Economia

Empresários articulam novo manifesto por código de conduta no STF após revelações da PF

Mobilização em grupos de WhatsApp repete carta de dezembro com 200 assinaturas, entre elas Arminio Fraga; setor privado fala em descrédito e insegurança para investir.

Empresários articulam novo manifesto por código de conduta no STF após revelações da PF

O setor privado começa a se organizar para divulgar um novo manifesto pedindo que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, avance na adoção de um código de conduta para os ministros. A mobilização, que ocorre em grupos de WhatsApp de empresários e representantes do setor produtivo, foi desencadeada pela revelação — em investigação da Polícia Federal — de conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo apuração do jornal O Globo, reproduzida pelo InfoMoney, o episódio causou indignação e "um sentimento de desconfiança sobre a mais alta corte do país". As informações são do InfoMoney.

O pronunciamento mais contundente até agora veio de Sergio Zimerman, fundador e presidente do conselho do Grupo Petz Cobasi. No Fórum Negócios Brasil, em São Paulo, ele classificou como "estarrecedores" os fatos tornados públicos pela PF e afirmou que a população deve ir às ruas caso as investigações não resultem em punição: "Se acontecer de não dar em nada, vamos para a rua. Vamos para a rua acabar com a sem-vergonhice", disse, aplaudido de pé pela plateia.

O manifesto de dezembro

Não é a primeira carta do gênero. Em dezembro de 2025, um documento com 200 assinaturas — empresários, economistas e representantes da sociedade civil — pediu que o STF adotasse um código de conduta para seus ministros, com transparência "sobre os limites éticos que devem orientar magistrados" como condição para preservar a autoridade moral e a credibilidade do Judiciário. Assinaram, entre outros, Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central; João Amoêdo, fundador e ex-presidente do Partido Novo; Antonio Luiz Seabra, fundador da Natura; e os professores da USP Pablo Ortellado e Hélio Zylberstajn.

Aquele manifesto foi motivado por revelações de que o ministro Dias Toffoli viajou a Lima, para a final da Libertadores, em jato particular ao lado de um advogado envolvido no caso Master — cujas investigações estavam sob supervisão do próprio Toffoli — e de que o Banco Master contratara o escritório de advocacia de Viviane Barci, mulher de Moraes, por R$ 3,6 milhões mensais, num contrato que totalizava R$ 130 milhões, segundo O Globo.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a novidade não é o pedido, é quem o faz. "Código de conduta para o Supremo é reivindicação antiga de juristas e da imprensa. O que mudou é que agora quem pede é o dono da Petz, o fundador da Natura, o ex-presidente do BC — gente que fala em nome do capital, não da oposição política. Quando o empresariado diz que a insegurança sobre o STF 'afasta investimentos', está usando o argumento que a Corte mais ouve: o econômico. E quando um empresário aplaudido de pé fala em ir para a rua, o recado é que a paciência do setor produtivo acabou", avalia.

O que o novo manifesto pede

Um empresário que participa das conversas, sem se identificar, confirmou ao Globo a mobilização: "Há conversas para um novo documento, que deve sair logo. Há um sentimento de desconfiança e revolta em relação a determinadas posturas de ministros do STF, que criam um ambiente de total descrédito da instituição, que tem o poder de garantir o cumprimento da Constituição. Isso afeta a credibilidade do país, afasta investimentos porque não se pode viver sempre nessa insegurança." O pedido central é o mesmo de dezembro — o código de conduta —, agora dirigido a Fachin, que assumiu a presidência da Corte e afirmou que não haverá "omissão nem precipitação" na decisão sobre o caso.

A crítica ao pedido de anulação

Zimerman criticou também o pedido da Procuradoria-Geral da República para anular o relatório da PF sobre o caso, com o argumento de que a investigação não teria autorização. "Imagina, por exemplo, que fosse uma investigação que não tivesse autorização, mas tivesse flagrado uma pessoa, sei lá, praticando pedofilia. Não interessa o que foi feito, interessa que não podia ser feito daquela forma. Não é a primeira vez que anulam processos no Brasil pelo mesmo motivo. Outros processos, como todos sabem, muito importantes foram anulados, as pessoas foram descondenadas porque o jeito de fazer não seguiu um determinado rito", disse — referência às anulações de condenações da Lava Jato por vícios processuais.

Código de conduta: o que seria

Códigos de conduta para cortes supremas existem em vários países. A Suprema Corte dos Estados Unidos adotou o seu em 2023, após revelações de presentes e viagens recebidos por ministros de bilionários, com regras sobre recusa em casos de conflito de interesse, aceitação de hospitalidade e atividades externas. No Brasil, o Código de Ética da Magistratura, do Conselho Nacional de Justiça, vale para juízes e tribunais — mas não para os ministros do STF, que não estão sujeitos ao CNJ. É essa lacuna que os manifestos apontam: a mais alta corte é a única instância do Judiciário sem regras formais de conduta que ela própria não possa alterar.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o precedente americano é o caminho. "A Suprema Corte dos EUA resistiu por décadas a um código, dizendo que a ética dos juízes era autoevidente. Em 2023, depois dos escândalos de Clarence Thomas com o bilionário Harlan Crow, adotou um — insuficiente, dizem os críticos, mas escrito. O STF está no mesmo ponto: contrato milionário com escritório de esposa de ministro, jato particular com advogado de parte, conversas com banqueiro investigado. Um código não impede o abuso, mas define o que é abuso — e hoje, no Supremo, isso não está escrito em lugar nenhum", observa.

A crise e a eleição

A mobilização empresarial acontece a um mês da eleição presidencial, em que Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados, e em meio a protestos convocados pela oposição para o 7 de Setembro com o Supremo como alvo. O presidente Lula, que procura se distanciar da crise, cobrou nesta semana "reforma do Judiciário" e disse que ninguém pode "usar o cargo em benefício pessoal"; aliados discutem indicar um nome técnico e sem proximidade com o Planalto — o desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio — para a vaga aberta na Corte, como gesto de institucionalidade. O manifesto dos empresários, ao cobrar Fachin e não o governo, tenta se manter fora da disputa partidária — mas o timing o coloca no centro dela.

Investimentos e insegurança

O argumento econômico dos empresários tem base: o Brasil disputa capital estrangeiro com países que oferecem previsibilidade jurídica, e a percepção de que a corte que arbitra contratos, tributos e regulação pode ter ministros com interesses cruzados eleva o prêmio de risco. Agências de classificação e investidores institucionais incluem a qualidade das instituições em suas avaliações; uma crise de credibilidade no STF, somada à incerteza fiscal e eleitoral, é o tipo de combinação que adia decisões de investimento. É esse cálculo — mais que a indignação moral — que move o manifesto.

O que Fachin pode fazer

Como presidente do STF, Fachin tem poder de pautar a discussão de um código de conduta no plenário, propor resolução interna e instituir regras de transparência — declarações de presentes, viagens e conflitos — sem depender do Congresso. A resistência histórica dos ministros a qualquer regra que os vincule é o obstáculo; a pressão pública, agora com o setor privado somado, é o que pode vencê-la. "Não haverá omissão nem precipitação", disse o presidente da Corte sobre o caso Moraes-Vorcaro; o manifesto tenta garantir que a primeira parte da frase se cumpra.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o momento é raro. "Quando Arminio Fraga, o fundador da Natura e o dono da Petz assinam a mesma carta, não é esquerda nem direita — é o país produtivo dizendo que não confia mais na regra do jogo. O Supremo pode ignorar manifesto de partido; ignorar o empresariado que gera emprego e paga imposto é mais difícil. Se Fachin usar essa pressão para aprovar um código — mesmo modesto —, a crise terá servido para alguma coisa. Se não, o próximo manifesto vai ter mil assinaturas, e o seguinte vai ser nas ruas, como o Zimerman prometeu", analisa.

O novo manifesto empresarial por um código de conduta no STF deve ser divulgado nas próximas semanas, segundo os participantes da articulação. A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal seguem em disputa sobre a validade do relatório que revelou as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Foto: Senado Federal (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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