Automóveis

Teleférico do Alemão, parado há dez anos, entra na reta final da recuperação

Inaugurado em julho de 2011, operou cinco anos e três meses e parou em outubro de 2016; estações foram saqueadas, e a garantia dos cabos da Poma subiu para dez anos.

Teleférico do Alemão, parado há dez anos, entra na reta final da recuperação

Desativado desde outubro de 2016, quando parou por falta de manutenção em meio à crise financeira do estado do Rio de Janeiro, o Teleférico do Alemão começa a ter os cabos de sustentação das gôndolas trocados na próxima semana. Ainda serão feitos testes com carga e sem carga até a entrega do serviço à Secretaria estadual de Transportes, em junho do próximo ano, e não há previsão de quando os moradores poderão voltar a usar o transporte. Mesmo sem novos imprevistos, as gôndolas terão ficado mais tempo paradas do que funcionando: inaugurado em julho de 2011 como grande obra para a cidade, o teleférico operou apenas cinco anos e três meses. As informações são do InfoMoney.

O custo final da recuperação ficará em R$ 251 milhões, segundo o governo — valor que inclui a reforma das seis estações (Bonsucesso, Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Paineiras), a compra de materiais importados e a instalação da nova tecnologia. Em 2022, a previsão do então governador Cláudio Castro era gastar R$ 170 milhões e retomar o serviço em dois anos; o cronograma não foi cumprido e o orçamento foi revisto. "Os cabos novos são mais resistentes que os originais, tendo uma vida útil de dez anos, o dobro do material inicial. Além disso, as gôndolas passaram por uma modernização. Um novo sistema melhorará a ventilação interna e também impedirá a entrada de água da chuva", disse o secretário estadual de Obras Públicas, Pablo Villarim. A equipe do governador em exercício Ricardo Couto, no cargo desde março, precisou renegociar os contratos da recuperação; uma das preocupações era o prazo de garantia dos cabos dado pela multinacional francesa Poma, fornecedora, que concordou em ampliá-lo de cinco para dez anos sem custo adicional, já que o material não chegou ao Brasil de uma vez. Além de cabos e gôndolas, foram recuperadas as instalações que abrigaram a sede da Unidade de Polícia Pacificadora na estação Alemão e outros órgãos do estado, bem como dispositivos elétricos e eletrônicos: na crise de 2016, contratos com as empresas de segurança foram rescindidos, e os espaços acabaram invadidos e saqueados — fios de cobre e esquadrias de alumínio foram furtados em quase todas as estações; só a de Bonsucesso, mais afastada da comunidade e onde foram armazenadas as 152 gôndolas, ficou mais preservada.

2011: a obra-símbolo do PAC e da pacificação

O teleférico foi inaugurado em julho de 2011 pela presidente Dilma Rousseff e pelo governador Sérgio Cabral como peça central do PAC das Favelas no Complexo do Alemão — 3,5 quilômetros de cabos, seis estações, 152 gôndolas com capacidade para dez passageiros, integração com o trem em Bonsucesso e viagem gratuita para moradores —, inspirado no Metrocable de Medellín; chegou meses após a ocupação militar do complexo, em novembro de 2010, e da instalação das UPPs, e virou cartão-postal da "pacificação", visitado por chefes de Estado e celebridades. Transportava cerca de 10 mil pessoas por dia, mas o custo de operação — pago pelo estado à concessionária — e a queda de receita com a crise de 2015-16 levaram à suspensão em outubro de 2016, enquanto a UPP se desfazia e o tráfico retomava o território. Dez anos depois, a recuperação é feita sob o governo interino de Ricardo Couto, com custo 48% maior que o previsto em 2022 e sem data para o morador subir de novo.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o teleférico é a metáfora perfeita do Rio de Janeiro. "Custou centenas de milhões, funcionou cinco anos, parou por falta de dinheiro para manutenção, foi saqueado — cobre e alumínio levados de todas as estações — e vai custar mais 251 milhões para voltar, sem data. Castro prometeu 170 milhões e dois anos em 2022; saiu para a campanha em março e deixou a conta para um desembargador. O que sobrou de bom: a Poma dobrou a garantia dos cabos de graça, e as gôndolas estavam guardadas em Bonsucesso. O que falta: dizer ao morador do Alemão quando ele vai subir. Enquanto isso, o governo federal e o estado assinam acordo para 'retomar territórios' — o teleférico é a prova de que retomar é fácil e manter é o que ninguém faz", avalia.

R$ 170 milhões para R$ 251 milhões: o estouro

A previsão de 2022 não incluía a extensão dos danos descobertos nas estações, a inflação de materiais importados — cabos, motores e componentes da Poma — e a renegociação de contratos; o valor atual, 48% maior, é considerado definitivo pelo governo. A obra é financiada com recursos do estado e do acordo de recuperação fiscal.

Poma: a fornecedora e a garantia

A francesa Poma, uma das maiores fabricantes de teleféricos do mundo — responsável por sistemas em Medellín, La Paz e estações de esqui —, forneceu o sistema original em 2011 e os cabos novos; a ampliação da garantia de cinco para dez anos, sem custo, foi obtida porque o material chegou em lotes ao longo de meses, e é o ponto que a gestão Couto apresenta como conquista da renegociação.

Testes até junho de 2027: o que falta

Após a troca dos cabos, o sistema passa por testes sem carga, com carga simulada e com operação assistida, além de certificação de segurança, antes de ser entregue à Secretaria de Transportes em junho de 2027; a definição do operador, do modelo de custeio e da data de reabertura ao público depende do governo eleito em outubro, que assume em janeiro.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a pergunta certa não é quando reabre, mas quem paga para funcionar. "O teleférico parou em 2016 porque o estado não tinha dinheiro para a operação — não porque os cabos quebraram. Consertar custa 251 milhões; operar custa dezenas de milhões por ano, com passagem gratuita para o morador. Se o próximo governador não reservar orçamento permanente, o sistema reabre em 2027 e para de novo em 2030. A cidade de Medellín, que inspirou o projeto, opera seus teleféricos há 20 anos porque integrou ao metrô e ao orçamento. O Rio precisa decidir se o Alemão é transporte público ou cartão-postal", observa.

Complexo do Alemão: o território

Conjunto de 13 favelas na zona norte, com cerca de 70 mil moradores, o Alemão foi ocupado pelas forças de segurança em 2010, recebeu UPPs e obras do PAC, e voltou ao controle do Comando Vermelho com o esvaziamento das unidades a partir de 2016; foi um dos alvos da operação policial de outubro de 2025, a mais letal da história do Rio. O teleférico ligava as comunidades ao trem em Bonsucesso e cortava em minutos deslocamentos de uma hora.

Saque das estações: o que foi levado

Com a rescisão dos contratos de segurança em 2016, as estações — inclusive a sede da UPP na estação Alemão — foram invadidas e depredadas: fiação de cobre, esquadrias de alumínio, equipamentos elétricos e eletrônicos desapareceram; a recuperação incluiu a reconstrução dessas instalações, e a estação Bonsucesso, protegida pela distância, preservou as gôndolas.

Medellín e La Paz: os modelos que funcionam

O Metrocable de Medellín, desde 2004, e o Mi Teleférico de La Paz, desde 2014, operam redes de teleféricos integradas ao transporte urbano, com tarifa, orçamento público permanente e manutenção contínua; são as referências que o projeto carioca citou em 2011 e que o Rio não conseguiu replicar na gestão.

Ricardo Couto: o governador interino e a obra

Presidente do Tribunal de Justiça, Couto assumiu o governo em março pela linha sucessória e herdou obras paradas e contratos em revisão; a renegociação com a Poma e a definição do custo final são apresentadas por sua equipe como marco. Sem candidatura, ele entrega o teleférico em testes ao sucessor.

O que o morador pode esperar

Cabos novos a partir da próxima semana, meses de testes, entrega em junho de 2027 e, depois, a decisão do próximo governo sobre operação e data; a promessa original — subir de graça do Alemão a Bonsucesso em 16 minutos — segue sem prazo, dez anos depois de parar.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia deve ser lida como advertência para qualquer obra pública. "Teleférico é tecnologia simples e provada — Medellín opera há 20 anos. O que o Rio não teve foi manutenção, segurança das estações e orçamento de operação. Resultado: cinco anos funcionando, dez parados, 251 milhões para consertar o que o descaso destruiu. A troca de cabos na semana que vem é boa notícia; a ausência de data de reabertura é a notícia de verdade. Que o próximo governador assuma o teleférico como linha de transporte, com orçamento, e não como inauguração", analisa.

O início da troca dos cabos do Teleférico do Alemão, desativado desde outubro de 2016, foi anunciado pelo governo do estado do Rio de Janeiro e noticiado pelo InfoMoney em 5 de setembro de 2026; a entrega do sistema à Secretaria de Transportes está prevista para junho de 2027, sem data de reabertura ao público.

Foto: Mariordo (Mario Roberto Durán Ortiz) (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

Develop by Cliki