Meio Ambiente

Três furacões ao mesmo tempo no Pacífico

Karina (categoria 4), Lowell e Marie avançam simultaneamente; situação semelhante só ocorreu em 2015. OMM confirma El Niño "muito forte" até fevereiro e Guterres fala em "águas desconhecidas".

Três furacões ao mesmo tempo no Pacífico

Um trio de furacões avança simultaneamente pelo Oceano Pacífico nesta quinta-feira (3), em um evento raro que cientistas atribuem às águas aquecidas por um El Niño historicamente forte. A tempestade tropical Marie ganhou força e se tornou furacão no fim da quarta-feira, na costa da Baixa Califórnia, no México, alinhando-se atrás dos poderosos Karina e Lowell, que seguem rumo ao oeste, afastando-se do continente americano. O Lowell atingiu a categoria 5, a mais alta da escala Saffir-Simpson, a centenas de quilômetros ao sul do Havaí. As informações são da Folha de S.Paulo, a partir da agência AFP.

"O aquecimento provocado pelo El Niño cria as condições para essas tempestades, que são alimentadas em grande parte por águas quentes. Quando o Pacífico tropical está mais quente do que o normal, observamos um aumento no número de tempestades intensas", explicou à AFP Julia Cole, cientista do clima da Universidade de Michigan. O fenômeno deste ano tem 69% de chance de se tornar o mais forte já registrado, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

Como o El Niño fabrica furacões

Furacões são máquinas térmicas: extraem energia da água quente do oceano e a convertem em vento e chuva. Quanto mais quente a superfície do mar, mais combustível disponível. O El Niño, ao elevar a temperatura do Pacífico tropical, amplia esse reservatório de energia — e faz mais: seus efeitos sobre a atmosfera reduzem o chamado cisalhamento vertical dos ventos, a variação de intensidade ou direção do vento conforme a altitude. Cisalhamento forte "rasga" tempestades em formação; cisalhamento fraco as deixa crescer. É a combinação de água quente e atmosfera estável que cria condições excepcionais para a intensificação.

"O sistema climático aqueceu significativamente nos últimos 20 anos", disse à AFP Benjamin Kirtman, cientista atmosférico da Universidade de Miami. Segundo ele, a temperatura da superfície do mar, já acima da média, beira níveis recordes. "Não há outra forma de dizer: as condições para formação de tempestades estão extremamente favoráveis neste momento."

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o trio é um sintoma, não uma anomalia isolada. "Três furacões simultâneos, um deles categoria 5, num oceano que está no limite do recorde de temperatura: isso é a física funcionando. O El Niño dá o combustível, o aquecimento global sobe a temperatura de base, e a atmosfera colabora. O que era raro em 2015 está acontecendo de novo em 2026, com um El Niño ainda mais forte. A pergunta não é se vai repetir — é com que frequência", avalia.

O precedente de 2015

Uma situação semelhante ocorreu em 2015, outro ano de El Niño intenso, quando os furacões Kilo, Ignacio e Jimena e a depressão tropical 14E — estágio inicial de um ciclone tropical — atravessaram o Pacífico ao mesmo tempo. Aquele El Niño foi um dos mais fortes já registrados e precedeu 2016, então o ano mais quente da história. O padrão se repete agora: o fenômeno de 2026 é comparado ao de 2015 em intensidade, e as projeções indicam que 2027 pode superar 2024, atual recordista de temperatura global.

A comparação com 2015 é útil também para dimensionar o risco: naquele ano, o Pacífico Central registrou um número recorde de ciclones, e o Havaí passou meses sob alertas sucessivos.

Karina, Lowell e Marie: onde estão e para onde vão

O Karina foi classificado na categoria 4 da escala Saffir-Simpson e deve enfraquecer nos próximos dias. O Lowell evoluiu na quarta-feira para a categoria 5 — ventos sustentados acima de 250 km/h, capazes de destruição catastrófica — e "deve permanecer um grande furacão" enquanto avança para oeste, segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC). "As ondulações provocadas por Lowell provavelmente causarão condições de maré e correntes de retorno com risco de morte em partes das ilhas do Havaí nos próximos dias", afirmou o órgão, acrescentando que suas previsões de trajetória e intensidade de longo prazo eram "mais incertas do que o habitual".

A escala Saffir-Simpson, usada para classificar furacões, vai de 1 a 5 conforme a velocidade dos ventos sustentados: categoria 1 a partir de 119 km/h; categoria 3, o limiar de "grande furacão", a partir de 178 km/h; e categoria 5 acima de 252 km/h. Um categoria 5 como o Lowell é capaz de destruir construções sólidas, derrubar redes elétricas por semanas e tornar áreas inabitáveis — o que torna sua trajetória para longe de terra firme, por ora, a única boa notícia do sistema.

O Havaí ainda se recupera do furacão Lala, que passou próximo à parte sul da Ilha Grande no mês passado, com ventos destrutivos e enchentes repentinas. A leste de Lowell e Karina, o Marie estava a cerca de 600 quilômetros a sudoeste da ponta sul da Baixa Califórnia e deveria ganhar mais força até sexta-feira (4).

OMM confirma El Niño "muito forte" até fevereiro

A previsão de um El Niño "muito forte" foi confirmada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) nesta quinta-feira. Segundo a agência climática da ONU, é praticamente certo que o fenômeno persistirá até fevereiro, com pico esperado entre outubro e dezembro. O calor acumulado nos oceanos é liberado lentamente para a atmosfera, o que tende a elevar as temperaturas globais no ano seguinte — foi assim em 2024, o ano mais quente já registrado, após o El Niño anterior.

"Esse El Niño excepcional tem potencial para causar um golpe severo em comunidades e economias de todo o mundo", disse a chefe da OMM, Celeste Saulo. "Já estamos observando interrupções e devastação causadas por secas e enchentes, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique."

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o alerta da OMM deveria mobilizar governos agora. "Quando a agência meteorológica da ONU diz 'praticamente certo até fevereiro' e 'pico entre outubro e dezembro', ela está dando quatro meses de aviso. Para o Brasil, isso significa seca no Norte, chuva extrema no Sul e calor no Centro-Sul no verão. Defesa civil, energia, agricultura — todos têm o calendário na mão. Quem for surpreendido em dezembro não pode dizer que não sabia", observa.

O que é o El Niño e o que ele faz

O El Niño é a fase de aquecimento de um ciclo natural no Pacífico tropical que ocorre a cada dois a sete anos e geralmente dura entre nove e doze meses. Ele se instala quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste, enfraquecem, permitindo que a água quente normalmente acumulada na porção oeste do oceano retorne para leste e suba à superfície. Isso provoca mudanças globais em padrões de vento, pressão atmosférica e precipitação: condições mais quentes e secas em algumas regiões, mais frias e úmidas em outras.

Os efeitos incluem secas em partes da Amazônia, da Indonésia e da Austrália, interrupções nas monções da Índia e alterações nos regimes de chuva em toda a faixa tropical. As condições alternam entre El Niño, seu oposto La Niña e períodos neutros. O fenômeno não é causado pelas mudanças climáticas — mas os cientistas esperam que ele intensifique o aquecimento de um planeta já afetado pela queima de combustíveis fósseis e aumente a frequência de eventos extremos.

"Águas desconhecidas"

"A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão esquentando. As temperaturas da superfície do mar estão aumentando, as temperaturas continuam subindo e o mundo está entrando na zona de perigo dos eventos climáticos extremos", alertou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. "A corrida agora é entre o aumento dos riscos e nosso compromisso de agir pelo clima e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida."

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase de Guterres resume o momento. "Um El Niño natural em cima de um oceano artificialmente aquecido é o cenário que os modelos previam há vinte anos. Três furacões no Pacífico são a imagem; a seca na Amazônia e a enchente no Sul serão a conta. O que 2026 tem de diferente é que ninguém mais pode chamar isso de surpresa. A ciência avisou, a OMM confirmou, o NHC está medindo. O que falta é o resto — política, orçamento, prevenção — acompanhar", analisa.

O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos mantém boletins atualizados sobre Karina, Lowell e Marie. A OMM deve divulgar nas próximas semanas uma atualização das projeções de impacto do El Niño por região, incluindo a América do Sul.

Foto: Hydrosami (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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