Saúde

Psilocibina, o psicodélico dos cogumelos, previne em animais

Pesquisadores do MD Anderson descobriram que a substância protege o transporte de mitocôndrias nos nervos, desmontado pela quimioterapia; neuropatia atinge três em cada quatro pacientes.

Psilocibina, o psicodélico dos cogumelos, previne em animais

Pesquisadores do Centro de Câncer MD Anderson, da Universidade do Texas, em Houston, conseguiram prevenir em animais as dores intratáveis causadas pela quimioterapia com psilocibina — o composto psicodélico dos cogumelos, já estudado como antidepressivo — e, ao mesmo tempo, desvendaram o mecanismo bioquímico que explica o efeito. O artigo, publicado nesta quinta-feira (3) na revista Science com o título "Psilocibina Previne Neuropatia Periférica Induzida pela Quimioterapia por Meio da Preservação do Tráfego Mitocondrial", tem 30 autores, entre eles o brasileiro Frederico Omar Gleber Netto. Um ensaio clínico em humanos, batizado de NeuroGuard, começa em um mês. As informações são da coluna Virada Psicodélica, de Marcelo Leite, na Folha de S.Paulo.

A descoberta amplia para além da saúde mental a aplicação de uma substância que, até aqui, era estudada sobretudo para depressão e ansiedade. A chave, segundo os autores, está no transporte celular de energia — e no mesmo receptor cerebral responsável pela "viagem" psicodélica.

O problema: neuropatia em três de cada quatro pacientes

A neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (NPIQ) é um efeito adverso comum dos compostos tóxicos usados para matar células tumorais. Manifesta-se como dor, formigamento e dormência nas palmas das mãos e na planta dos pés em três quartos dos pacientes submetidos ao tratamento — e, em um terço dos casos, evolui para dores permanentes, sem solução eficaz. Para muitos sobreviventes de câncer, a neuropatia é o que resta depois da cura: uma dor que limita andar, segurar objetos, dormir.

Não há hoje medicamento aprovado que previna a NPIQ. Os tratamentos disponíveis apenas aliviam parcialmente os sintomas depois que o dano se instalou. É por isso que um composto capaz de impedir o dano antes que ele ocorra representa uma mudança de categoria.

Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a dimensão do problema justifica a atenção. "Três em cada quatro pacientes de quimioterapia sentem essa dor; um em cada três fica com ela para sempre. É um número enorme de gente que venceu o câncer e perdeu as mãos e os pés para o tratamento. Se a psilocibina fizer em humanos o que fez em camundongos, é a primeira prevenção real para uma sequela que a oncologia aceitou como inevitável por décadas", avalia.

A pista: uma observação inesperada

Os autores sêniores do trabalho são Patrick M. Dougherty e Moran Amit. Em entrevista coletiva na terça-feira (1º), Amit contou que a pista surgiu quando uma pós-doutoranda de seu grupo observou, poucos anos atrás, que camundongos com tumores não desenvolviam neuropatia ao receber psilocibina antes da quimioterapia. Ele duvidou — e determinou que o procedimento fosse repetido com diversos agentes quimioterápicos e diferentes tipos de câncer. A proteção sempre se apresentava.

Analisando as extremidades dos nervos dos animais e amostras humanas extraídas em cirurgias de retirada de tumores, a equipe estabeleceu que o efeito protetor era mediado pelas mitocôndrias — as organelas que produzem energia nas células, inclusive nos neurônios.

O mecanismo: a ferrovia celular que a quimio desmonta

Sem quantidade adequada de mitocôndrias, as células nervosas não conseguem sustentar o crescimento de seus prolongamentos — os axônios que formam os nervos e que, no corpo humano, podem chegar a um metro de comprimento. Transportar mitocôndrias por essa distância não é trivial: é feito ao longo de microtúbulos, "ferrovias celulares" que levam vesículas com substâncias essenciais de um ponto a outro. São exatamente essas estruturas que os quimioterápicos desmontam, impedindo que as organelas cheguem à ponta do nervo — e é essa falta de energia na extremidade que produz a neuropatia.

A psilocibina atua no receptor neuronal 5HT2a — o mesmo em que se encaixa a serotonina e que se considera responsável pelo efeito subjetivo psicodélico. O time do MD Anderson constatou que o 5HT2a também desencadeia uma cascata de reações que induz a construção de microtúbulos. Em outras palavras: o receptor que provoca a "viagem" é o mesmo que manda o neurônio reconstruir a ferrovia que a quimioterapia destrói.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o mecanismo é o que dá credibilidade ao achado. "Muita pesquisa com psicodélico para de 'funcionou em animal, não sabemos por quê'. Aqui, a Science publicou o caminho inteiro: receptor, cascata, microtúbulo, mitocôndria, nervo. Isso permite testar em humanos com hipótese clara e, se der certo, desenhar moléculas que ativem o receptor sem o efeito psicodélico. A viagem, no caso, é efeito colateral; o remédio é a ferrovia", observa.

O comentário da Science

"O estudo amplia o horizonte terapêutico dos psicodélicos para além do tratamento de transtornos de humor e da intensa dor física e emocional e do sofrimento associados ao câncer, sugerindo um papel na proteção do sistema nervoso contra os danos colaterais das terapias anticancerígenas", avalia Maria Maiarú, da Universidade de Reading, no Reino Unido, em comentário publicado na mesma edição da revista. Maiarú, que não participou do estudo, acrescenta: "O desafio agora é traduzir esses lampejos mecanísticos em ensaios clínicos cuidadosamente planejados".

NeuroGuard: o teste em humanos

É exatamente o que o grupo do MD Anderson fará em um mês, com o lançamento do ensaio clínico NeuroGuard. "Trata-se de um estudo de fase 2", disse Amit. "O estudo avalia pacientes com câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço que estão recebendo um esquema terapêutico altamente neurotóxico, com o objetivo de prevenir essa neurotoxicidade e proporcionar a tais pacientes não apenas a vida de volta, mas uma vida que valha a pena ser vivida."

Amit desaconselha, contudo, que pessoas em quimioterapia se automediquem com psilocibina ou busquem a substância onde sua aplicação é legal, como o estado americano do Oregon: "Fazer isso de forma não controlada, fora do contexto de ensaios clínicos, seria irresponsável e poderia até ser perigoso". O centro já tem experiência com psilocibina e câncer — o teste Trips investiga o psicodélico para depressão e ansiedade em pacientes oncológicos, na esteira do entusiasmo com terapias psicodélicas que ganhou impulso com uma ordem executiva do presidente Donald Trump.

O brasileiro no estudo

Frederico Omar Gleber Netto participou da análise, interpretação e apresentação dos dados — ficou responsável pela estatística e pela geração das figuras do artigo, seu primeiro trabalho envolvendo psilocibina. Dentista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, iniciou a carreira científica em patologia oral, estudando carcinomas de glândulas salivares; fez doutorado na Fundação Antônio Prudente/A.C. Camargo, com foco em genômica do câncer; e em 2016 mudou-se para Houston para pós-doutorado no Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do MD Anderson, onde entrou no grupo de Moran Amit. Há cerca de cinco anos trabalha com neurociência do câncer — como neurônios, células tumorais e células do sistema imunológico se comunicam e como essas interações influenciam o comportamento da doença.

Psicodélicos na medicina: onde estamos

A psilocibina é estudada há mais de uma década em ensaios clínicos para depressão resistente, ansiedade em pacientes terminais e dependência, com resultados que levaram agências reguladoras a conceder designações de "terapia inovadora". A Austrália e, nesta semana, a Nova Zelândia autorizaram o uso clínico de psicodélicos em condições específicas. No Brasil, a substância permanece proscrita, e seu uso é restrito a pesquisa autorizada. O estudo da Science acrescenta uma frente inteiramente nova — a neuroproteção — a um campo que já vinha se expandindo.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o caso pede cabeça fria nos dois sentidos. "Nem o entusiasmo de quem já vê cogumelo na farmácia, nem o preconceito de quem descarta porque é psicodélico. É um estudo de mecanismo em animal, publicado na melhor revista do mundo, com ensaio de fase 2 começando. Em dois anos vamos saber se funciona em gente. Se funcionar, milhões de pacientes de câncer vão terminar a quimioterapia com as mãos e os pés funcionando. Vale esperar — e vale acompanhar", analisa.

O ensaio clínico NeuroGuard será conduzido no MD Anderson, em Houston, com pacientes em tratamento para câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço. Não há previsão de estudos equivalentes no Brasil.

Foto: Unknown photographer (Public domain) via Wikimedia Commons.

AM
Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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