Economia

Benjamin Steinbruch deixa a presidência executiva da CSN após 33 anos e passa a comandar

Steinbruch, de 73 anos, liderou o Consórcio Brasil que venceu o leilão da Vale em 1997; na Vale, Schvartsman adotou o lema 'Mariana nunca mais' e ampliou recursos para barragens antes de 2019.

Benjamin Steinbruch deixa a presidência executiva da CSN após 33 anos e passa a comandar

A Companhia Siderúrgica Nacional informou na quarta-feira (2 de setembro) que Benjamin Steinbruch deixará a presidência executiva da companhia e passará a comandar o conselho de administração. A partir de quinta-feira (3), Fabio Schvartsman, ex-presidente da Vale, assume o cargo de presidente executivo da CSN. As informações são do G1.

Steinbruch, de 73 anos, ficou 33 anos na CSN; antes disso, o carioca teve participação importante na privatização da Vale, em maio de 1997, quando liderou a formação do Consórcio Brasil, grupo que venceu o leilão — participação que o colocou no centro de um dos principais movimentos de privatização do país nos anos 1990 e ampliou sua influência no setor industrial; ele também foi primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Schvartsman é formado e pós-graduado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP, com pós-graduação em Administração pela Fundação Getulio Vargas; antes da Vale, construiu carreira de décadas em grandes empresas — dez anos na Duratex e 22 no Grupo Ultra, onde foi sócio-diretor da Ultra S.A. e diretor financeiro da holding Ultrapar, que deixou em 2007; depois comandou a Telemar Participações e a San Antonio Internacional e, em 2011, assumiu a presidência da Klabin, onde ficou até 2017. Assumiu a presidência executiva da Vale em 23 de maio de 2017, aos 63 anos, sucedendo Murilo Ferreira, com o objetivo de liderar uma reorganização da empresa e direcionar suas ações ao Novo Mercado; durante sua gestão, a companhia aumentou os recursos destinados à segurança de barragens e reformulou o controle de riscos em parceria com a Deloitte, sob a diretriz "Mariana nunca mais", em referência ao rompimento da barragem de Fundão em 2015 — mas, quatro anos depois, outro desastre marcaria a história da empresa. Após decisão do Superior Tribunal de Justiça, o ex-presidente da Vale voltou a responder em ações sobre Brumadinho, com processos separados.

A sucessão de um patriarca: o que muda na CSN — e por que Schvartsman é uma escolha controversa

Benjamin Steinbruch é a CSN desde a privatização de 1993, quando o grupo Vicunha, de sua família, comprou a siderúrgica de Volta Redonda que Getúlio Vargas fundara em 1941; em três décadas, transformou-a num conglomerado de aço, mineração — a Casa de Pedra, em Congonhas —, cimento, logística e energia, com receita acima de R$ 40 bilhões, listagem em São Paulo e Nova York e um estilo de gestão centralizado, agressivo e litigioso, que o colocou em disputas com a Vale, com Usiminas, com o Cade e com minoritários, e que fez da CSN uma das empresas mais alavancadas do setor, com dívida líquida recorrente acima de três vezes o Ebitda; aos 73 anos, sem sucessor na família com perfil executivo, a passagem do comando a um profissional de mercado era esperada há anos pelos investidores — e a escolha de Schvartsman, ex-CEO da Vale, é ao mesmo tempo a mais qualificada e a mais carregada possível. Schvartsman comandava a Vale em 25 de janeiro de 2019, quando a barragem B1 da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, rompeu e matou 272 pessoas; afastado semanas depois, foi denunciado por homicídio doloso — a Justiça de Minas e depois o STJ discutiram por anos se ele responderia, e a decisão mais recente do STJ o recolocou como réu em ações separadas —, e sua defesa sustenta que não tinha conhecimento do risco específico e que a empresa, sob sua gestão, aumentara o investimento em segurança de barragens após Mariana. Para a CSN, que opera barragens em Congonhas e enfrenta os mesmos riscos, contratar o executivo mais associado ao maior desastre da mineração brasileira é aposta na competência financeira e industrial — Klabin e Vale melhoraram sob ele — e desafio de imagem; o mercado, segundo a Folha, reagiu com alta de até 20% nas ações no dia seguinte, sinal de que investidores valorizam a profissionalização e a possível redução da dívida mais do que temem o passivo reputacional. Steinbruch, no conselho, mantém o controle; Schvartsman, na presidência, ganha a tarefa de desalavancar e de conviver com um controlador que nunca delegou.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a troca na CSN é o fim de uma era e o começo de um teste. "Trinta e três anos de Steinbruch no comando, desde a privatização de Volta Redonda — a CSN é ele, e ele nunca dividiu o volante com ninguém. Agora entrega a um profissional de primeira linha, que fez a Klabin crescer e a Vale se reorganizar, e que carrega o nome de Brumadinho, com 272 mortos e processo no STJ. É escolha corajosa ou insensível, dependendo de quem olha: o investidor viu competência e comprou a ação; a família de Brumadinho viu o CEO da tragédia assumir outra empresa com barragem. O portal registra a sucessão e a pergunta que ela deixa: Steinbruch no conselho vai deixar Schvartsman mandar? A CSN tem dívida alta, barragem em Congonhas e um controlador que nunca soltou. O ex-Vale sabe do que se trata — em todos os sentidos", avalia.

Steinbruch: 33 anos, da privatização ao conselho

Herdeiro do grupo Vicunha, comprou a CSN em 1993, liderou o consórcio que privatizou a Vale em 1997 — participação depois vendida —, expandiu para mineração, cimento e logística, brigou com concorrentes e reguladores, presidiu a Fiesp como vice e concentrou decisões por três décadas; no conselho, mantém o controle acionário e a última palavra.

Schvartsman: a carreira antes da Vale

Engenheiro da Poli-USP, dez anos na Duratex, 22 no Ultra como diretor financeiro, passagens pela Telemar e pela San Antonio, e a presidência da Klabin de 2011 a 2017, período de expansão com a fábrica Puma; chegou à Vale em 2017 com reputação de gestor financeiro rigoroso e agenda de governança.

Brumadinho: o passivo que o acompanha

Em 25 de janeiro de 2019, a barragem da Vale em Brumadinho rompeu e matou 272 pessoas; Schvartsman foi afastado, denunciado e teve a responsabilização discutida por anos; decisão recente do STJ o recolocou como réu em ações separadas. Sua defesa alega desconhecimento do risco específico e investimento ampliado em segurança.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a alta das ações diz mais sobre a CSN do que sobre Schvartsman. "O mercado subiu a ação em até 20% não porque ama o ex-Vale, mas porque odiava a governança de um homem só. Qualquer executivo profissional no lugar de Steinbruch seria comemorado; Schvartsman é dos melhores em finanças, e a CSN precisa de desalavancagem. A questão de Brumadinho é moral e jurídica, e o mercado não precifica moral. O portal registra os dois lados: a competência e o passivo. E lembra que a CSN tem barragem em Congonhas, a poucos quilômetros de onde a Vale falhou — o novo presidente sabe exatamente o que está em jogo", observa.

"Mariana nunca mais": a gestão na Vale

Schvartsman ampliou o orçamento de segurança de barragens, contratou a Deloitte para reformular o controle de riscos e levou a Vale ao Novo Mercado; quatro anos após Fundão, Brumadinho mostrou que as medidas não alcançaram a barragem de Córrego do Feijão — a contradição que define seu legado.

A CSN de hoje: aço, mineração, cimento e dívida

Volta Redonda, Casa de Pedra, cimento comprado da LafargeHolcim, ferrovias e portos — o grupo tem receita bilionária e dívida elevada, com alavancagem que o mercado cobra há anos; a missão do novo presidente é reduzi-la, possivelmente com venda de ativos e abertura de capital de subsidiárias, sob um controlador que resiste a diluição.

O Consórcio Brasil e a privatização da Vale

Em 1997, Steinbruch liderou o grupo que venceu o leilão da Vale por R$ 3,3 bilhões, num dos marcos da privatização dos anos 1990; a participação foi depois vendida, mas a rivalidade CSN–Vale — em Casa de Pedra, na ferrovia MRS, no minério — marcou as décadas seguintes; agora, um ex-presidente da Vale comanda a CSN.

Governança e sucessão em empresas familiares

A CSN é um dos últimos grandes grupos brasileiros de controle familiar com fundador no comando executivo; a transição para gestão profissional, comum em Gerdau, Votorantim e outros, é cobrada por investidores e agências de rating; o conselho sob Steinbruch e a presidência sob Schvartsman testam o modelo.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia tem uma ironia que o setor não deixou passar. "O homem que privatizou a Vale entrega a CSN ao homem que presidia a Vale quando Brumadinho rompeu. Trinta anos de rivalidade terminam com o ex-inimigo no comando. Se der certo, a CSN vira empresa profissional e menos endividada; se der errado, Steinbruch, no conselho, demite e volta. O portal registra a sucessão de um dos últimos patriarcas da indústria brasileira e o peso do nome que ele escolheu — em Volta Redonda, em Congonhas e em Brumadinho, onde 272 famílias vão ler esta notícia de outro jeito", analisa.

A saída de Benjamin Steinbruch da presidência executiva da Companhia Siderúrgica Nacional após 33 anos, para comandar o conselho de administração, e a posse de Fabio Schvartsman, ex-presidente da Vale, como presidente executivo em 3 de setembro de 2026 foram anunciadas em 2 de setembro e noticiadas pelo G1; Schvartsman voltou a responder a ações sobre o rompimento da barragem de Brumadinho por decisão do Superior Tribunal de Justiça.

Foto: Michel Temer (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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