Setembro é o mês da conscientização e da prevenção ao suicídio — e, para a autora do blog Vida de Alcoólatra, da Folha de S.Paulo, é também o mês de dizer o que a maioria evita: "Eu já tentei, sim, me matar. Não digo isso com orgulho nem para chamar atenção. Digo porque aconteceu comigo e porque esconder não faz com que a dor desapareça. Só faz com que ela fique ainda mais solitária." O texto, publicado nesta sexta-feira (4), abre o Setembro Amarelo com um relato em primeira pessoa e uma advertência: a dor das pessoas não obedece ao calendário, e o cuidado não pode terminar quando o mês acabar. As informações são da Folha de S.Paulo.
"Sobrevivi e esperei passar aquela dor imensa que estava dentro de mim. Na hora, parece que ela nunca vai passar. Parece que não existe amanhã, saída ou qualquer possibilidade de mudança", escreve. "A gente não quer exatamente morrer. Quer que aquela dor acabe, que a cabeça pare de gritar e que o peito deixe de apertar. Mas, quando estamos no meio dessa tempestade, não conseguimos separar uma coisa da outra."
"Pega essa toalha, lava bem e começa novamente"
Na última tentativa, a autora ligou para um amigo e disse que ia jogar a toalha. A resposta foi simples: "Pega essa toalha, lava bem e começa novamente". "Pode parecer uma frase simples, até engraçada para quem está de fora. Mas foi o jeito que ele encontrou de me dizer para esperar mais um pouco, respirar e não tomar uma decisão definitiva no pior momento da minha vida. Foi também uma forma de mostrar que eu não estava completamente sozinha." O episódio ilustra o que a prevenção ensina: a crise suicida é aguda e transitória, e ganhar tempo — uma hora, uma noite — frequentemente é o que separa a tentativa da sobrevivência.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o relato vale mais que qualquer cartilha. "A frase do amigo não é técnica, não é de psicólogo, não segue protocolo. É um ser humano dizendo 'espera' para outro. E funcionou porque ele estava disponível quando o telefone tocou. A prevenção ao suicídio, no fim, é isso: alguém atender. O CVV existe para quem não tem o amigo; o amigo existe para quem tem sorte. O Setembro Amarelo deveria formar mais gente capaz de dizer 'espera' — e menos gente com medo de ouvir", avalia.
O silêncio de quem sofre
"É silencioso o que acontece. Nem sempre a pessoa avisa, chora na frente dos outros ou pede socorro de uma maneira clara. Às vezes, continua trabalhando, conversando e até sorrindo. Por dentro, porém, vai crescendo uma angústia difícil de explicar", descreve a autora. "A mente vai fechando todas as portas e convencendo a pessoa de que não existe outra solução." É o que a psiquiatria chama de visão em túnel: o estreitamento cognitivo em que a pessoa deixa de enxergar alternativas e o suicídio aparece como única saída para uma dor que parece infinita.
Depois: o hospital, a família, a vergonha
A autora foi parar algumas vezes no hospital. "É duro estar ali. Acordar e perceber o que aconteceu. Mais duro ainda é olhar em volta e ver os familiares acompanhando aquela cena, assustados, cansados e sem saber o que fazer. Eles também sofrem. Muitas vezes, ficam procurando uma explicação ou perguntando onde erraram. Só que não é tão simples. Não existe uma única causa nem uma resposta pronta." Depois vem a vergonha, as perguntas, os julgamentos, a sensação de ser olhada de outro jeito — e a promessa de que nunca mais vai acontecer. "Mas, se a dor não for tratada, ela pode voltar."
O trecho toca em dois pontos centrais da prevenção. O primeiro é a posvenção — o cuidado com quem sobreviveu a uma tentativa e com as famílias, que carregam culpa e medo. O segundo é o risco de repetição: uma tentativa anterior é o principal fator de risco para uma nova, e o acompanhamento nos meses seguintes é decisivo.
"Força de vontade" não resolve
"Quem nunca passou por isso pode pensar que basta ter força de vontade, agradecer pela vida ou lembrar que existem pessoas em situações piores", escreve a autora. É a reação mais comum — e a mais contraproducente. A comparação com quem "está pior" aprofunda a culpa; o conselho de "pensar positivo" reforça a sensação de fracasso; a exigência de força de vontade ignora que depressão e outros transtornos são doenças, não fraquezas. Especialistas recomendam o oposto: ouvir sem julgar, perguntar diretamente sobre pensamentos de morte — o que não induz o ato, ao contrário do mito — e acompanhar a pessoa até a ajuda profissional.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o texto desmonta a principal barreira. "A pessoa em crise não fala porque sabe o que vai ouvir: 'tem gente pior', 'você tem tudo', 'isso é fraqueza'. Cada uma dessas frases confirma que ela está sozinha. A autora ouviu isso e escreve para que os outros não digam. O melhor uso do Setembro Amarelo é esse: ensinar o que não dizer. 'Como você está, de verdade?' e 'estou aqui' bastam. O resto é do profissional", observa.
O ano inteiro, não o mês
"Setembro serve para lembrar que precisamos falar sobre suicídio, mas esse cuidado não pode terminar quando o mês acabar. A dor não obedece ao calendário. Precisamos prestar atenção nas pessoas durante o ano inteiro e perguntar de verdade como elas estão. E, quando alguém disser que não aguenta mais, precisamos ouvir." A crítica é conhecida entre profissionais: campanhas concentradas em um mês produzem pico de atenção e vazio nos outros onze, enquanto os serviços — CAPS, ambulatórios, CVV — funcionam o ano todo e precisam de recurso e de gente permanentemente.
Sinais de alerta
Entre os sinais que merecem atenção, segundo os protocolos de prevenção: falar em morte ou em "sumir", desesperança expressa ("não tem saída", "seria melhor sem mim"), isolamento repentino, mudanças bruscas de humor — inclusive uma calma inesperada após período de angústia, que pode indicar decisão tomada —, doação de objetos pessoais, despedidas, abuso de álcool ou drogas, e histórico de tentativa anterior. Nenhum sinal isolado é conclusivo; a combinação e a mudança em relação ao habitual são o que importa. Perguntar diretamente é a conduta recomendada.
Onde buscar ajuda
O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta apoio emocional e prevenção do suicídio de forma voluntária e gratuita, com sigilo e anonimato, pelo telefone 188 — 24 horas por dia — e pelo site cvv.org.br, por chat e e-mail. Em risco imediato, a orientação é chamar o Samu pelo 192 ou procurar um pronto atendimento. O Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio oferece grupos de apoio a enlutados e a familiares de pessoas com ideação suicida, cartilhas e cursos para profissionais (vitaalere.com.br). A Abrases, Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio, disponibiliza materiais e indica grupos de apoio em todas as regiões (abrases.org.br). Nas cidades, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do SUS atendem sem necessidade de encaminhamento.
"Nenhuma sensação dura para sempre"
"Hoje consigo falar sobre o que vivi porque esperei a tempestade passar. Ela passou. Outras vieram, mas eu aprendi que nenhuma sensação dura para sempre", conclui a autora. "A toalha pode estar suja, pesada e encharcada. Ainda assim, talvez seja possível lavá-la, estendê-la e começar novamente." E encerra com o convite direto: "Se esse relato também descreve como você está se sentindo agora, não fique sozinha ou sozinho: ligue para alguém de confiança."
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o valor do relato está em quem o assina. "Uma sobrevivente escrevendo num jornal de grande circulação que tentou, que sobreviveu, que voltou ao hospital, que sentiu vergonha e que hoje está bem — isso quebra o estigma de um jeito que nenhuma campanha institucional consegue. Ela prova que a tempestade passa. Para quem está no meio dela, essa é a única informação que importa: alguém já esteve aí e saiu. O número é 188. Está aberto agora", analisa.
O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil, e pelo site cvv.org.br. Em situação de risco imediato, ligue 192 ou procure o pronto atendimento mais próximo.
Foto: Acabashi (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.