Saúde

Ex-funcionárias da agência de medicamentos da Argentina são processadas pelo fentanil contaminado

Caso veio à tona em maio de 2025 num hospital de La Plata; 13 empresários já respondem, e o juiz bloqueou bens de 500 bilhões de pesos — R$ 1,7 bilhão — de cada ex-autoridade, que seguem em liberdade.

Ex-funcionárias da agência de medicamentos da Argentina são processadas pelo fentanil contaminado

Um juiz argentino acusou formalmente na terça-feira (1º de setembro) duas ex-funcionárias de órgãos responsáveis pelo controle de medicamentos por sua suposta participação no caso do fentanil clínico contaminado que circulou em hospitais em 2025 e foi relacionado a pelo menos 90 mortes. A tragédia sanitária é considerada pela imprensa argentina a mais importante dos últimos cem anos, superada apenas pela pandemia de Covid. As informações são da Folha, com base na AFP.

O caso veio à tona em maio de 2025, quando um hospital em La Plata, a 50 quilômetros ao sul de Buenos Aires, detectou as mesmas bactérias em ampolas de fentanil e em pacientes infectados. As processadas são Nélida Bisio, que dirigia a Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica, a Anmat, durante a crise, e Gabriela Mantecón Fumadó, ex-chefe do instituto de medicamentos vinculado à agência; ambas foram apontadas como "partícipes necessárias" na adulteração do fentanil, segundo decisão do juiz federal Ernesto Kreplak. O magistrado considerou que as ex-funcionárias, de 71 e 56 anos, tinham conhecimento das "irregularidades significativas" da HLB Pharma e dos Laboratorios Ramallo, responsáveis pela fabricação e comercialização do medicamento: "No entanto, decidiram não adotar as medidas que, de acordo com os regulamentos, eram obrigadas a tomar. Foi assim que o fentanil adulterado foi comercializado", afirmou Kreplak na decisão obtida pela AFP. Treze empresários e responsáveis pelas duas empresas já foram processados; com a decisão, a investigação avança pela primeira vez sobre ex-autoridades encarregadas da "vigilância e controle" de produtos medicinais. Kreplak determinou o bloqueio de bens de 500 bilhões de pesos para cada uma — cerca de R$ 1,7 bilhão — e ordenou que sigam em liberdade enquanto o processo avança. Mantecón Fumadó deixou o cargo em meio à crise, em agosto de 2025; Bisio permaneceu até janeiro de 2026. O opioide é entre 50 e 100 vezes mais potente que a morfina, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Ampolas com bactéria em UTI: como a Argentina chegou à pior tragédia sanitária do século

O fentanil clínico é o analgésico e sedativo padrão das unidades de terapia intensiva — usado em cirurgias, intubações e cuidados paliativos, em doses de microgramas —, e o lote da HLB Pharma, fabricado pelos Laboratorios Ramallo, saiu para hospitais públicos e privados de toda a Argentina no início de 2025 contaminado com Klebsiella pneumoniae e Ralstonia, bactérias resistentes que, injetadas diretamente na veia de pacientes já graves, provocaram infecções generalizadas fatais; o alerta partiu do Hospital Italiano de La Plata em maio, quando médicos notaram um padrão de infecções idênticas e cultivaram as mesmas bactérias nas ampolas, e a Anmat só proibiu o lote e interditou as empresas semanas depois — tempo em que o produto continuou sendo administrado. A investigação do juiz Kreplak revelou que a HLB Pharma e os Ramallo tinham histórico de inspeções reprovadas, alertas de qualidade e irregularidades documentadas nos próprios arquivos da Anmat, e que a agência, sob Bisio, não suspendeu a produção nem recolheu lotes anteriores; é essa omissão — conhecer as irregularidades e "decidir não adotar as medidas" — que fundamenta a acusação de participação necessária, tese jurídica que equipara a inação do fiscal à ação do fabricante. O caso, com pelo menos 90 mortes confirmadas e outras dezenas sob investigação, atingiu o governo Milei, que havia cortado pessoal e orçamento da Anmat como parte do ajuste, e reabriu na Argentina o debate sobre a capacidade do Estado de fiscalizar a indústria farmacêutica; no Brasil, a Anvisa reforçou a vigilância sobre importados argentinos e a rastreabilidade de opioides hospitalares, e o episódio serve de alerta a um sistema que também fiscaliza por amostragem. O bloqueio de R$ 1,7 bilhão por ré e a manutenção em liberdade indicam o tamanho do dano e o estágio do processo — ainda longe de julgamento.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso argentino é o que acontece quando a vigilância sanitária falha. "Noventa mortos em UTI por uma ampola de fentanil com bactéria — gente que entrou no hospital para se tratar e morreu pelo remédio. O fabricante tinha histórico de irregularidade, a agência sabia e não fez nada; agora a ex-diretora e a ex-chefe do instituto respondem como partícipes, com bens bloqueados. É a responsabilização que raramente chega ao fiscal, e chegou. O Brasil deveria olhar com atenção: a Anvisa também fiscaliza por amostra, também sofre corte de orçamento, também tem laboratório com inspeção reprovada operando. O portal registra a tragédia do vizinho e a lição: agência reguladora que não interdita quem sabe ser irregular é cúmplice — e a Justiça argentina acabou de dizer isso com todas as letras", avalia.

As acusadas: Bisio e Mantecón Fumadó

Nélida Bisio, 71, dirigia a Anmat durante a crise e ficou no cargo até janeiro de 2026; Gabriela Mantecón Fumadó, 56, chefiava o instituto de medicamentos e saiu em agosto de 2025; ambas respondem como partícipes necessárias na adulteração, com bloqueio de 500 bilhões de pesos cada, e permanecem em liberdade.

HLB Pharma e Laboratorios Ramallo: os fabricantes

Empresas com histórico de irregularidades registradas pela própria Anmat, responsáveis pela produção e pela comercialização do lote contaminado; 13 empresários e responsáveis técnicos já foram processados; as plantas foram interditadas após a descoberta, e o grupo é investigado por outros produtos.

La Plata, maio de 2025: a descoberta

Médicos de um hospital da cidade identificaram infecções idênticas em pacientes de UTI e cultivaram as mesmas bactérias nas ampolas de fentanil; o alerta levou ao recolhimento do lote, à contagem de mortes em vários hospitais do país e à abertura da investigação federal que chegou agora às autoridades.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a tese do juiz é o precedente que importa. "'Partícipe necessária' por omissão — a fiscal que sabia e não interditou é tratada como quem adulterou. É duro e é justo: sem a omissão, o lote não circularia. Na Argentina de Milei, que cortou a Anmat em nome do ajuste, a decisão também é política — mostra o custo de Estado mínimo em vigilância sanitária. O portal registra e lembra que o Brasil discute cortar agências reguladoras a cada crise fiscal; o fentanil de La Plata é o argumento contrário, em 90 mortes", observa.

Fentanil clínico: uso e risco

Opioide sintético 50 a 100 vezes mais potente que a morfina, essencial em anestesia, UTI e cuidados paliativos, administrado por via venosa em doses mínimas; a contaminação bacteriana de ampolas é catastrófica porque o produto vai direto à corrente sanguínea de pacientes imunodeprimidos — sem chance de defesa.

A Anmat e o ajuste de Milei

A agência argentina, equivalente à Anvisa, sofreu cortes de pessoal e orçamento no governo Milei; críticos apontam a redução de inspeções como fator da tragédia; o governo responsabiliza gestões anteriores e os fabricantes. A investigação judicial, ao alcançar as ex-diretoras, evita o debate partidário e foca a omissão administrativa.

O Brasil e a Anvisa: o que muda

A agência brasileira reforçou o controle de importados argentinos e a rastreabilidade de opioides hospitalares; o sistema nacional fiscaliza por amostragem e depende de laboratórios estaduais; especialistas pedem mais inspeções em fabricantes de injetáveis — categoria em que a contaminação é mais letal.

Responsabilização de reguladores: os precedentes

Casos de omissão de agências — talidomida, sangue contaminado na França nos anos 1980, opioides nos Estados Unidos — raramente resultaram em processo criminal de fiscais; a decisão argentina é uma das poucas a equiparar omissão regulatória a participação no crime, e pode influenciar a jurisprudência na região.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a tragédia argentina deveria ser estudada em toda escola de saúde pública. "Um lote, uma bactéria, noventa mortos, um fabricante conhecido por irregularidade, uma agência que sabia. Não foi acidente; foi sistema falhando em cadeia, e a Justiça está responsabilizando cada elo. O portal registra e pergunta ao leitor: quem inspeciona a ampola que entra na veia do seu pai na UTI de Araras? A resposta é a Anvisa, por amostragem — e a Argentina mostrou o que acontece quando a amostra não pega", analisa.

A decisão do juiz federal argentino Ernesto Kreplak de processar as ex-funcionárias da Anmat Nélida Bisio e Gabriela Mantecón Fumadó pelo caso do fentanil contaminado ligado a pelo menos 90 mortes em 2025 foi tomada em 1º de setembro de 2026 e noticiada pela Folha em 2 de setembro, com base na AFP; 13 empresários e responsáveis pelas fabricantes HLB Pharma e Laboratorios Ramallo já respondem ao processo.

Foto: John Hodgson Lobley (Public domain) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

Develop by Cliki