Saúde

Canabidiol para cães: especialistas explicam benefícios e limites de uma moda

CBD do cânhamo não causa euforia e tem 'potencial terapêutico', mas produtos sem receita não passam pela FDA; 'a disponibilidade avançou mais rápido que as evidências', diz Jennifer Quammen.

Canabidiol para cães: especialistas explicam benefícios e limites de uma moda

O uso de canabidiol para dor, ansiedade e estresse tornou-se rotina para muitos americanos — e não surpreende que algumas pessoas se perguntem se também podem dar CBD a seus cães. Dezenas de publicações nas redes sociais mostram pessoas oferecendo petiscos e óleos com CBD a seus animais, com alegações de que isso reduz a agressividade ou alivia a dor da artrite. Mas será que os cães devem receber CBD? "Essa é uma pergunta que provavelmente ouço pelo menos uma vez por dia", diz Jennifer Quammen, veterinária em Walton, no Kentucky, e presidente da Associação Americana de Medicina Veterinária — e ela recomenda cautela. As informações são da Folha.

O CBD é uma substância encontrada na planta da Cannabis e extraída do cânhamo, mas não provoca euforia como o tetrahidrocanabinol, o THC, principal ingrediente ativo da planta; é usado em diversos produtos para seres humanos, incluindo alimentos, comprimidos e óleos. Para animais de estimação, pode ter "potencial terapêutico", diz Quammen, mas as pesquisas sobre o uso em cães são limitadas, e quaisquer supostos benefícios ainda não foram comprovados. Os produtos com CBD vendidos sem receita — para cães ou pessoas — não passam pelos mesmos testes de segurança e eficácia da FDA, a agência reguladora americana, aos quais os medicamentos são submetidos, e alguns produtos rotulados como CBD podem conter outros ingredientes prejudiciais aos cães. Ainda assim, o mercado está em plena expansão: uma pesquisa de 2025 com mais de 47 mil tutores constatou que 7,3% haviam dado CBD a seus animais, principalmente para tratar demência, osteoartrite, convulsões ou displasia do quadril. A disponibilidade de produtos para cães "avançou muito mais rapidamente do que as evidências científicas sobre segurança e eficácia clínica", diz Quammen. As pesquisas ainda estão em estágio inicial: muitos estudos foram de curta duração, incluíram poucos cães e, em vários casos, foram financiados por empresas de CBD, afirma Madeline Droog, farmacêutica do Hospital Veterinário Universitário da Texas A&M, em College Station.

Do consultório humano ao pet shop: como o CBD chegou à tigela do cachorro — e o que se sabe de verdade

O canabidiol tem, em humanos, uma indicação com evidência sólida — epilepsias refratárias, para as quais a FDA aprovou o Epidiolex em 2018 — e um universo de usos com evidência fraca ou inexistente — ansiedade, dor, sono, inflamação — que sustentam um mercado de bilhões de dólares em óleos, gomas e cremes vendidos sem receita desde a legalização do cânhamo pela Farm Bill americana; a extensão aos cães seguiu a mesma lógica: estudos pequenos da Universidade Cornell, do Colorado e da Flórida mostraram redução de dor em cães com osteoartrite e de frequência de crises em cães epilépticos com CBD associado a anticonvulsivantes, resultados promissores, mas de poucas semanas, com dezenas de animais e, como Droog aponta, frequentemente pagos por fabricantes — insuficientes para dose, segurança de longo prazo e interação com outros remédios, que o fígado do cão metaboliza de modo diferente do humano. Os riscos concretos são três: produtos sem controle, em que análises independentes encontraram concentrações de CBD diferentes do rótulo, contaminantes e, o pior, THC — tóxico para cães, que sofrem intoxicação com ataxia, vômito, incontinência e, em doses altas, coma —; a substituição de tratamento eficaz — o tutor que dá CBD em vez de anti-inflamatório ou anticonvulsivante prescrito —; e a automedicação de sintomas que precisam de diagnóstico, como a "agressividade" que pode ser dor, ou a "demência" que pode ser tumor. No Brasil, o quadro é semelhante e menos regulado: o Conselho Federal de Medicina Veterinária reconhece a prescrição de canabinoides por veterinários desde 2023, produtos importados e manipulados circulam, e a Anvisa não regula o uso animal — o que deixa o pet shop e o Instagram como fontes de informação de muitos tutores, inclusive no interior, onde clínicas veterinárias começam a receber a mesma pergunta de Quammen.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a reportagem é um bom exemplo de como se deve tratar moda de saúde. "A presidente dos veterinários americanos não diz que CBD é veneno nem que é milagre — diz que tem potencial, que a evidência é fraca e que o produto de balcão não tem controle. É a resposta honesta, e vale para o dono de cachorro de Araras que viu no Instagram que óleo de CBD cura artrite do labrador. Pode ajudar; pode ter THC e intoxicar; pode atrasar o tratamento certo. A pergunta a fazer não é ao influenciador, é ao veterinário — que, no Brasil, pode prescrever desde 2023. O portal registra e lembra que 7% dos tutores americanos já deram CBD ao cão com base em estudo de dez animais pago por quem vende; o amor pelo pet merece ciência melhor", avalia.

O que o CBD é — e não é — para cães

Canabinoide não psicoativo do cânhamo, age no sistema endocanabinoide que cães também têm, com efeito potencial em dor, inflamação, convulsões e ansiedade; não é o THC, que intoxica cães; não é medicamento aprovado pela FDA para uso veterinário; e não tem dose estabelecida por peso e condição — o que o veterinário estima caso a caso.

A pesquisa de 2025: 7,3% dos tutores

Com mais de 47 mil donos de cães, o levantamento mostra o CBD usado principalmente para demência canina, osteoartrite, convulsões e displasia de quadril — condições crônicas de cães idosos, para as quais os tratamentos convencionais têm limites e efeitos colaterais, e em que o tutor busca alternativa.

Evidência: pequena, curta, financiada

Estudos de Cornell, Colorado e outros mostram sinais de benefício em dor articular e epilepsia, com dezenas de cães e semanas de duração; a farmacêutica da Texas A&M ressalta o financiamento por empresas de CBD e a falta de dados de longo prazo — o padrão que impede recomendação formal.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o problema é o produto, não a molécula. "CBD pode funcionar para cão com artrite ou epilepsia — a molécula tem lógica biológica e estudos iniciais favoráveis. O que não funciona é o petisco de pet shop sem análise, com dose de rótulo inventada e, às vezes, THC que derruba o animal. A FDA não testa, a Anvisa não regula uso animal, e o tutor compra no escuro. O portal registra a orientação da AVMA e a acrescenta: se for dar, que seja produto com laudo, dose de veterinário e sem substituir o remédio que funciona. Cachorro não escolhe; o dono escolhe por ele", observa.

THC: o risco escondido

Cães são muito mais sensíveis ao THC que humanos; produtos de "espectro completo" ou mal rotulados podem conter o suficiente para intoxicação — ataxia, vômito, tremores, incontinência, sedação profunda —, uma das emergências veterinárias mais comuns em estados americanos com maconha legal.

Quando o CBD substitui o tratamento certo

Dar CBD para "agressividade" que é dor, para "ansiedade" que é doença neurológica, ou para artrite em vez do anti-inflamatório prescrito atrasa diagnóstico e tratamento; veterinários recomendam CBD, quando indicado, como adjuvante e sob acompanhamento — nunca como primeira escolha por conta própria.

Brasil: CFMV, Anvisa e o mercado

Veterinários podem prescrever canabinoides desde a resolução do CFMV de 2023; produtos importados, manipulados e sem registro circulam; a Anvisa não regula uso veterinário; e clínicas do interior recebem a mesma pergunta diária de Quammen — com menos evidência local e mais Instagram.

O que perguntar ao veterinário

Há diagnóstico? O CBD tem evidência para esta condição? Qual produto, com laudo de concentração e ausência de THC? Qual dose por peso? Interage com outros remédios? Como medir se está funcionando? Perguntas que a reportagem sugere e que separam cuidado de moda.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a fala da veterinária deveria virar regra geral. "'A disponibilidade avançou mais rápido que a evidência' — vale para CBD de cachorro, para caneta de emagrecer, para suplemento de academia, para tudo que o Instagram vende como saúde. O mercado corre; a ciência anda. O tutor que ama o cão quer fazer algo, e o produto está ali, no pet shop, com rótulo bonito. O portal registra a cautela da AVMA e sugere o caminho mais barato e mais seguro: a consulta. Em Araras, tem veterinário que sabe do que se trata — e que não vende óleo", analisa.

A reportagem sobre os benefícios e limites do canabidiol para cães, com a presidente da Associação Americana de Medicina Veterinária, Jennifer Quammen, e a farmacêutica Madeline Droog, da Texas A&M, foi publicada pela Folha em 2 de setembro de 2026; pesquisa de 2025 com mais de 47 mil tutores mostrou que 7,3% já deram CBD a seus cães.

Foto: Cannabis Tours (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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