Saúde

"Dizer que a vacina faz a pessoa virar gay ou virar jacaré é crime"

Com Janja e Padilha, Lula lembrou que parte da iniciativa privada foi contra criar o SUS em 1988; a agenda de sábado segue para São José do Rio Preto.

"Dizer que a vacina faz a pessoa virar gay ou virar jacaré é crime"

O presidente da República e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, fez críticas à gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, sobre a Covid-19 e afirmou que "é crime" dizer que a vacina faz a pessoa "virar gay" ou "virar jacaré". As declarações ocorreram durante visita ao Hospital de Amor de Barretos, no interior de São Paulo, na manhã deste sábado (5 de setembro). "Não desmereça a vacina, pelo amor de Deus. Dizer que a vacina faz a pessoa virar gay, dizer que a vacina faz a pessoa virar jacaré, é crime", disse, em referência a falas de Bolsonaro durante a pandemia. As informações são do InfoMoney.

Lula afirmou que, durante a elaboração da Constituição de 1988, parte da iniciativa privada foi contrária à criação do Sistema Único de Saúde. "O SUS foi achincalhado, foi avacalhado", disse. "Veio a Covid-19, e como se fosse um milagre, o SUS ressurge das cinzas que eles queriam nos colocar e se transforma num modelo de médicos, enfermeiras, de heróis, que foram responsáveis por não permitir que muito mais gente morresse por conta do descaso do governo da época." E continuou: "Poderiam ter sido evitadas pelo menos umas 400 mil mortes se tivesse apenas acreditado na ciência. Ninguém está exigindo que o governo da época soubesse cuidar da Covid-19. Não era o papel dele. A única coisa que se pedia: ouça a ciência". O presidente comparou a saúde pública brasileira à dos Estados Unidos: "Posso dizer para vocês que, nos Estados Unidos da América do Norte, que é o país mais rico do mundo, o pobre não tem o que tem aqui no Brasil". O Hospital de Amor de Barretos é um centro oncológico de atendimento gratuito a pacientes do SUS; Lula fez a visita acompanhado da primeira-dama Janja da Silva e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e na sequência tem agenda em São José do Rio Preto.

Jacaré, CPI e 700 mil mortos: a pandemia volta ao centro da campanha

A frase do "jacaré" foi dita por Bolsonaro em dezembro de 2020, semanas antes do início da vacinação, num discurso em que ironizou a vacina da Pfizer — "se você virar um jacaré, é problema seu" — e que se tornou o símbolo da postura do governo diante da imunização: atraso na compra de doses, recusa de ofertas da Pfizer em 2020, aposta na cloroquina, propaganda contra máscaras e isolamento, e a CPI da Covid de 2021, que atribuiu ao então presidente crimes de responsabilidade e contra a saúde pública por "omissão deliberada"; o Brasil chegou a mais de 700 mil mortes, a segunda maior contagem absoluta do mundo, e estudos de universidades brasileiras e estrangeiras estimam entre 300 mil e 400 mil as mortes evitáveis com vacinação mais cedo e medidas coordenadas — o número que Lula cita. A escolha do lugar não é acidental: o Hospital de Amor — antigo Hospital de Câncer de Barretos, fundado em 1962, hoje o maior centro oncológico do país para pacientes do SUS, com mais de 6 mil atendimentos por dia, unidades móveis de prevenção e financiamento que mistura SUS, doações e eventos como a Festa do Peão — é a vitrine do sistema público que o presidente defende, no interior paulista que votou majoritariamente em Bolsonaro e em Tarcísio; e a agenda em Rio Preto, na mesma tarde, confirma que a campanha decidiu disputar a região com o tema da saúde. A um mês da eleição, com Flávio Bolsonaro empatado e prometendo anistiar o pai, a pandemia é o passivo que o PT mais quer lembrar e o PL mais quer esquecer — e a fala em Barretos, ao chamar de "crime" a desinformação sobre vacina, coloca o assunto no mesmo plano do golpe pelo qual Bolsonaro foi condenado. A vacinação, enquanto isso, recupera-se lentamente: a cobertura infantil, que caiu abaixo de 70% em 2021, voltou a superar 85% em 2025, mas o sarampo voltou às Américas e o movimento antivacina, agora com o secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr., como referência, segue ativo.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a fala de Lula é campanha, e é também saúde pública. "Chamar de crime a mentira sobre vacina é usar a palavra certa: 400 mil pessoas morreram a mais porque o governo da época disse que vacina virava jacaré, que máscara não servia e que cloroquina curava. Isso não é opinião — é a CPI, são os estudos, é o cemitério de Manaus. Que Lula diga isso em Barretos, no maior hospital do SUS, em plena campanha, é eleitoral; que seja verdade, não deixa de ser. O portal registra a frase e o contexto: a cobertura vacinal ainda não voltou ao que era antes de 2019, o sarampo está de volta e o antivacinismo tem agora o governo americano como padrinho. Em Araras, a Saúde faz campanha de vacina todo mês e ainda encontra gente com medo do jacaré. É crime? A Justiça decide. É mortal, os números já decidiram", avalia.

Hospital de Amor: o maior centro de câncer do SUS

Fundado em 1962 em Barretos, o antigo Hospital de Câncer atende gratuitamente pacientes do SUS de todo o país, com mais de 6 mil atendimentos diários, unidades em outros estados, carretas de prevenção e pesquisa de ponta; financiado por SUS, doações e eventos, é o exemplo que governos de todos os partidos usam para defender a saúde pública — e o palco escolhido para a fala de sábado.

"400 mil mortes evitáveis": de onde vem o número

Estudos de USP, Fiocruz e universidades estrangeiras estimam que entre 300 mil e 400 mil das mais de 700 mil mortes por Covid no Brasil poderiam ter sido evitadas com vacinação iniciada mais cedo, compra tempestiva de doses e medidas coordenadas de distanciamento; a CPI da Covid, em 2021, apontou "omissão deliberada" do governo federal.

O SUS na Constituição: a resistência de 1988

Lula lembrou que parte da iniciativa privada se opôs à criação do sistema universal na Constituinte — o setor de planos e hospitais privados defendia modelo de seguro; o SUS foi aprovado como direito de todos e dever do Estado e é hoje o maior sistema público de saúde do mundo, com 150 milhões de usuários exclusivos.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a comparação com os Estados Unidos é o argumento mais forte do discurso. "Nos Estados Unidos, o pobre sem seguro não tem quimioterapia gratuita, não tem posto de saúde, não tem vacina de graça; aqui tem, no Hospital de Amor e no posto de bairro. Lula disse isso em Barretos e é verdade — e é o tipo de verdade que o eleitor de renda média esquece quando reclama da fila do SUS. O sistema é subfinanciado, desigual e lento; também é o que separa o Brasil de um país onde adoecer é falir. O portal registra a frase e a pergunta que ela implica para outubro: qual candidato promete financiar o SUS, e qual promete desregular a saúde? A resposta está nos programas, não nos comícios", observa.

Bolsonaro e a vacina: o histórico

Recusa de 70 milhões de doses da Pfizer em 2020, promoção da cloroquina, discursos contra máscara e isolamento, a frase do jacaré, atraso na campanha e a CPI de 2021 — o histórico que o PT usa na campanha e que o PL, com Flávio, tenta deslocar para a economia e a segurança; o ex-presidente, condenado por golpe, segue inelegível.

Cobertura vacinal: a recuperação incompleta

A cobertura de vacinas infantis caiu de mais de 90% em 2015 para menos de 70% em 2021 e recuperou-se para cerca de 85% em 2025, ainda abaixo da meta de 95%; o Brasil perdeu o certificado de eliminação do sarampo em 2019 e trabalha para recuperá-lo, enquanto casos voltam nos Estados Unidos sob Kennedy.

Interior paulista: a disputa pelo voto

Barretos e Rio Preto ficam na região que mais votou em Bolsonaro em 2022 e em Tarcísio; a campanha de Lula aposta na saúde — SUS, Farmácia Popular, Mais Médicos — para disputar o interior, enquanto o PL aposta no agro e na segurança. A visita de sábado abre a ofensiva no estado mais decisivo da eleição.

Janja e Padilha: a comitiva

A primeira-dama, presença constante em agendas de saúde, e o ministro Alexandre Padilha, ex-prefeito-candidato e articulador do governo, acompanharam a visita; Padilha é o nome do governo para o tema da vacina e responde pela recuperação da cobertura e pela resposta ao sarampo.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o discurso de Barretos marca o tom da campanha na saúde. "Lula escolheu o hospital, a palavra 'crime' e a comparação com os Estados Unidos — três escolhas que dizem que a saúde será o campo de batalha do PT contra Flávio. É legítimo e é eficaz, porque a pandemia é a memória mais dolorosa do país e o PL não tem resposta. O portal registra e acrescenta o que a campanha não diz: o SUS que ressurgiu das cinzas ainda tem fila de meses para oncologia fora de Barretos, e Araras encaminha paciente para lá porque não tem serviço próprio. Defender o SUS é financiá-lo — e isso nenhum candidato detalhou", analisa.

As declarações de Luiz Inácio Lula da Silva sobre vacina, SUS e a gestão da pandemia foram dadas em visita ao Hospital de Amor de Barretos, no interior de São Paulo, na manhã de 5 de setembro de 2026, e noticiadas pelo InfoMoney; o presidente foi acompanhado da primeira-dama Janja da Silva e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Foto: Whispyhistory (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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