Saúde

Para onde vai a gordura quando você emagrece? A resposta está na respiração

Peso perdido sai sobretudo como CO2 pelos pulmões e o resto como água; triglicerídeos armazenados são quebrados pela lipólise no déficit calórico.

Para onde vai a gordura quando você emagrece? A resposta está na respiração

A maioria das pessoas sabe que é preciso comer menos e praticar mais atividade física para perder peso: ao colocar o corpo em déficit calórico, queimam-se mais calorias do que se ingere, e assim se emagrece. Mas, embora saibamos como fazer a perda de peso acontecer, raramente pensamos para onde o peso realmente vai — além de sumir da balança e da cintura. Se você não tem certeza, não está sozinho: mesmo nutricionistas e médicos se confundem. A dica da resposta, escreve um professor-assistente de fisiologia do exercício e saúde muscular da Universidade de Birmingham em artigo publicado pela Folha, é respirar fundo — e expirar.

Quando perdemos peso, perdemos principalmente gordura corporal, retirada dos alimentos e armazenada pelo corpo: qualquer gordura consumida é decomposta pelo sistema digestivo em seus menores componentes, os ácidos graxos, transportados para manter funções normais — estrutura celular, regulação hormonal, proteção dos órgãos e reserva de energia. O corpo armazena os ácidos graxos que sobram na forma de triglicerídeos, acumulados nas células adiposas, os adipócitos, para uso posterior — quando precisamos de energia extra ou quando há pouca comida. Há duas formas principais de gordura armazenada: a subcutânea, sob a pele, como na barriga e nas pernas, e a visceral, mais profunda, inclusive ao redor dos órgãos; a maior parte da gordura que perdemos é a subcutânea, porque é nela que a maior parte se armazena. Quando o corpo está sob estresse metabólico, como num déficit calórico, recorre às reservas: as células adiposas recebem sinais de neurotransmissores e hormônios específicos para desencadear a lipólise — a quebra dos triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol, que caem na corrente sanguínea e são usados como combustível pelos músculos, pelo fígado e por outros tecidos. O que sobra desse processo de conversão em energia — os subprodutos — é eliminado pelo ar que exalamos e pelo suor.

A conta que poucos conhecem: 10 quilos de gordura viram 8,4 quilos de gás carbônico

A pergunta do artigo tem resposta quantitativa, publicada em 2014 no British Medical Journal por dois pesquisadores australianos, Ruben Meerman e Andrew Brown, que fizeram a estequiometria da queima de gordura: uma molécula típica de triglicerídeo, ao ser oxidada nas mitocôndrias, combina-se com oxigênio e produz gás carbônico e água — e, feitas as contas, 10 quilos de gordura perdida correspondem a 8,4 quilos de CO2 exalados pelos pulmões e 1,6 quilo de água eliminada pela urina, pelo suor, pelas lágrimas e pela própria respiração. Ou seja: os pulmões são o principal órgão de excreção do peso perdido, e a "queima" de gordura é, literalmente, uma combustão lenta cujo resíduo sai pela boca e pelo nariz. O estudo constatou que a maioria dos médicos, nutricionistas e treinadores consultados acreditava que a gordura virava energia, calor, músculo ou fezes — respostas erradas —, o que explica a observação do fisiologista de Birmingham de que até profissionais se confundem. A implicação prática é modesta e importante: respirar mais rápido não emagrece — hiperventilar só causa tontura —, mas o exercício aumenta a taxa metabólica e, com ela, a quantidade de gordura oxidada e de CO2 produzido; o déficit calórico, e não o suor em si, é o que faz o corpo recorrer aos adipócitos.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o artigo é ciência básica que vale mais que muita dieta. "Todo mundo quer emagrecer e quase ninguém sabe para onde vai o que perde — e a resposta, que está publicada desde 2014, é: você expira a gordura. Oito quilos e meio de cada dez saem pelo pulmão como gás carbônico. Não é metáfora; é química. Isso derruba dois mitos de uma vez: o de que suar emagrece — o suor é só a parte da água — e o de que gordura 'vira músculo'. O que emagrece é o déficit calórico, que obriga o corpo a quebrar triglicerídeos e queimá-los nas mitocôndrias; o exercício ajuda porque acelera a queima e preserva o músculo. Quem entende isso para de comprar cinta térmica e chá detox. O portal publica na editoria de saúde porque é o tipo de informação que a indústria do emagrecimento prefere que ninguém saiba", avalia.

Subcutânea e visceral: as duas gorduras

A gordura subcutânea, sob a pele, é a maior reserva e a primeira a diminuir com o déficit; a visceral, ao redor de fígado, intestino e coração, é menor em volume mas mais ativa metabolicamente — libera substâncias inflamatórias e está associada a diabetes, hipertensão e doença cardiovascular. Exercício aeróbico e redução de açúcar e álcool reduzem preferencialmente a visceral, segundo estudos, mesmo quando a balança muda pouco.

Lipólise: o sinal que abre o estoque

Adrenalina, noradrenalina, glucagon e a queda da insulina sinalizam aos adipócitos que é hora de liberar energia; enzimas quebram os triglicerídeos em três ácidos graxos e um glicerol, que entram na circulação e são captados por músculos e fígado, onde a beta-oxidação os transforma em energia, CO2 e água. Jejum, exercício e déficit calórico ativam o processo; insulina alta — após refeições ricas em carboidrato — o inibe.

Por que suar não emagrece

O suor elimina água e sais — o peso perdido numa sauna ou num treino intenso volta ao beber água —; a fração de água da queima de gordura é pequena, 16%, e sai por várias vias ao longo do dia. Roupas térmicas e cintas aumentam a perda de líquido, não de gordura, e podem causar desidratação.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a confusão dos profissionais é o dado mais revelador. "O estudo do BMJ perguntou a médicos, nutricionistas e personal trainers para onde vai a gordura, e a maioria errou — disse energia, calor, fezes. Se quem prescreve não sabe, imagine quem compra. É por isso que o mercado de emagrecimento vende suplemento 'termogênico', chá, cinta e agora caneta contrabandeada: o consumidor não tem o modelo mental certo e aceita qualquer promessa. A fisiologia é simples e está no artigo: déficit calórico, lipólise, oxidação, CO2 pelo pulmão. Quem ensina isso na escola e no posto de saúde faz mais pela obesidade do que muita campanha. O portal recomenda o texto a quem está de dieta — e a quem prescreve dieta", observa.

Déficit calórico: a única alavanca

Comer menos do que se gasta — por redução da ingestão, aumento do gasto ou os dois — é a condição necessária para que o corpo recorra às reservas; a composição da dieta influencia saciedade, preservação muscular e saúde, mas não altera a lei básica. Medicamentos como as canetas de semaglutida e tirzepatida agem na saciedade e reduzem a ingestão — o déficit continua sendo o mecanismo.

Exercício: mais oxidação, mais CO2, menos perda de músculo

Atividade aeróbica aumenta a taxa de oxidação de gordura durante e após o treino; musculação preserva massa magra durante o déficit, evitando que parte do peso perdido seja músculo. A combinação dos dois é a recomendação das diretrizes de obesidade — e a razão de o fisiologista do exercício assinar o artigo.

O que o corpo não faz: gordura não vira músculo

Tecido adiposo e tecido muscular são diferentes e não se convertem um no outro; o que acontece ao treinar em déficit é perda de gordura e manutenção ou ganho de músculo, processos independentes. A confusão alimenta promessas de "transformar gordura em massa magra" que a fisiologia não sustenta.

Obesidade no Brasil: o contexto

Mais de um quarto dos adultos brasileiros tem obesidade e mais da metade está acima do peso, segundo o Vigitel; a demanda por emagrecimento move um mercado bilionário de dietas, suplementos, academias e, desde 2023, canetas injetáveis — inclusive contrabandeadas, como a Receita registra. Entender para onde vai a gordura é o começo de escolhas melhores.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a resposta é elegante e desmistificadora. "Você emagrece pela boca — pela boca que come menos e pela boca que expira o gás carbônico da gordura queimada. O resto é água. Não há mágica, não há atalho, não há chá. Há déficit, lipólise e mitocôndria. O fisiologista de Birmingham escreveu para um público que confunde suor com gordura, e a Folha traduziu; o portal repassa porque em Araras, como em todo lugar, tem gente pagando caro por promessa que a química não cumpre. Respire fundo — e coma um pouco menos", analisa.

O artigo sobre o destino da gordura corporal durante o emagrecimento, assinado por um professor-assistente de fisiologia do exercício da Universidade de Birmingham, foi publicado pela Folha em 5 de setembro de 2026; o cálculo de que 10 quilos de gordura correspondem a 8,4 quilos de gás carbônico exalado e 1,6 quilo de água foi publicado no British Medical Journal em 2014.

Foto: Marius Vassnes (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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