O Reino Unido anunciou na quinta-feira (3 de setembro) contribuição de US$ 540 milhões ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre, o TFFF, criado pelo Brasil e lançado às vésperas da COP30, em Belém. O aporte será feito na forma de empréstimo e está sujeito à finalização dos mecanismos de governança e operação do fundo e à participação do governo britânico nas estruturas de decisão, segundo comunicado do Departamento de Segurança Energética. Com ele, o total investido no TFFF sobe a US$ 7,3 bilhões — R$ 37,6 bilhões —; o mecanismo precisa alcançar US$ 10 bilhões, R$ 51,2 bilhões, até o fim do ano para manter o investimento da Noruega, de US$ 3 bilhões. As informações são da Folha.
"Com o investimento britânico no TFFF, o empréstimo será reembolsado, ao mesmo tempo que continuará apoiando ações em favor do clima e da natureza. Isso demonstra a nova abordagem do Reino Unido para o financiamento climático, atuando como investidor, em vez de doador", afirma o comunicado. A contribuição ficou abaixo da de outros europeus: a Alemanha confirmou € 1 bilhão — R$ 5,9 bilhões — e a França aprovou € 500 milhões, R$ 2,9 bilhões. O governo britânico havia desistido de sinalizar investimento durante a COP30, e a incerteza aumentou com a renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro, em junho. A meta do TFFF, sem prazo definido, é receber US$ 25 bilhões de recursos públicos e US$ 100 bilhões de fontes variadas, inclusive privadas — US$ 125 bilhões, R$ 640 bilhões —, aplicados em carteira diversificada de renda fixa com rendimento de 7% a 8% ao ano; os financiadores ficam com cerca de 4% dos rendimentos e os países que preservam florestas recebem outros 4%. O fundo pagará US$ 4 — R$ 20,50 — por hectare conservado, com redução em caso de desmatamento ou degradação por fogo; até 74 países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, poderão ser recompensados, e ao menos 20% dos rendimentos de cada nação irão a povos indígenas e comunidades locais.
O TFFF: como funciona o fundo que paga pela floresta em pé
Diferentemente de doações tradicionais, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre é um veículo de investimento: capta dinheiro de governos e investidores, aplica em títulos de renda fixa de países emergentes e usa a diferença entre o rendimento dessa carteira e o custo do capital para pagar aos países tropicais por hectare de floresta conservada, com desconto por área desmatada ou queimada — o que cria incentivo permanente, e não pontual, à preservação. O desenho foi proposto pelo Brasil em 2023, negociado por dois anos e lançado pelo presidente Lula na cúpula de líderes da COP30, em novembro de 2025, com US$ 5,5 bilhões iniciais — Brasil, Noruega, Indonésia, França, entre outros. O Banco Mundial atua como gestor interino; a governança, ainda em finalização, é a condição que o Reino Unido impõe para desembolsar.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o anúncio é boa notícia com prazo apertado. "Sete bilhões e trezentos milhões captados, dez bilhões necessários até dezembro para segurar os três bilhões da Noruega — faltam 2,7 bilhões de dólares em quatro meses, num ano de eleição no Brasil e de governo novo em Londres. O Reino Unido entrou, mas como emprestador, com condições e abaixo da Alemanha; os Estados Unidos de Trump não entram; a China observa. O TFFF é a ideia mais inteligente que o Brasil levou à COP30 — pagar pela floresta em pé com juros de mercado, não com caridade. Mas ideia inteligente sem os dez bilhões vira mais um fundo que não decola. Setembro a dezembro é a hora de o Itamaraty e a Fazenda baterem em cada porta que sobrou", avalia.
Quem já entrou: os aportes até agora
O Brasil e a Indonésia comprometeram US$ 1 bilhão cada, a Noruega US$ 3 bilhões — condicionados à meta de US$ 10 bilhões —, a Alemanha € 1 bilhão, a França € 500 milhões, e Holanda e Portugal valores menores, anunciados em Belém; o Reino Unido chega com US$ 540 milhões e eleva o total a US$ 7,3 bilhões. Ficam de fora, até agora, os Estados Unidos — que sob Donald Trump abandonaram o financiamento climático multilateral —, o Japão, os países do Golfo e a China, que o Brasil tenta atrair como investidora, não doadora.
Como o pagamento é verificado
O fundo usa imagens de satélite para medir, a cada ano, a área de floresta tropical em pé em cada país elegível e a área desmatada ou degradada por fogo; o pagamento de US$ 4 por hectare conservado sofre desconto por hectare perdido em proporção muito superior — de modo que desmatar custe mais do que a floresta rende —, e o país que ultrapassar limites de desmatamento fica sem receber. A verificação independente é condição dos financiadores e uma das peças de governança ainda em definição.
Investidor, não doador: a lógica britânica
Ao entrar por empréstimo, Londres recupera o principal e parte dos rendimentos, mantendo o gasto fora da conta de ajuda externa que o governo cortou em 2025 para financiar defesa; é o modelo que o TFFF foi desenhado para aceitar e que Alemanha e França também usam. A contrapartida — assento nas decisões — dá aos financiadores voz sobre gestão e critérios de pagamento.
Noruega: os US$ 3 bilhões condicionados
Maior doador histórico do Fundo Amazônia, o país norueguês prometeu US$ 3 bilhões ao TFFF sob a condição de o fundo alcançar US$ 10 bilhões até o fim de 2026 — garantia de escala mínima para a carteira funcionar; sem a meta, o compromisso pode ser reduzido ou adiado, e o efeito dominó sobre outros financiadores é o risco que o governo brasileiro tenta evitar.
Alemanha e França: os maiores europeus
O € 1 bilhão alemão e os € 500 milhões franceses foram anunciados em Belém e formalizados em 2026; somados ao aporte britânico e aos compromissos de Brasil, Indonésia, Holanda e outros, formam os US$ 7,3 bilhões. A ausência americana e a cautela de Japão e países do Golfo explicam a distância da meta.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o detalhe dos 20% para indígenas é o que distingue o fundo. "Quatro dólares por hectare parece pouco — mas são 20 reais por hectare por ano, para sempre, com um quinto obrigatoriamente indo a quem vive na floresta. Para o Brasil, com centenas de milhões de hectares de floresta tropical, é receita anual de bilhões condicionada a não desmatar. É o oposto do Fundo Amazônia, que financia projetos: o TFFF paga resultado. A pergunta é se o dinheiro chega — e se o próximo governo, seja qual for, mantém o desmatamento em queda para receber. Um fundo que só paga quem conserva é também um fundo que expõe quem desmata", observa.
US$ 4 por hectare: quanto o Brasil pode receber
Com cerca de 340 milhões de hectares de floresta tropical elegível, o Brasil poderia receber mais de US$ 1 bilhão por ano se conservar tudo — valor que cai proporcionalmente ao desmatamento e à degradação por fogo medidos por satélite; Indonésia, Congo, Peru e Colômbia são os outros grandes beneficiários potenciais.
Governança pendente: o que falta definir
Conselho, regras de voto, gestor definitivo, metodologia de verificação por satélite e critérios de repasse aos povos indígenas ainda estão em elaboração; o Reino Unido condiciona o desembolso a essas definições e a assento no conselho. A secretaria do fundo, com apoio do Banco Mundial, prevê concluir a estrutura até o fim de 2026.
Starmer, a renúncia e a política britânica
A saída de Keir Starmer em junho abriu incerteza sobre compromissos climáticos; o anúncio de setembro, pelo Departamento de Segurança Energética, indica que o novo governo manteve a agenda, ainda que em formato de investimento. O Reino Unido copreside com o Brasil iniciativas de florestas desde a COP26, em Glasgow.
COP30 e o legado de Belém
O TFFF foi o principal resultado concreto da conferência de Belém, ao lado do mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis; sua capitalização é o teste de credibilidade do Brasil como articulador de financiamento climático — e o que a COP31, em 2026, avaliará.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, os números contam a história do financiamento climático em 2026. "Os países ricos não doam mais; emprestam, com condições e cadeira no conselho. O Reino Unido cortou ajuda externa e entra no TFFF porque vai receber de volta. É menos generoso e mais sustentável — dinheiro que rende não some com a troca de governo. O Brasil desenhou um fundo para esse mundo. Falta a última milha: 2,7 bilhões até dezembro. Se conseguir, terá criado o primeiro mecanismo global que paga floresta viva com juros de mercado. Se não, a Noruega recua e o TFFF vira nota de rodapé da COP30", analisa.
O anúncio da contribuição de US$ 540 milhões do Reino Unido ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre foi feito em 3 de setembro de 2026 e noticiado pela Folha; o fundo soma US$ 7,3 bilhões e precisa atingir US$ 10 bilhões até o fim de 2026 para manter o aporte da Noruega.
Foto: Gregory Heath, CSIRO (CC BY 3.0) via Wikimedia Commons.