Economia

Governo do Rio pede à União ajuda para desapropriar a refinaria de Manguinhos

Refit não opera desde o início do ano, parou de pagar a renegociação de dívidas feita no governo Castro e é alvo de operação por fraudes; Ricardo Magro teve prisão decretada.

Governo do Rio pede à União ajuda para desapropriar a refinaria de Manguinhos

O governo do Rio de Janeiro pediu à União ajuda para desapropriar o terreno da refinaria de Manguinhos, da Refit, empresa investigada por fraude na venda de combustíveis que teve a falência decretada pela Justiça nesta semana. Segundo o governo de Ricardo Couto, a participação da União é necessária porque é dela o domínio direto do terreno, tendo cedido à refinaria apenas o direito de uso, chamado de domínio útil — por isso, a desapropriação não pode ser feita pelo estado. A reportagem tentou contato com a Refit por meio de diferentes telefones e e-mails, sem resposta; o mercado espera que a empresa recorra contra a decretação de falência. As informações são da Folha.

Em 2013, o plenário do Supremo Tribunal Federal usou o mesmo argumento para derrubar decreto do então governo Sérgio Cabral que previa a desapropriação da área — à época, o governo do Rio avaliava a refinaria em R$ 300 milhões. A refinaria ocupa uma área de 600 mil metros quadrados, o equivalente a quase 90 campos de futebol, às margens da Avenida Brasil, na zona norte do Rio; Couto já havia anunciado em maio o desejo de desapropriá-la. A ideia do governo é tentar recuperar parte da dívida deixada pela Refit por anos de operação sem recolher devidamente os impostos sobre as vendas de combustíveis: parte desse débito chegou a ser renegociada no governo Cláudio Castro, mas a empresa já parou de pagar as parcelas — inadimplência que foi, inclusive, um dos motivos da decretação da falência. A Refit não opera desde o início do ano e não tem mais receita para cumprir a recuperação judicial, iniciada há mais de dez anos. O governo estadual diz que o plano é buscar outro operador para manter as atividades do parque de refino instalado no terreno; questões ambientais dificultam o direcionamento da área para outros fins, que demandariam grande investimento em descontaminação. Uma das primeiras refinarias do país, Manguinhos foi fundada em 1954; em 2008, o empresário Ricardo Magro assumiu o controle; no ano passado, uma operação contra fraudes nas vendas de combustíveis teve a empresa como alvo — Magro teve pedido de prisão decretado e o ex-governador Cláudio Castro foi alvo de busca e apreensão, suspeito de usar a máquina do estado para facilitar práticas criminosas do grupo Refit. Ele nega irregularidades.

Setenta anos de Manguinhos: da pioneira ao símbolo da sonegação

Inaugurada em 1954, antes mesmo de a Petrobras consolidar o refino nacional, a Refinaria de Manguinhos foi por décadas uma pequena unidade privada — capacidade de cerca de 14 mil barris por dia, uma fração da Reduc, em Duque de Caxias — que sobreviveu à estatização do setor e, a partir da compra por Ricardo Magro em 2008, virou o centro de um modelo de negócio que o Ministério Público e a Receita descrevem como fraude estrutural: importar e vender combustível sem recolher ICMS, PIS e Cofins, acumular dívidas bilionárias com o estado, entrar em recuperação judicial para suspender cobranças e continuar operando — competindo com distribuidoras que pagam imposto e ganhando mercado com preço artificialmente baixo. O Rio tentou desapropriar em 2013, com Cabral, e o Supremo barrou; renegociou dívidas com Castro, e a empresa parou de pagar; a operação de 2025 contra fraudes no setor de combustíveis — que atingiu também redes ligadas ao crime organizado em São Paulo — mirou a Refit, pediu a prisão de Magro e alcançou o ex-governador; a falência decretada esta semana encerra a operação, mas não resolve o terreno. Os 600 mil metros quadrados na Avenida Brasil, entre Manguinhos e Bonsucesso, estão contaminados por sete décadas de refino, o que inviabiliza uso habitacional ou comercial sem descontaminação bilionária — daí o governo Couto preferir manter o refino com outro operador. O nó é jurídico: a União é dona do chão, e só ela pode desapropriar; o estado é credor e pede ajuda.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso Refit é a história de como a sonegação vira vantagem competitiva. "Uma refinaria que não paga imposto vende gasolina mais barata que a concorrência, ganha mercado, acumula dívida bilionária, entra em recuperação judicial para não pagar e continua operando por dez anos. Quando finalmente falir, o estado — que é credor — descobre que nem o terreno pode tomar, porque é da União. É a mesma tese que o Supremo usou contra Cabral em 2013; treze anos depois, o Rio volta a bater na mesma porta. O governo Couto pede à União que desaproprie e entregue outro operador; a União tem de decidir se quer mais uma refinaria privada em terreno público ou se assume a descontaminação. O portal registra: 600 mil metros quadrados na Avenida Brasil, dívida bilionária, dono com prisão decretada, ex-governador investigado. É o Rio em resumo", avalia.

Domínio direto e domínio útil: o nó jurídico

O terreno é bem da União cedido em enfiteuse ou aforamento — a refinaria detém o domínio útil, o direito de usar e explorar, mas não a propriedade; desapropriação exige que quem a decreta tenha competência sobre o bem, e o STF decidiu em 2013 que o estado não a tem sobre imóvel federal. Por isso o pedido de Couto à União.

O precedente de 2013: Cabral e o Supremo

O governo Cabral decretou a desapropriação por utilidade pública, avaliando a refinaria em R$ 300 milhões, e a Refit recorreu; o plenário do STF derrubou o decreto por invasão de competência da União — decisão que a Refit usou por mais de uma década como blindagem contra tentativas do estado de tomar a área.

Falência: o fim da recuperação judicial

Em recuperação judicial desde meados da década de 2010, a Refit deixou de operar no início de 2026, perdeu a receita para pagar credores, tornou-se inadimplente com a renegociação de ICMS do governo Castro e teve a falência decretada nesta semana; a empresa deve recorrer, e a massa falida será administrada por síndico, que decidirá o destino dos ativos — entre eles o domínio útil do terreno.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o pedido do governo é também um teste para a União. "Se o terreno é da União e a União quer ajudar o Rio, desapropria o domínio útil, indeniza a massa falida pelo que valer — pouco, dado o passivo — e licita um operador que pague imposto. Se não quer, fica com um passivo ambiental de 600 mil metros quadrados na Avenida Brasil. O governo Lula, em ano eleitoral e com o Rio governado por um ex-presidente de tribunal que assumiu depois da cassação de Castro, tem de escolher. E o mercado de combustíveis — que sofreu anos de concorrência desleal da Refit — quer saber se o próximo operador será sério. O portal lembra que a fraude de combustível, do Rio a São Paulo, é o negócio favorito do crime organizado em 2026; Manguinhos é o exemplo mais antigo", observa.

A dívida: anos de ICMS não recolhido

A Refit é apontada como uma das maiores devedoras de ICMS do Rio, com débitos bilionários acumulados em anos de venda de combustíveis sem recolhimento; o governo Castro renegociou parte, com parcelas que a empresa pagou por pouco tempo. Recuperar algo dessa dívida por meio do terreno é o objetivo declarado de Couto — improvável, dado o valor da área contaminada e a fila de credores.

Magro, Castro e a operação de 2025

A operação contra fraudes na venda de combustíveis teve a Refit como alvo central, pediu a prisão do controlador Ricardo Magro e cumpriu busca e apreensão contra Cláudio Castro, suspeito de usar a máquina estadual para favorecer o grupo; Castro, depois cassado e substituído por Ricardo Couto, nega. As investigações seguem em paralelo à falência.

Passivo ambiental: por que o terreno só serve para refino

Sete décadas de refino contaminaram solo e lençol freático com hidrocarbonetos e metais; converter a área em habitação, comércio ou parque exigiria remediação de centenas de milhões a bilhões de reais — custo que ninguém quer assumir; manter refino, com operador novo, é a solução pragmática que o estado propõe.

Refino privado no Brasil: um setor pequeno e problemático

Fora da Petrobras e das refinarias vendidas por ela — Mataripe, na Bahia, à Acelen —, o refino privado é marginal: Manguinhos, Riograndense e poucas outras, com histórico de dificuldades e, no caso da Refit, de fraude; a busca por outro operador testará se há empresa séria interessada em uma refinaria pequena, antiga e contaminada.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a saga de Manguinhos deveria ensinar algo sobre recuperação judicial. "Dez anos em recuperação sem recuperar nada, operando sem pagar imposto, com o Supremo protegendo o terreno e o estado renegociando dívida que não seria paga. A lei de falências foi feita para salvar empresas viáveis, não para blindar sonegação; a Refit usou-a como escudo por uma década. A falência veio tarde, e agora o Rio pede à União o que devia ter conseguido em 2013. O portal registra o caso como aviso: em Araras e no interior, distribuidoras e postos ligados a esquemas de combustível operam com a mesma lógica — preço baixo, imposto zero, recuperação judicial ao fim. Manguinhos é o modelo; que seja o último", analisa.

O pedido do governo do Rio de Janeiro à União para desapropriar o terreno da refinaria de Manguinhos, da Refit, cuja falência foi decretada nesta semana, foi noticiado pela Folha em 4 de setembro de 2026; o Supremo Tribunal Federal havia derrubado, em 2013, a desapropriação decretada pelo governo Sérgio Cabral pelo mesmo argumento de domínio da União.

Foto: U.S. Marine Corps photo by Cpl. Stephen Holland (Public domain) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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