Durante décadas, a resposta para a pergunta "quanto sono um adulto precisa?" foi simples: oito horas por noite. A ideia é antiga — remonta a meados do século 19, quando se consolidou a divisão do dia em oito horas de trabalho, oito de lazer e oito de descanso — e resistiu como regra de bolso até hoje. Mas uma revisão narrativa publicada na revista científica Brain Medicine, assinada por dois pesquisadores da Universidade de Surrey, no Reino Unido, reúne evidências de que oito horas podem não ser a quantidade ideal para todos. O artigo foi reproduzido pela Folha de S.Paulo.
A conclusão dos autores — um professor de matemática que dirige a Escola de Matemática e Física de Surrey e o diretor do Centro de Pesquisa do Sono da mesma universidade — é dupla: a duração ideal varia de pessoa para pessoa e, para a média, tende a ficar abaixo de oito horas. Mas o horário em que se dorme e a regularidade do padrão importam tanto quanto o total de horas.
De onde vêm as oito horas
A regra não nasceu em um laboratório de sono. Nasceu no movimento operário do início do século 19, quando o reformador galês Robert Owen cunhou o lema "oito horas de trabalho, oito horas de recreação, oito horas de descanso" para defender a limitação da jornada nas fábricas. A divisão simétrica do dia em três partes era uma reivindicação política — e, uma vez conquistada, virou hábito, depois senso comum e, por fim, recomendação de saúde. É esse percurso, da bandeira sindical à prescrição médica, que a revisão de Surrey coloca em questão.
O que os caçadores-coletores ensinam
Para descobrir quanto as pessoas dormem "naturalmente", pesquisadores estudaram comunidades de caçadores-coletores com estilos de vida próximos aos de nossos ancestrais — e com pouco ou nenhum acesso à luz artificial. Em um estudo inicial, moradores de comunidades na Tanzânia, na Namíbia e na Bolívia dormiam entre 5,7 e 7,1 horas por noite. Essas noites curtas não podem ser atribuídas a trânsito, redes sociais ou excesso de iluminação — e pareciam suficientes: as pessoas não compensavam com longos cochilos durante o dia e tendiam a acordar perto do amanhecer, sem despertador, em qualquer dia da semana.
O tempo exato varia conforme o método de medição, o local, a estação do ano e outros fatores ambientais, mas uma análise recente estimou a média de sono em sociedades não industrializadas em 6,4 horas. O número é bem inferior às oito horas da regra tradicional.
Os autores, porém, fazem uma ressalva importante. Esses estudos partem de uma suposição — a de que a quantidade de sono que as pessoas têm naturalmente é a quantidade de que precisam. Isso pressupõe que caçadores-coletores estejam livres de estresse e pressões que afetam o sono, o que não é necessariamente verdade. Também não se sabe se essas populações enfrentam os mesmos problemas de saúde ligados à privação de sono observados nas sociedades modernas. O sono mais curto delas, portanto, pode não ser um argumento tão forte contra as oito horas quanto parece à primeira vista.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a honestidade da ressalva é o que dá valor à revisão. "É fácil pegar o dado dos caçadores-coletores e dizer 'viu, seis horas bastam'. Os autores fizeram o contrário: mostraram o dado e explicaram por que ele pode enganar. Ciência séria sobre sono é isso — menos manchete, mais nuance. O que fica é que oito horas nunca foi um número medido; foi uma convenção de jornada de trabalho que virou recomendação médica sem passar por teste", avalia.
O que os grandes estudos mostram
A segunda linha de evidência vem de levantamentos de grande porte nas sociedades industrializadas, que relacionam a duração do sono a indicadores de saúde. Se o sono ideal for definido como a quantidade associada à melhor saúde, muitos desses estudos sugerem que o ponto ótimo está abaixo de oito horas. Um estudo recente usou exames de imagem do cérebro e do corpo, além de medidas moleculares, para analisar como o sono se relaciona com o envelhecimento de diferentes órgãos — e estimou a quantidade ideal entre 6,4 e 7,8 horas, dependendo do sexo da pessoa e do órgão estudado.
Um padrão recorrente é a curva em U: tanto dormir pouco quanto dormir demais estão associados a saúde mais precária, incluindo doenças cardíacas, derrame, declínio cognitivo e obesidade. Os cientistas ainda debatem se dormir demais causa problemas de saúde ou se é um sinal precoce deles — mas o achado desafia a ideia de que todos precisam de exatamente oito horas e sugere que dormir consistentemente por muito mais tempo é algo a se levar em consideração.
A pessoa média não existe
Todas essas estimativas se baseiam em médias — e, como lembram os autores, a pessoa "média" não existe. Com oportunidade suficiente para dormir, adultos jovens dormem mais do que adultos mais velhos saudáveis. Mesmo pessoas da mesma idade podem precisar de quantidades muito diferentes de sono, por razões genéticas, de saúde e de estilo de vida.
As recomendações da National Sleep Foundation, dos Estados Unidos, já refletem essa variação: adultos de 26 a 64 anos devem dormir entre sete e nove horas por dia, mas dormir entre seis e dez pode ser adequado para alguns. É uma faixa de quatro horas — muito distante da regra única de oito.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a variação individual tem consequência prática. "Quem dorme seis horas e meia e acorda bem não está doente — pode estar dentro da própria faixa. Quem dorme nove e continua cansado talvez precise investigar outra coisa. O problema da regra das oito horas é que ela gera ansiedade em quem dorme menos e falsa segurança em quem dorme mais. A pergunta certa não é 'quantas horas?', é 'como você acorda?'", observa.
Não é só quantidade: o horário atrasado
O sono envolve mais do que o número de horas. Uma característica importante dos padrões modernos, segundo a revisão, não é que sejam mais curtos do que costumavam ser — mas que estejam atrasados em relação ao ciclo natural de luz e escuridão. A maioria das pessoas não acorda naturalmente antes do amanhecer, como os caçadores-coletores. Muitos dormem pouco durante a semana de trabalho e compensam nos dias de folga.
A luz artificial é reconhecida como o principal fator dessa mudança. Ela altera os hábitos de sono e atrasa o relógio biológico, que controla os horários de sono e vigília. O resultado é um descompasso crônico entre o que o corpo pede e o que a rotina impõe — o chamado "jet lag social".
Irregularidade, fim de semana e o que fazer
O sono irregular é comum entre trabalhadores em turnos e estudantes universitários e está associado a saúde mais precária. Mas a revisão traz um dado prático: para quem perde horas de sono durante a semana, recuperar parte no fim de semana parece ser melhor do que não recuperar nada — mesmo que isso torne o padrão menos regular. A regularidade importa, mas a quantidade total ao longo de uma semana ou mais também.
A mensagem final dos autores é deliberadamente simples: as pessoas precisam de quantidades diferentes de sono, o horário importa, mas o essencial é dormir o suficiente quando puder, onde puder — e não se preocupar demais com uma noite mal dormida de vez em quando.
Sono no Brasil: o que muda para o leitor
No Brasil, onde as jornadas longas de deslocamento e o trabalho em turnos são comuns, o achado sobre recuperação no fim de semana é especialmente relevante. Também vale a ressalva sobre a luz artificial: telas de celular e televisão antes de dormir são a versão contemporânea do problema que os caçadores-coletores não têm — e a intervenção mais barata para quem quer melhorar o sono continua sendo reduzir a exposição à luz nas horas anteriores a deitar.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a revisão liberta sem desobrigar. "A ciência não está dizendo que dá para dormir cinco horas e ficar bem. Está dizendo que oito não é lei, que a faixa é larga e que o que mais estraga o sono moderno é o horário, não a duração. Para quem vive com culpa por não fechar as oito horas, é alívio. Para quem dorme às duas da manhã com o celular na mão, é o diagnóstico. A recomendação prática é a mesma de sempre: escuridão à noite, luz de manhã, e o corpo acha o próprio número", analisa.
A revisão narrativa, publicada na Brain Medicine, não substitui avaliação médica. Pessoas com sonolência diurna persistente, ronco intenso ou dificuldade crônica para adormecer devem procurar um especialista em medicina do sono.
Foto: DFID - UK Department for International Development (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.