O uso de medicações para obesidade compradas pela internet ou importadas com procedência duvidosa e aplicadas por conta própria virou um problema de saúde pública. O alerta, feito em artigo na Folha pelo médico diretor do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, não é sobre uma faixa etária: vale para o adulto que quer perder quatro quilos antes de uma festa, para o adolescente com questões inerentes à idade e, no extremo mais grave, para a criança obesa que recebe uma injeção sem nenhuma indicação. O que une esses casos não é idade nem necessidade — é a ausência do que é necessário em qualquer tratamento seguro: diagnóstico, prescrição, procedência e acompanhamento. As informações são da Folha.
Vale começar pelo que esses remédios são: os análogos de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, imitam um dos hormônios que o próprio corpo produz no intestino para estimular a produção de insulina; a tirzepatida, mais recente, simula o GLP-1 e também o GIP, peptídeo de função semelhante. Todas essas substâncias reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam a controlar a ingestão alimentar — tratamentos legítimos para uma doença crônica, a obesidade, que tem base biológica e não é questão de força de vontade. Tratar a obesidade como fraqueza de caráter ou falta de vaidade é parte do que nos trouxe até aqui: o estigma empurra as pessoas para soluções rápidas e escondidas, no contrabando ou pela internet, em vez do cuidado de um profissional; reconhecer a obesidade como doença é o que separa o uso responsável de remédios eficazes do improviso perigoso. Em adultos, o programa de estudos STEP mostrou perda média de cerca de 15% do peso corporal com a semaglutida, e os estudos SURMOUNT chegaram a cerca de 20% com a tirzepatida — avanço real, e é justamente por serem eficazes que esses medicamentos merecem respeito, não banalização; ser legítimo não significa uso livre e irrestrito. Todo medicamento eficiente tem indicação, dose, contraindicação e efeitos adversos, e é exatamente isso que se perde quando a substância vira produto de balcão. O primeiro risco dos medicamentos adquiridos sem prescrição é a falta de procedência: uma medicação trazida na mala, sem registro na Anvisa e sem controle de transporte e armazenamento, não oferece segurança sobre o que há dentro dela.
A caneta que virou produto: de tratamento de diabetes a mercadoria de rede social e contrabando
A semaglutida chegou ao Brasil em 2018 como Ozempic, para diabetes tipo 2, e em 2023 como Wegovy, para obesidade; a tirzepatida, Mounjaro, foi registrada em 2023 e lançada em 2025 — e em cinco anos as canetas semanais transformaram-se no medicamento mais comentado do país, com vendas que passaram de R$ 3 bilhões em 2025, uso por celebridades divulgado em redes sociais, farmácias de manipulação vendendo versões próprias após a queda da patente da semaglutida em 2026, telemedicina prescrevendo por formulário e um mercado paralelo que o Idesf, o instituto de combate ao contrabando, apontou nesta semana como uma das categorias que mais crescem nas apreensões da Receita: canetas paraguaias, asiáticas e falsificadas, sem registro, vendidas por Instagram e WhatsApp a preço menor que os R$ 1.000 a R$ 2.000 mensais da farmácia. O artigo do Oswaldo Cruz descreve o resultado clínico: pacientes que chegam ao pronto-socorro com pancreatite, hipoglicemia, desidratação e obstrução intestinal por doses erradas; adolescentes com transtornos alimentares que usam a caneta para emagrecer ainda mais; crianças injetadas por pais que confundem obesidade infantil com estética; e a perda de massa muscular em quem emagrece rápido sem acompanhamento nutricional e sem exercício — o "rosto de Ozempic" e a fraqueza que a fisiologia explica. O médico coloca o dedo na causa: o estigma que trata a obesidade como falha moral faz o paciente esconder o tratamento e comprar no contrabando, em vez de procurar o médico que diagnosticaria, prescreveria a dose certa, verificaria contraindicações — tireoide, pâncreas, gestação — e acompanharia. A Anvisa, que reafirmou a proibição de venda sem receita e passou a exigir retenção de prescrição, e o Ministério da Saúde, que estuda incorporar a semaglutida ao SUS para obesidade grave, correm atrás de um mercado que já se formou fora do sistema.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o artigo diz o que a propaganda de emagrecimento esconde. "A caneta funciona — 15%, 20% do peso, é o maior avanço da história do tratamento da obesidade — e é por funcionar que virou droga de balcão, comprada no Instagram, aplicada em festa, dada a adolescente e a criança. O médico do Oswaldo Cruz acerta o alvo: o problema não é o remédio, é a ausência de tudo que cerca um remédio de verdade — diagnóstico, receita, procedência, acompanhamento. E a raiz é o estigma: quem tem vergonha de ser gordo compra escondido. O portal publica ao lado da matéria sobre o contrabando de canetas pelo Paraguai, porque é a mesma história: um tratamento sério transformado em mercadoria por um país que trata doença como vaidade. Em Araras, a caneta chega por encomenda; a pancreatite, pelo SUS", avalia.
GLP-1 e GIP: como os remédios agem
Análogos dos hormônios intestinais que sinalizam saciedade e estimulam insulina, semaglutida e liraglutida agem no cérebro e no estômago para reduzir fome e retardar o esvaziamento gástrico; a tirzepatida soma o GIP, com efeito maior; são injeções semanais ou diárias, com titulação lenta de dose para reduzir náusea e vômito — etapa que o uso por conta própria costuma pular.
STEP e SURMOUNT: a evidência
Os programas de estudos clínicos que registraram perda média de 15% do peso com semaglutida e cerca de 20% com tirzepatida em adultos com obesidade, além de benefícios cardiovasculares e metabólicos; são a base da aprovação regulatória — e a razão de os médicos tratarem os remédios como conquista, não como modismo.
Procedência: o primeiro risco
Canetas sem registro na Anvisa, trazidas na mala ou compradas online, não têm garantia de conteúdo, dose, esterilidade ou conservação — a semaglutida exige refrigeração —; falsificações com insulina, com concentração errada ou com nada dentro já foram apreendidas; a compra fora da farmácia é aposta cega.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o estigma é a chave que o artigo entrega. "Enquanto a sociedade tratar obesidade como preguiça, o obeso vai se tratar escondido, e escondido não tem médico — tem WhatsApp. O artigo do Oswaldo Cruz inverte a lógica: obesidade é doença crônica de base biológica, o remédio é eficaz e por isso exige prescrição, e o estigma é o que empurra para o contrabando. É a posição da ciência e ainda não é a da cultura. O portal registra e observa que o SUS discute incorporar a semaglutida — o que, se acontecer, tira do contrabando o paciente que mais precisa e menos pode pagar", observa.
Adolescentes e crianças: os casos mais graves
Uso em adolescentes com transtorno alimentar, em busca de magreza, e em crianças obesas injetadas sem avaliação são os extremos que o artigo cita; a semaglutida tem aprovação para adolescentes com obesidade sob acompanhamento, mas não para uso estético nem para crianças — e o dano ao crescimento e à relação com a comida pode ser permanente.
Efeitos adversos: o que o acompanhamento evita
Náusea, vômito, diarreia, pancreatite, cálculos biliares, hipoglicemia em diabéticos, perda de massa muscular, desnutrição em doses excessivas; contraindicações incluem histórico de tumor de tireoide e gestação; o acompanhamento ajusta dose, monitora exames e combina dieta e exercício — o que o uso solitário não faz.
O mercado: farmácias, manipulação e contrabando
Com a queda da patente da semaglutida em 2026, versões manipuladas e genéricas chegam ao mercado brasileiro a preço menor; a telemedicina facilita prescrição; e o contrabando de canetas sem registro cresce, segundo o Mapa do Contrabando do Idesf. A oferta explodiu; a regulação e a educação, não.
Anvisa e SUS: as respostas em curso
A Anvisa exige receita com retenção e reforça a fiscalização de vendas online; o Ministério da Saúde avalia incorporar análogos de GLP-1 ao SUS para obesidade grave e diabetes, o que ampliaria o acesso com acompanhamento; sociedades médicas defendem campanhas contra o estigma e contra a automedicação.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o artigo deveria ser leitura obrigatória antes de qualquer compra. "Quatro quilos antes da festa com uma caneta do Instagram — é assim que o remédio mais importante da década vira problema de saúde pública. O médico do Oswaldo Cruz não é contra o remédio; é contra usá-lo sem médico. É simples e ninguém ouve, porque o estigma manda esconder. O portal registra e sugere: se você ou alguém que conhece usa caneta sem receita, procure a UBS. A obesidade é doença; a caneta é tratamento; o Instagram não é farmácia", analisa.
O artigo do diretor do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz sobre o uso de medicamentos contra a obesidade por conta própria, com produtos comprados pela internet ou importados sem procedência, foi publicado pela Folha em 2 de setembro de 2026; os estudos STEP e SURMOUNT registraram perda média de 15% e 20% do peso com semaglutida e tirzepatida, respectivamente.
Foto: Authors of the study: Melissa J. Barber, PhD; Dzintars Gotham, MBBS; Helen Bygrave, MBBS; Christa Cepuch, MPH (CC BY 4.0) via Wikimedia Commons.