Saúde

Preço do whey dispara no mundo e especialistas indicam alternativas de proteína

As vendas saltaram 124% no varejo brasileiro e a matéria-prima ficou escassa por um motivo que começa no queijo — e comprar barato demais virou o maior risco para quem consome.

Adriano Jose Reis Martins - Preço do whey dispara no mundo e especialistas indicam alternativas de proteína

O preço do whey protein, a proteína do soro do leite, disparou diante do aumento do consumo em todo o mundo. O suplemento deixou de ser usado apenas em shakes em pó ou barrinhas e virou ingrediente de bebidas, incluindo cerveja, além de chegar a biscoitos, pães e outros alimentos. De acordo com levantamento da consultoria Scanntech, as vendas de whey protein subiram 124% em volume no varejo brasileiro entre janeiro e outubro de 2025. As informações são da Folha de S.Paulo.

Para especialistas, foi essa demanda que levou à escassez da matéria-prima. O consumo também foi impulsionado pelo uso das canetas emagrecedoras, já que usuários desses medicamentos são orientados a ingerir mais proteína. "Os suplementos proteicos, principalmente o whey, passaram a ser indicados para indivíduos que usam canetas emagrecedoras em todo o mundo, com o objetivo de minimizar a perda muscular", diz o nutrólogo Carlos Alberto Werutsky, diretor da Associação Brasileira de Nutrologia. A indústria, no entanto, enfrenta obstáculos para ampliar a oferta. Feito a partir do soro do leite, o suplemento é principalmente um subproduto da fabricação de queijo, que passa por processos de filtração, concentração e secagem — e o consumo de queijo não acompanhou a alta da demanda por whey, apontam os especialistas. "Outro gargalo dessa cadeia é a capacidade das fábricas de filtragem e secagem, que não estão conseguindo atender a toda essa demanda", afirma Diego Freitas, presidente-executivo da Growth, uma das maiores marcas de suplementos do país.

Por que a produção não acompanha a demanda

A explicação para a escassez está numa característica pouco conhecida da cadeia produtiva. O whey não é fabricado como produto principal: ele nasce do soro que sobra da produção de queijo. Cada quilo de queijo gera uma quantidade determinada de soro, e é dessa sobra que se extrai a proteína, após filtração, concentração e secagem. A consequência dessa dependência é direta: para produzir mais whey, seria preciso produzir mais queijo, e não existe demanda equivalente por queijo para justificar essa expansão. Nenhuma indústria vai ampliar a fabricação de um produto para obter o subproduto, porque ficaria com o estoque principal encalhado. A esse limite estrutural soma-se um gargalo industrial: as fábricas de filtragem e secagem, equipamentos caros e de instalação demorada, operam próximas da capacidade máxima e não conseguem processar todo o soro disponível. É a combinação desses dois fatores que transforma um aumento de demanda em alta de preço, e não em aumento de oferta.

As canetas emagrecedoras entram na conta

O crescimento do uso de medicamentos para perda de peso criou uma demanda nova e concentrada. Como esses tratamentos reduzem o apetite de forma acentuada, há risco de perda de massa muscular junto com a gordura, e a recomendação clínica passou a incluir aumento da ingestão proteica. Milhões de novos usuários no mundo inteiro entraram, assim, no mercado de suplementos praticamente ao mesmo tempo.

O whey saiu do pote e entrou no supermercado

A proteína do soro do leite deixou de ser um produto de nicho de academia e virou ingrediente industrial. Está em bebidas, incluindo cerveja, em biscoitos, em pães e em uma variedade crescente de alimentos que anunciam teor proteico no rótulo. Essa migração para o varejo alimentar amplia enormemente o volume consumido e disputa a mesma matéria-prima limitada.

As três alternativas indicadas pelos especialistas

Para quem já sente o peso no orçamento, o nutrólogo da Abran sugere a caseína, extraída diretamente do leite, a albumina, obtida da clara de ovo desidratada, e a proteína isolada de soja. Segundo ele, as três têm quantidade de proteína praticamente semelhante à do whey, o que as torna substitutas viáveis do ponto de vista nutricional.

O risco que a alta de preço traz junto

Os especialistas alertam que a valorização do produto pode favorecer o comércio de proteína adulterada. A orientação é comprar apenas de lojas e marcas com boa reputação e desconfiar de preços muito abaixo do praticado pelo mercado. Em cadeias com escassez de matéria-prima, a diluição do produto com substâncias mais baratas é a fraude mais frequente, e ela não é perceptível pelo consumidor no uso cotidiano.

Na avaliação de Adriano Jose Reis Martins, editor do blog The Gin Flavors, o caso do whey é um exemplo didático de como uma mudança de comportamento reorganiza uma cadeia inteira. "Uma classe de medicamento para emagrecimento alterou a recomendação nutricional de milhões de pessoas, e essa recomendação chegou a uma cadeia que depende do queijo para existir. Não há como acelerar a oferta, porque o whey é o que sobra de outro processo. O consumidor sente isso na prateleira e é aí que mora o perigo: quando o preço sobe muito e rápido, aparece produto adulterado. A regra prática continua simples — preço muito abaixo do mercado é sinal de alerta, não de oportunidade", avalia.

A proteína que vem do prato

A alternativa mais direta é a alimentação. Frango, carne bovina, peixes, ovos e laticínios estão entre as principais fontes proteicas. O diretor da Abran lembra que os alimentos fornecem uma combinação de nutrientes que o suplemento isolado não entrega, incluindo carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais. Os peixes, por exemplo, são ricos em ômega 3.

Suplemento não é substituto de refeição

A observação sobre a combinação de nutrientes aponta para um mal-entendido comum. O suplemento foi concebido para complementar uma dieta em que a meta proteica não é atingida, não para substituir refeições. Quem consegue alcançar a quantidade recomendada com comida não obtém vantagem adicional relevante ao acrescentar o pó, e passa a pagar mais caro por um nutriente que já estava obtendo.

Os 124% que explicam a pressão

O salto de 124% em volume no varejo brasileiro entre janeiro e outubro de 2025, medido pela Scanntech, dimensiona a velocidade da mudança. Trata-se de um crescimento que mais que dobrou o mercado em menos de um ano, ritmo que nenhuma cadeia industrial dependente de subproduto conseguiria acompanhar com investimento em fábrica. Nem mesmo mercados maduros, com parque industrial consolidado, reagem nessa velocidade.

Caseína e albumina — o que muda na prática

A caseína é a fração proteica que permanece no leite após a separação do soro e tem absorção mais lenta, característica que a torna popular para consumo noturno. A albumina, da clara de ovo desidratada, costuma custar significativamente menos por grama de proteína, e sua desvantagem histórica é o sabor, hoje contornado por versões aromatizadas.

Como identificar produto confiável

Registro do fabricante, rótulo com informação nutricional detalhada, lote e validade legíveis, procedência de loja estabelecida e coerência de preço são os indicadores básicos. Suplementos vendidos em embalagens sem identificação clara de origem, ou por canais informais com desconto expressivo, concentram o risco de adulteração apontado pelos especialistas.

Um fenômeno global, não brasileiro

A alta atinge todo o mercado internacional, porque a matéria-prima é negociada globalmente e a demanda cresceu de forma simultânea nos principais mercados consumidores. Isso significa que a pressão de preço não se resolve com importação, já que os países produtores enfrentam a mesma limitação de soro disponível e de capacidade de processamento.

O que esperar dos próximos meses

Enquanto a capacidade de filtragem e secagem não for ampliada — investimento que leva tempo e depende de previsão de demanda sustentada —, a tendência é de manutenção do patamar de preço. Para o consumidor, a decisão prática se resume a três caminhos: migrar para alternativas de custo menor, reorganizar a dieta para obter proteína dos alimentos ou aceitar o novo preço do produto.

O aumento do preço do whey protein e as alternativas indicadas por especialistas foram noticiados pela Folha de S.Paulo em 10 de setembro de 2026. Segundo levantamento da consultoria Scanntech, as vendas do suplemento subiram 124% em volume no varejo brasileiro entre janeiro e outubro de 2025.

Foto ilustrativa: chuck b. (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

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