As preliminares e o uso da camisinha são cuidados conhecidos, mas o que se faz depois da relação sexual também merece atenção: hábitos simples ajudam a evitar infecções e a preservar a saúde sexual. A orientação, publicada pela Folha no Dia Mundial da Saúde Sexual — celebrado na sexta-feira (4 de setembro) e criado em 2010 pela Associação Mundial para a Saúde Sexual —, reúne recomendações da urologista Karin Anzolch, secretária-geral da Sociedade Brasileira de Urologia, e da ginecologista Fabiane Bernardes, presidente da comissão nacional de sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. "A saúde íntima não exige rituais complicados, mas, para que a relação sexual seja e continue sendo prazerosa, há alguns cuidados básicos", diz Anzolch.
O primeiro cuidado é remover a camisinha corretamente — nada de deixá-la no pênis após ejacular: o órgão não é feito para ficar úmido por longo período, imerso em secreção, o que pode irritar a superfície ou predispor a fungos. A médica orienta retirar o preservativo enquanto o pênis continua ereto, segurando pela base para evitar que deslize ou extravase, e descartá-lo no lixo. A camisinha feminina, se deixada dentro da vagina por muito tempo, pode ficar presa e exigir remoção em hospital, alerta Bernardes. Antes de dormir, é importante urinar: o hábito reduz a chance de infecção urinária, a cistite, porque o atrito da relação facilita a migração de bactérias para a uretra — risco maior nas mulheres, que têm a uretra mais curta. "A uretra é um canal de via dupla: assim como sai urina, ela também é aberta o suficiente para entrar alguma bactéria", explica Anzolch; urinar elimina bactérias que tenham entrado na bexiga antes que se multipliquem. Como a cistite é menos comum em homens, para eles o xixi após o sexo não é obrigatório — e ninguém deve forçar a urina sem vontade. As médicas recomendam limpeza básica da região íntima, mas não a ducha intravaginal, que remove a proteção natural da flora e facilita infecções: as próprias secreções eliminam impurezas, e lavar a parte externa, a vulva, é suficiente.
Cistite pós-coito: por que acontece e como evitar
A infecção urinária associada ao sexo é uma das queixas mais frequentes em consultórios de ginecologia e urologia: bactérias da região perineal — sobretudo a Escherichia coli, presente no intestino — são empurradas pelo atrito para a uretra e sobem até a bexiga, onde se multiplicam; em mulheres, a uretra de cerca de quatro centímetros, contra vinte nos homens, encurta o caminho. Urinar logo após a relação lava mecanicamente a uretra e reduz a carga bacteriana antes que a colonização se estabeleça — medida simples com respaldo em estudos e nas recomendações das sociedades médicas, ao lado de beber água, evitar segurar a urina e, em casos recorrentes, avaliação médica para descartar outras causas. Sintomas — ardência ao urinar, urgência, dor no baixo ventre, urina turva — exigem consulta; a cistite não tratada pode evoluir para infecção renal.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a reportagem faz o que a educação sexual brasileira raramente faz. "Fala do depois. Todo mundo aprende a colocar camisinha; quase ninguém aprende a tirar — e a urologista explica que deixá-la depois da ejaculação irrita e dá fungo. Todo mundo ouviu que xixi depois do sexo é bom; poucos sabem por quê — a uretra é via dupla, e a da mulher é curta. Ducha íntima, que a propaganda vende, é contraindicada pela ginecologista da Febrasgo. São três informações que evitam consultas, antibióticos e desconforto, ditas por quem entende, num dia criado para falar disso. É serviço de saúde pública em linguagem de conversa, e o portal republica por isso", avalia.
Camisinha: retirar certo é parte do uso
Remover com o pênis ereto, segurando a base, evita que o preservativo escorregue e que o sêmen extravase — o que anula a proteção contra gravidez e infecções sexualmente transmissíveis —; dar um nó e descartar no lixo, nunca no vaso. A recomendação vale também para prevenir irritação e fungos no homem, como explica a SBU.
Camisinha feminina: cuidado com o tempo
O preservativo interno, de poliuretano ou nitrilo, deve ser retirado logo após a relação, torcendo o anel externo para reter o sêmen; esquecido, pode se deslocar e ficar retido, exigindo remoção por profissional. É método eficaz e menos conhecido, distribuído gratuitamente pelo SUS.
Homens: o que muda
A uretra masculina longa torna a cistite rara; urinar após o sexo não é obrigatório, mas a higiene do pênis — retirar o preservativo, lavar com água e sabonete neutro, secar — previne balanite e candidíase, sobretudo em não circuncidados. Forçar a urina sem vontade não traz benefício.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a recomendação contra a ducha vaginal merece ser repetida. "Existe uma indústria de produtos íntimos que vende a ideia de que a vagina precisa ser lavada por dentro. A ginecologista da Febrasgo diz o contrário: a ducha remove a flora que protege, e a própria secreção limpa. Lavar a vulva, por fora, com água e sabonete suave, basta. É o tipo de informação que contraria o marketing e protege a saúde — e que muita mulher só ouve no consultório, se ouve. Publicar isso no Dia Mundial da Saúde Sexual é usar a data para o que ela serve", observa.
Infecção urinária: frequência e recorrência
Estima-se que cerca de metade das mulheres tenha ao menos um episódio de infecção urinária ao longo da vida, e uma parcela relevante sofre recorrências — três ou mais episódios por ano —, muitas vezes associadas à atividade sexual, ao uso de espermicidas e a alterações hormonais na menopausa; é uma das principais causas de consulta em unidades básicas de saúde e de prescrição de antibióticos no país. Medidas comportamentais — urinar após o sexo, hidratação, não segurar a urina — reduzem a frequência, e casos recorrentes exigem avaliação médica para investigar causas e, em alguns casos, profilaxia orientada por especialista.
Preservativos: o que o SUS oferece
O Ministério da Saúde distribui gratuitamente centenas de milhões de preservativos masculinos por ano, além de preservativos femininos e gel lubrificante, em unidades de saúde, escolas e eventos; a camisinha continua sendo o único método que previne simultaneamente gravidez e infecções sexualmente transmissíveis. O SUS também oferece a profilaxia pré-exposição ao HIV, a PrEP, e a pós-exposição, a PEP, além de vacinas contra HPV e hepatite B — recursos que complementam, e não substituem, os cuidados descritos pelas médicas.
Ducha íntima: por que não
A microbiota vaginal, dominada por lactobacilos, mantém o pH ácido que impede o crescimento de fungos e bactérias; a ducha intravaginal arrasta esses microrganismos e abre espaço para candidíase e vaginose bacteriana, além de estar associada a maior risco de doença inflamatória pélvica. Sabonetes íntimos, se usados, devem ficar na vulva.
Dia Mundial da Saúde Sexual: a data
Instituído em 2010 pela Associação Mundial para a Saúde Sexual, o 4 de setembro promove a saúde sexual como parte do bem-estar — prazer, consentimento, prevenção de infecções e gravidez não planejada, acesso a informação —; no Brasil, sociedades médicas e o Ministério da Saúde aproveitam a data para campanhas de testagem e educação.
Infecções sexualmente transmissíveis: o que a higiene não resolve
Urinar e lavar não previnem HIV, sífilis, gonorreia, clamídia ou HPV — só o preservativo, a vacinação contra HPV e hepatite B e, para HIV, a profilaxia pré e pós-exposição, disponíveis no SUS; a sífilis cresce no país há uma década, e a testagem regular é recomendada a quem tem parceiros múltiplos.
Quando procurar o médico
Ardência, corrimento com odor, dor durante a relação, sangramento fora do período menstrual, feridas ou verrugas genitais, cistites repetidas — sinais que exigem avaliação; automedicação com antibióticos ou antifúngicos sem diagnóstico mascara infecções e gera resistência.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o valor da reportagem está na simplicidade. "Não é sobre técnica nem sobre moral; é sobre três minutos depois do sexo: tirar a camisinha certo, fazer xixi, lavar por fora. Quem faz isso evita a cistite que manda milhares de mulheres ao pronto-socorro toda semana e a irritação que leva homens ao urologista. As médicas da SBU e da Febrasgo disseram em linguagem clara, sem pudor e sem sensacionalismo. É o tipo de conteúdo que deveria estar na escola e no posto de saúde — e que o portal publica porque saúde sexual é saúde, e ponto", analisa.
As recomendações sobre cuidados após a relação sexual foram publicadas pela Folha em 4 de setembro de 2026, Dia Mundial da Saúde Sexual, com orientações da urologista Karin Anzolch, da Sociedade Brasileira de Urologia, e da ginecologista Fabiane Bernardes, da Febrasgo.
Foto: Estormiz (CC0) via Wikimedia Commons.