunciamento de 7 de Setembro como riqueza que "vai desenvolver tecnologia e gerar empregos qualificados", e a Margem Equatorial é tratada pelo governo como o "novo pré-sal" do Norte e do Nordeste. Para a oposição, o tema é ambíguo — apoia a exploração, mas critica o Ibama —, e para o eleitorado ambientalista, é o ponto de maior atrito com o governo. A licença desta semana, às vésperas do feriado, alimenta o discurso presidencial e reacende a crítica.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Brasil precisa decidir o que quer com o óleo antes de saber quanto tem. "A Guiana descobriu, produziu em cinco anos e virou o país que mais cresce no mundo — e também o que mais depende de uma única commodity. O Brasil pode fazer a mesma coisa na Foz ou pode usar os sete anos para definir regra: fundo soberano, royalties para o Amapá, transição energética financiada pelo óleo. A licença do Ibama dá tempo. O que o país não pode é chegar em 2033 com a plataforma pronta e a política por fazer", analisa.
A Petrobras tem 30 dias para apresentar ao Ibama o cronograma atualizado de perfuração dos três novos poços na Bacia da Foz do Amazonas. A declaração de comercialidade da descoberta depende dos resultados desses poços.
Foto: Jonkers Brian, U.S. Fish and Wildlife Service (Public domain) via Wikimedia Commons.