Saúde

O frio realmente piora a dor da artrose

Em 13 dos 14 trabalhos analisados na Annals of Medicine, temperaturas mais baixas se associaram a mais dor e rigidez; contração de tendões, vasoconstrição e sedentarismo explicam o efeito.

O frio realmente piora a dor da artrose

É comum ouvir de quem convive com dores nas articulações que elas pioram quando a temperatura cai. Segundo uma revisão de estudos publicada na revista científica Annals of Medicine, essa percepção tem fundamento — ao menos para pessoas com osteoartrite, a doença crônica conhecida como artrose. A análise reuniu 14 artigos que avaliaram a relação entre clima e artrose, e em 13 deles os pesquisadores encontraram associação entre temperaturas mais baixas e aumento da dor ou do desconforto articular. As informações são da Folha de S.Paulo.

"Na prática clínica, realmente observamos que, no frio, principalmente quando acontecem mudanças bruscas de temperatura ou de aumento na umidade, os pacientes reclamam mais de incômodo", relata o reumatologista José Eduardo Martinez, presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). O achado chega em um setembro em que os modelos meteorológicos preveem o avanço de massas de ar frio sobre o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste na primeira quinzena — antes do calor do El Niño se instalar.

O que é a artrose

A osteoartrite é caracterizada pelo desgaste das articulações — em especial da cartilagem que reveste as extremidades dos ossos e permite o movimento suave — e provoca dor, rigidez e, em estágios avançados, limitação dos movimentos. Atinge sobretudo joelhos, quadris, mãos e coluna, é mais frequente a partir dos 50 anos e é uma das principais causas de incapacidade em idosos. Não tem cura: o tratamento busca controlar a dor, preservar a função e retardar a progressão, com exercício, controle de peso, fisioterapia e, quando necessário, medicamentos e cirurgia.

Por que o frio dói: as três explicações

Não existe explicação consensual para o fenômeno, mas três mecanismos são apontados. O primeiro é mecânico: tendões e músculos ao redor das articulações, estruturas naturalmente elásticas, ficam mais contraídos no frio, o que aumenta a tensão sobre a articulação já desgastada e provoca desconforto. O segundo é circulatório: a queda de temperatura causa vasoconstrição — o estreitamento dos vasos sanguíneos —, comprometendo a irrigação dos tecidos periarticulares. O terceiro envolve o líquido sinovial, responsável pela lubrificação das articulações, que tende a ficar mais espesso no frio, reduzindo a fluidez do movimento.

Há ainda um fator comportamental. "Outro fator que pode contribuir para esse quadro é que as pessoas reduzem a prática de atividade física nessa época, aumentando a rigidez e a dor", acrescenta a reumatologista Flávia Alexandra Guerrero, do Einstein Hospital Israelita. Menos movimento significa articulação mais rígida — e a rigidez, por sua vez, desestimula o movimento.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a revisão tem valor por validar a experiência do paciente. "Durante décadas, o idoso que dizia 'meu joelho avisa quando vai esfriar' era tratado como folclore. Agora são 14 estudos, 13 confirmando. Isso muda a conversa no consultório: o médico não precisa mais descartar a queixa, precisa explicar o mecanismo e ajustar a orientação para o inverno. Ouvir o paciente, no fim, era ciência", avalia.

Há ainda a hipótese da pressão atmosférica: frentes frias costumam vir acompanhadas de queda da pressão barométrica, e alguns estudos sugerem que essa variação altera a pressão dentro da cápsula articular, estimulando receptores de dor em articulações já inflamadas. É o que explicaria a sensação, relatada por muitos pacientes, de que a dor "avisa" a mudança de tempo antes que ela chegue. A umidade elevada, frequente nas frentes frias do Sul e do Sudeste, aparece nos estudos como fator agravante adicional.

Piora do sintoma, não da doença

Um ponto que os especialistas fazem questão de esclarecer: o aumento do desconforto no frio não significa, necessariamente, que a doença piorou ou que o tratamento falhou. A artrose progride lentamente, por anos; a dor que aumenta em um dia de frente fria e diminui quando o tempo esquenta é flutuação de sintoma, não avanço do desgaste. Entender essa diferença evita ansiedade e mudanças desnecessárias de medicação.

O que fazer: mover-se, aquecer-se, alongar

Para minimizar os efeitos, a orientação central é manter-se ativo — praticar atividade física, ainda que de menor intensidade, e fazer alongamentos diariamente. "Também é recomendado praticar exercícios respeitando os próprios limites e, de preferência, sob orientação de um profissional de educação física, além de usar roupas adequadas para manter o corpo aquecido e reduzir o risco de novas lesões", orienta Martinez.

O aquecimento antes do exercício é essencial nesses casos. "Também é recomendável aumentar a intensidade dos exercícios gradualmente, manter uma boa hidratação e evitar permanecer por longos períodos na mesma posição", recomenda Guerrero. Ficar sentado ou deitado por horas, comum nos dias frios, é o que mais enrijece a articulação; levantar e caminhar alguns minutos a cada hora faz diferença.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a recomendação vai contra o instinto. "No frio, o corpo pede sofá e cobertor. Para quem tem artrose, é exatamente o que não deve fazer. A articulação que fica parada no frio endurece e dói mais; a que se move, com roupa adequada e aquecimento, dói menos. É contraintuitivo, e é por isso que precisa ser dito pelo médico e repetido pela família: no inverno, o remédio é andar", observa.

Quando procurar o médico

Algumas pessoas podem precisar de sessões de fisioterapia ou de analgésicos, mas o tratamento deve ser sempre orientado por um médico — automedicação com anti-inflamatórios, comum entre idosos com dor articular, tem riscos gástricos, renais e cardiovasculares. E há sinais que exigem avaliação imediata. "Dor persistente ou intensa, especialmente quando acompanhada de inchaço, calor local, febre ou limitação das atividades diárias, exige avaliação médica, pois pode indicar outras condições que necessitam de investigação", alerta Guerrero. Artrite infecciosa, gota e outras doenças inflamatórias podem se confundir com a artrose — e têm tratamento diferente.

Setembro: frio antes do calor

O momento é oportuno. Segundo o Inpe, massas de ar frio devem avançar sobre o Sul, com reflexos no Sudeste e no Centro-Oeste, na primeira quinzena de setembro, provocando quedas bruscas de temperatura — justamente as mudanças abruptas que, segundo Martinez, mais provocam queixas. Depois, o El Niño deve trazer calor acima da média. Para quem tem artrose, a alternância entre frio e calor em poucas semanas é o pior cenário: a articulação não se adapta.

A recomendação prática para as próximas semanas é simples: roupa em camadas, calor local nas articulações doloridas — bolsa de água quente, compressa —, alongamento matinal e caminhada diária, mesmo curta. E, para quem toma medicação, não alterar doses por conta própria.

Artrose no Brasil: um problema que cresce

Com o envelhecimento da população, a artrose é uma das doenças crônicas que mais crescem no país, com impacto direto em filas de ortopedia e reumatologia do SUS, em cirurgias de prótese de joelho e quadril e em afastamentos do trabalho. A prevenção — controle de peso, atividade física regular, tratamento precoce de lesões — é a única forma de reduzir a carga futura. A revisão da Annals of Medicine acrescenta um detalhe: planejar o cuidado sabendo que o inverno é a estação mais difícil.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o estudo tem aplicação imediata para a saúde pública. "Se o frio piora a artrose, e a artrose é uma das maiores causas de incapacidade em idosos, os postos de saúde deveriam ter campanha de inverno para dor articular: alongamento em grupo, orientação de roupa, caminhada assistida. É barato e evita que o idoso passe três meses parado, perca músculo e chegue ao verão pior do que entrou no inverno. A ciência confirmou o que a vovó dizia. Agora é o SUS agir sobre isso", analisa.

A revisão está publicada na Annals of Medicine. Pessoas com artrose que perceberem piora intensa da dor nos próximos dias de frio devem procurar o médico que as acompanha antes de alterar o tratamento.

Foto: Shixart1985 (CC BY 2.0) via Wikimedia Commons.

JM
Escrito por

Jaime Fernando Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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