Automóveis

Um dia após estrear robotáxi sem volante em Austin

NHTSA vai apurar como a montadora atestou que até 1.000 Cybercabs sem volante, pedais e retrovisores cumprem as regras federais; Texas registra 420 veículos autônomos da Tesla, 45 deles Cybercabs.

Um dia após estrear robotáxi sem volante em Austin

A Administração Nacional de Segurança no Trânsito dos Estados Unidos (NHTSA) abriu nesta sexta-feira (4) uma investigação para verificar se a Tesla certificou corretamente o Cybercab, seu robotáxi autônomo de dois lugares que não tem volante, pedais de freio e acelerador nem espelhos retrovisores. A apuração começa apenas um dia depois de a montadora ter colocado um pequeno número de Cybercabs em operação comercial em Austin, no Texas, com a promessa de expandir gradualmente o serviço para mais veículos e cidades. As informações são do G1, a partir da agência Reuters.

A perícia vai analisar o processo e os dados técnicos usados pela Tesla para demonstrar que até 1.000 Cybercabs atendem aos padrões federais de segurança para veículos — e, em particular, até que ponto a empresa considerou que determinadas exigências simplesmente não se aplicavam ao modelo. A Tesla não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.

A regra: autocertificação, com fiscalização posterior

Nos Estados Unidos, as montadoras não pedem aprovação prévia para vender um veículo. Elas declaram, por conta própria, que o modelo cumpre os padrões federais de segurança — e a NHTSA fiscaliza depois. Quando há indícios de que um veículo certificado não atende às exigências, a agência abre investigação, como fez agora. "A NHTSA apoia totalmente o desenvolvimento e a implantação seguros de veículos automatizados. Mas, como órgão regulador federal, precisamos garantir que todas as nossas leis sejam cumpridas", disse Jonathan Morrison, administrador da agência.

O ponto central é que os padrões federais em vigor pressupõem um motorista humano: exigem volante, pedais, retrovisores e outros controles. Pelas regras atuais, veículos totalmente autônomos não precisam de aprovação da NHTSA se tiverem esses controles; sem eles, a montadora precisa obter uma isenção específica.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a Tesla escolheu o caminho de maior atrito. "Existe um procedimento para colocar na rua um carro sem volante: pedir isenção à NHTSA. A Zoox, da Amazon, pediu e conseguiu em julho. A Tesla não pediu, autocertificou e lançou. A agência abriu investigação no dia seguinte. Não é perseguição, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado — e a Tesla sabia disso quando decidiu não pedir", avalia.

Zoox conseguiu; Tesla não pediu

A NHTSA pode autorizar até 2.500 veículos por fabricante a circular anualmente nas ruas dos Estados Unidos sem os controles humanos exigidos, por meio de isenção. Em julho, a agência aprovou um pedido da Zoox, empresa de veículos autônomos da Amazon, para colocar de forma limitada em operação comercial seus robotáxis sem volante — a primeira autorização desse tipo para o setor de transporte autônomo.

Segundo a NHTSA, a Tesla não havia apresentado pedido de autorização semelhante para o Cybercab. Em vez disso, a empresa declarou que o veículo cumpria os padrões federais — o que a agência agora questiona, dado que o modelo não tem os controles que esses padrões exigem. A investigação vai examinar exatamente a base dessa declaração.

As regras estão mudando — mas ainda não mudaram

A própria NHTSA reconhece que as normas atuais são incompatíveis com veículos projetados para nunca terem motorista. Em junho, a agência propôs acabar com a exigência de pedais de freio manuais em veículos autônomos e sugeriu outras alterações nos padrões federais para permitir que esses veículos dispensem equipamentos destinados a motoristas humanos. As mudanças facilitariam a colocação de robotáxis nas ruas.

Até que sejam concluídas, porém, as regras atuais continuam valendo, afirmou a agência. É nessa lacuna — entre a regra que existe e a regra que virá — que a Tesla decidiu operar, aparentemente apostando que a norma futura legitimaria a decisão presente.

Austin: 420 autônomos, 45 Cybercabs

Até a manhã desta sexta-feira, havia 420 veículos autônomos da Tesla registrados no Texas, segundo dados do estado. Desse total, 45 eram Cybercabs — o restante corresponde a modelos convencionais da marca equipados com o sistema de condução autônoma e operados sem motorista. O Texas é o estado com regulação mais permissiva para veículos autônomos nos Estados Unidos, o que explica a escolha de Austin para a estreia.

A operação comercial começou na quinta-feira (3) com um número pequeno de veículos. A empresa afirmou que pretende ampliar gradualmente o serviço para mais Cybercabs e outras localidades — expansão que agora depende, ao menos em parte, do desfecho da investigação federal.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o número de 45 Cybercabs importa mais do que a manchete. "Quarenta e cinco carros sem volante rodando em Austin é um piloto, não um serviço. A Tesla precisa de milhares para fazer sentido econômico, e a NHTSA pode autorizar até 2.500 por ano com isenção. O caminho existe. A investigação vai decidir se a Tesla vai ter que percorrê-lo como todo mundo ou se vai conseguir impor o próprio ritmo. Aposto na primeira opção", observa.

O que a investigação pode resultar

Investigações da NHTSA sobre certificação podem terminar de várias formas: arquivamento, caso a agência aceite a justificativa da montadora; exigência de recall ou de retirada dos veículos de circulação; ou aplicação de multas por certificação incorreta. No caso do Cybercab, o desfecho mais provável envolve a discussão sobre se a Tesla precisará, afinal, pedir a isenção que a Zoox obteve — o que submeteria o veículo a análise técnica detalhada antes da expansão.

Para a empresa, o custo maior é o tempo. A Tesla apresentou o Cybercab como peça central de sua estratégia de robotáxis, e cada mês de indefinição regulatória atrasa a escala que o negócio exige.

Tesla e NHTSA: um histórico de atritos

A investigação sobre o Cybercab não é o primeiro embate entre a montadora e o regulador. A NHTSA mantém há anos apurações sobre os sistemas de assistência à condução da Tesla — o Autopilot e o pacote batizado de Full Self-Driving (FSD) — após acidentes, alguns fatais, em que o motorista confiou no sistema além do que ele foi projetado para fazer. Em dezembro de 2023, a agência levou a Tesla a um recall de cerca de 2 milhões de veículos nos Estados Unidos para reforçar os alertas de atenção do motorista com o Autopilot ativado; em outubro de 2024, abriu nova investigação sobre o FSD depois de colisões em condições de baixa visibilidade.

Esse histórico pesa no caso atual. A agência conhece a estratégia da empresa de lançar funcionalidades e ajustá-las em campo, via atualização de software, e tende a ser mais rigorosa com um fabricante que já foi objeto de recalls por sistemas de condução automatizada. O Cybercab, sem nenhum controle humano, é a versão extrema dessa abordagem: não há motorista para assumir se o sistema falhar.

Para a Tesla, por outro lado, o histórico serve de argumento na direção contrária — a empresa afirma que seus veículos com FSD acumulam bilhões de quilômetros e que os dados demonstram segurança superior à média humana. É essa base de dados que a NHTSA vai examinar ao avaliar a certificação do Cybercab.

Robotáxis: a corrida e seus riscos

O Cybercab entra em um mercado em que a Waymo, do grupo Alphabet, já opera serviços comerciais em várias cidades americanas — com veículos que mantêm volante e pedais — e em que a Zoox estreou com o primeiro modelo sem controles autorizado. A diferença de abordagem é estratégica: a Waymo adaptou carros existentes e percorreu o caminho regulatório convencional; a Zoox projetou um veículo novo e pediu isenção; a Tesla projetou um veículo novo e autocertificou.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a disputa é sobre quem define as regras do transporte autônomo. "A Tesla está testando se uma empresa pode lançar um carro sem volante e deixar o regulador correr atrás. Se der certo, vira precedente para toda a indústria. Se não der, a NHTSA reafirma que quem decide o que é seguro é o Estado, não a montadora. O Cybercab é um carro, mas a investigação é sobre poder", analisa.

A NHTSA não informou prazo para a conclusão da investigação. A Tesla mantém, por ora, a operação em Austin.

Foto: Steve Jurvetson from Los Altos, USA (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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