Saúde

"Eu vejo a morte como parte natural da vida; acho ótimo poder falar disso com alegria"

"Faz tempo que só uso meus cabelos brancos; resolvi mudar para esta peça", conta a atriz, que deu aulas no Tablado por 30 anos.

"Eu vejo a morte como parte natural da vida; acho ótimo poder falar disso com alegria"

A colunista da Folha chega cedo ao Sesc de Copacabana para falar com Guida Vianna, que comemora 50 anos de carreira, e a primeira coisa que a atriz faz é perguntar por sua mãe, que conhecera rapidamente, mas de forma acolhedora, duas semanas antes. Guida já está com o figurino e a peruca castanha de "As Irmãs Pereira", peça escrita para celebrar seu aniversário nos palcos por um antigo aluno, Pedro Brício; a roupa brilha como ela, que fala entusiasmada de uma vida inteira no teatro. "Faz tempo que só uso meus cabelos brancos; resolvi mudar para esta peça." A entrevista integra a coluna Morte Sem Tabu, dedicada a reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e do fim da vida, assinada por uma doutora em Direito autora de "A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta". As informações são da Folha.

"Conheço o Pedro desde que ele tinha 15 anos, foi meu aluno de improvisação. Dei aulas no Tablado por 30 anos", conta a atriz — e a colunista, criada em Petrópolis, lembra que sempre ouviu falar de quem sonhava em atuar e ia ao Rio tentar a sorte no Tablado, "o Big Bang da atuação". "Faz 40 anos que sou professora. Dou oficinas de improvisação no Brasil todo, para atores e não atores." Na edição de 2026 do Prêmio APTR de Teatro, Guida recebeu o primeiro Troféu Camilla Amado: "Quando o Edu Barata me ligou para dizer que eu ia ganhar esse prêmio, recusei. Tanta gente importante, por que eu? Mas então ele me disse que era o reconhecimento não só pela atuação, mas pela contribuição na formação de atores e atrizes. Aí eu aceitei." Recebeu o troféu das mãos de Rafaela Amado, filha de Camilla, "outra operária do teatro" — "eu disse que tinha que ser ela". A colunista relembra a peça que Guida fez com Silvia Buarque, "A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe", de Daniela Pereira de Carvalho, e a atriz define o ofício: "transbordar a imaginação para a concretude na linguagem cênica". Com mais de 40 peças, além de filmes e novelas, Guida se surpreende quando a colunista diz que Fausta, sua personagem em "Senhora do Destino", é inesquecível: "Você acha?". E resume a visão que dá título à entrevista: vê a morte como parte natural da vida, e acha ótimo poder falar disso com alegria.

Por que falar de morte é assunto de saúde

A coluna Morte Sem Tabu nasceu da constatação de que o Brasil — país onde a maioria morre em hospitais, muitas vezes sem que a família tenha conversado sobre o que a pessoa queria — trata o fim da vida como assunto proibido, com custos concretos: tratamentos fúteis prolongados, sofrimento evitável, famílias em conflito e luto complicado. A medicina paliativa, que o SUS incorporou formalmente em política nacional em 2024, e movimentos como o "Death Café" e as diretivas antecipadas de vontade partem do mesmo princípio que Guida Vianna expressa com leveza: falar da morte com naturalidade é condição para viver bem até o fim e para morrer com dignidade. Uma atriz de 50 anos de carreira, professora de gerações, que troca o cabelo branco por uma peruca castanha para uma peça de aniversário e diz achar "ótimo" falar do fim com alegria, é o oposto do medo silencioso que domina consultórios e salas de família — e é por isso que a entrevista, embora sobre teatro, é também sobre saúde: mental, emocional e, no limite, física, porque quem fala do fim decide melhor sobre ele.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a frase de Guida Vianna vale mais que muitos artigos de medicina. "'Vejo a morte como parte natural da vida; acho ótimo poder falar disso com alegria.' Uma mulher de 50 anos de palco, 40 de sala de aula, que formou atores desde os 15 anos deles e agora estreia peça escrita por um. Ela não está em cuidado paliativo, não está doente — está brilhando de figurino no Sesc. É exatamente por isso que a fala importa: falar da morte enquanto se vive é o que a medicina paliativa pede e as famílias não fazem. O Brasil tem política nacional de cuidados paliativos desde 2024 e quase ninguém tem diretiva antecipada de vontade. Guida faz o que o SUS não consegue: torna o assunto leve. O portal publica na editoria de saúde de propósito", avalia.

Guida Vianna: 50 anos entre palco, tela e sala de aula

Nascida no Rio, formada no Tablado — a escola de Maria Clara Machado, berço de gerações de atores cariocas —, Guida Vianna construiu carreira sobretudo no teatro, com mais de 40 peças, e no cinema e na televisão, onde personagens como Fausta, de "Senhora do Destino", a tornaram conhecida do grande público; como professora de improvisação, formou centenas de atores e não atores em 40 anos de oficinas pelo país. A peça de aniversário, escrita por Pedro Brício, e o Troféu Camilla Amado reconhecem as duas trajetórias.

O Tablado: o "Big Bang" da atuação carioca

Fundado em 1951 por Maria Clara Machado, o Tablado é a escola de teatro mais influente do Rio, de onde saíram nomes como Cláudio Torres Gonzaga, Louise Cardoso, Daniel Dantas e Pedro Brício; Guida deu aulas de improvisação ali por três décadas, e a colunista lembra que, na infância em Petrópolis, "ir para o Tablado" era sinônimo de tentar a vida de ator. É a instituição que liga professora e dramaturgo na peça de agora.

Troféu Camilla Amado: reconhecimento em vida

Criado pela Associação de Produtores de Teatro do Rio em homenagem à atriz Camilla Amado, morta em 2021, o troféu distingue contribuição à formação de artistas; Guida recusou de início — "tanta gente importante, por que eu?" — e aceitou ao entender o critério. A colunista destaca a beleza de homenagens em vida, "enquanto o reconhecimento ainda pode ser apreciado" — tema que a coluna trata como parte da conversa sobre finitude.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a entrevista ilumina o que o envelhecimento pode ser. "Cinquenta anos de carreira e a atriz está ensaiando, ensinando, trocando o cabelo por uma peruca e perguntando pela mãe da jornalista. É envelhecimento ativo sem cartilha: trabalho, vínculo, propósito, humor. A gerontologia diz que esses são os fatores que mais protegem a saúde mental na velhice — e Guida os vive sem precisar nomear. Quando ela diz que acha ótimo falar da morte com alegria, não é negação: é quem viveu tanto que não precisa fingir que não acaba. O portal recomenda a entrevista a quem tem pais idosos e nunca conversou com eles sobre o que querem no fim. Comece com Guida", observa.

Cuidados paliativos no Brasil: a política de 2024

O Ministério da Saúde instituiu em 2024 a Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS, para organizar atendimento a pacientes com doenças graves em todos os níveis — da atenção básica ao hospital —, com foco em controle de sintomas, apoio à família e respeito à vontade do paciente; a cobertura ainda é pequena, concentrada em capitais, e a formação de profissionais é o gargalo. Falar da morte, como a coluna propõe, é a base cultural que a política precisa.

Diretivas antecipadas: dizer o que se quer antes

Documento em que a pessoa registra os tratamentos que aceita ou recusa caso não possa decidir, reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina desde 2012; poucos brasileiros o fazem, e a maioria das famílias decide na UTI, sob pressão. A colunista, doutora em Direito, trata do tema em seu livro — e a conversa com Guida é exemplo do que antecede o documento: a conversa em si.

"A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe": a peça sobre perda

Montada com Silvia Buarque, a partir de texto de Daniela Pereira de Carvalho, a peça trata de mãe e filha diante da perda; a colunista a assistiu ao conhecer Guida e registra que o texto lido se revelou outro no palco — o que a atriz define como "transbordar a imaginação para a concretude da linguagem cênica". É o teatro fazendo o que a coluna tenta: dar forma ao que não se diz.

"As Irmãs Pereira": a peça de aniversário

Escrita por Pedro Brício para os 50 anos de carreira da ex-professora, a peça estreia no Sesc de Copacabana com Guida de peruca castanha e figurino brilhante; é o gesto do aluno que virou dramaturgo devolvendo à mestra o palco — e o motivo pelo qual a atriz, aos 50 anos de ofício, ensaia com o entusiasmo de estreante.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a entrevista é remédio. "Num país que esconde os velhos e a morte, uma atriz de meio século de palco diz, de figurino, que falar do fim é ótimo — e que o importante é o que ela está fazendo agora: ensinar, ensaiar, receber prêmio da filha de uma amiga. Não há dado, não há estatística, e é a notícia de saúde mais útil da semana. Quem lê e liga para a mãe, o pai, a avó, para perguntar como estão e o que querem, entendeu. O portal agradece a Guida Vianna e à coluna Morte Sem Tabu", analisa.

A entrevista de Guida Vianna à coluna Morte Sem Tabu, da Folha, foi publicada em 3 de setembro de 2026, quando a atriz comemora 50 anos de carreira com a peça "As Irmãs Pereira", de Pedro Brício, no Sesc de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Foto: frank mckenna frankiefoto (CC0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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