Saúde

Ondas de calor do El Niño ameaçam pacientes neurológicos

Calor derruba a pressão e agrava tontura e mobilidade em quem tem Parkinson, reativa sintomas antigos na esclerose múltipla e aumenta internações de idosos com demência; NOAA prevê "super El Niño".

Ondas de calor do El Niño ameaçam pacientes neurológicos

As ondas de calor intensificadas pelo El Niño — fenômeno climático marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico — podem piorar os sintomas da esclerose múltipla, as alterações ligadas à doença de Parkinson e a cognição de pessoas com demência. O calor extremo também favorece o acidente vascular cerebral, as crises epilépticas e episódios de confusão mental. Os alertas são de neurologistas ouvidos pela Folha de S.Paulo, em um momento em que a NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, classifica o El Niño como forte e prevê sua evolução para "muito forte" — o chamado super El Niño — a partir deste mês.

O tema ganha urgência no Brasil porque a primavera e o verão de 2026-2027, sob influência do fenômeno, devem trazer temperaturas acima da média em boa parte do país. Para quem tem uma doença neurológica crônica, isso significa meses de risco ampliado — e a necessidade de adaptar rotina, medicação e ambiente.

Parkinson: quando o corpo perde o controle da pressão

Para pessoas com Parkinson, o calor extremo funciona como uma sobrecarga cardiovascular, explica Maurício Hoshino, neurologista do Hospital Santa Catarina – Paulista, em São Paulo. Em dias muito quentes, a pressão arterial tende a cair e os batimentos cardíacos aceleram. Um organismo saudável compensa isso com microajustes automáticos e imediatos na força com que o sangue circula — o controle fino que o sistema nervoso central faz da pressão. O Parkinson prejudica justamente esse controle.

O resultado é que o corpo não consegue se adaptar: podem ocorrer quedas bruscas de pressão, tonturas, desmaios e piora acentuada do desequilíbrio e da mobilidade — exatamente os sintomas que a doença já provoca, agora amplificados. Para um paciente que já tem risco de queda, um dia de 38 graus pode ser o suficiente para uma fratura.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a explicação de Hoshino muda a forma de ver o problema. "A gente pensa em calor como desconforto. Para quem tem Parkinson, calor é uma falha de sistema: o corpo perde a capacidade de regular a pressão e o paciente cai. Não é 'está calor, vou ficar cansado' — é 'está calor, vou desmaiar'. Famílias que cuidam de alguém com Parkinson precisam entender isso antes de novembro, não depois da primeira queda", avalia.

Esclerose múltipla: sintomas antigos que voltam

Na esclerose múltipla, o mecanismo é diferente. O paciente carrega cicatrizes de lesões inflamatórias de repetição no sistema nervoso, causadas pela própria doença. O organismo se recupera, mas o tecido lesionado permanece vulnerável. Diante do forte calor, essas cicatrizes sofrem uma espécie de sobrecarga temporária — e sintomas que já haviam sido superados e reabilitados voltam a se manifestar na mesma região do corpo.

"Por exemplo, uma perna que havia melhorado bastante começa a se arrastar de novo, ou um formigamento que volta. Fica a preocupação: será que a doença está voltando? Não. A temperatura facilita que você tenha sintomas dos quais já havia melhorado e recuperado, e você passa a senti-los novamente. Não sabemos a causa para isso, mas acontece e é muito comum", explica Hoshino. Saber disso evita pânico — e visitas desnecessárias ao pronto-socorro — quando o sintoma reaparece em um dia de calor e desaparece quando a temperatura cai.

O fenômeno descrito por Hoshino é conhecido da neurologia desde o século 19 e leva o nome do oftalmologista alemão que o descreveu: fenômeno de Uhthoff. A elevação da temperatura corporal, ainda que pequena, reduz a velocidade de condução dos impulsos nervosos nas fibras já lesionadas pela esclerose múltipla — o que faz o sintoma reaparecer. Ele desaparece quando a temperatura volta ao normal, e por isso o resfriamento rápido, com banho frio ou ambiente climatizado, é a resposta imediata recomendada.

Alzheimer e demências: desidratação e confusão

O calor extremo também afeta pacientes com Alzheimer e outras demências. As temperaturas altas causam desidratação, que agrava a confusão mental e acelera o declínio cognitivo temporário. O problema é agravado por uma característica da própria doença: muitos idosos com demência têm dificuldade para comunicar mal-estar ou pedir água — e ficam mais expostos aos efeitos térmicos sem que ninguém perceba.

Roger Santana de Araújo, neurologista da Clínica EVCiti, em São Paulo, e especialista em doenças autoimunes do sistema nervoso, aponta o impacto no sistema de saúde. "É bem relatado em alguns estudos que o calor aumenta muito as internações, principalmente de quem tem Alzheimer. Eles ficam mais confusos, desidratam com mais facilidade", diz. "Pacientes com demência já têm a reserva encefálica baixa. Qualquer mudança de rotina e qualquer coisa que aconteça pode piorar o comportamento, a memória, o andar, o como conversar. O calor também está dentro dessa situação. É uma agressão ambiental, que muda a rotina e secundariamente a cabeça fica pior."

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o alerta sobre demência é o mais urgente do ponto de vista de saúde pública. "O idoso com Alzheimer não vai reclamar de calor nem pedir água. Vai ficar mais confuso, e a família vai achar que a doença piorou. Enquanto isso, ele está desidratando. É o paciente que mais interna no verão e o que menos consegue se proteger sozinho. Casas de repouso, cuidadores e famílias precisam de protocolo de hidratação forçada e ambiente climatizado — e isso custa, e o SUS não paga", observa.

Epilepsia e enxaqueca: o papel do sono

O calor prejudica o sono — e a privação de sono é fator de risco conhecido para crises de epilepsia em pessoas propensas ou que já têm a condição. "Principalmente porque é uma privação de sono crônica. Muitas vezes, é a semana inteira que não se dorme bem por não ter uma temperatura mais adequada no quarto ou até pelo barulho do ventilador", comenta Hoshino. O mesmo mecanismo — sono inadequado somado a ambiente desconfortável — atua como gatilho para a enxaqueca: o cérebro do paciente enxaquecoso é hiper-responsivo a estímulos externos, e ambientes com excesso de luz, calor ou barulho facilitam as crises.

Quem é saudável também sente

Os efeitos não se restringem a quem tem doença neurológica. Segundo Araújo, a pessoa saudável fica mais lenta e desatenta no calor extremo e, portanto, mais propensa a erros — no trânsito, no trabalho, em casa. O cansaço do corpo e da mente é outro efeito. O calor é ainda um gatilho para a síncope vasovagal, principal causa de desmaios, provocada por uma queda súbita da pressão arterial e da frequência cardíaca desencadeada pela estimulação do nervo vago.

Sinais de alerta: o que observar

Tontura, fraqueza, dor de cabeça, náuseas, cãibras, palpitações, falta de ar e queda de pressão são sinais de que o organismo pode estar em desequilíbrio com o calor — e pedem hidratação, sombra e repouso. Já confusão mental aguda, sonolência excessiva, convulsões, desmaio, dor de cabeça intensa e persistente, alteração da fala, perda de força, dor no peito ou falta de ar importante exigem avaliação médica imediata: podem indicar AVC, crise epiléptica ou insolação grave.

Para quem cuida de um paciente neurológico, as medidas práticas são conhecidas e baratas: manter o ambiente ventilado ou climatizado nas horas mais quentes, oferecer água em intervalos regulares mesmo sem pedido, evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, roupas leves, e conversar com o neurologista sobre ajustes de medicação — alguns remédios para pressão e para Parkinson têm efeito potencializado pelo calor.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o aviso chega no tempo certo. "A NOAA diz que o super El Niño começa agora, em setembro. O verão brasileiro começa em dezembro. Há três meses para famílias, clínicas e postos de saúde se prepararem — e a orientação dos neurologistas é simples: água, sombra, ar-condicionado onde for possível, e atenção aos sinais. Não é sofisticado. É o tipo de prevenção que evita internação e que a maioria só faz depois do susto", analisa.

A reportagem da Folha integra o projeto Saúde Pública, apoiado pela associação civil Umane. Pacientes com doenças neurológicas crônicas devem conversar com seu médico sobre cuidados específicos para o período de calor.

Foto: Shixart1985 (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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