As principais associações médicas dos Estados Unidos divulgaram na quarta-feira (2) suas próprias recomendações para as vacinas contra a gripe sazonal e a Covid-19 — uma tarefa que, historicamente, cabe aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). A iniciativa responde à confusão gerada pela política antivacina do governo Donald Trump e à perda de credibilidade do CDC desde que Robert Kennedy Jr., conhecido pelo ceticismo em relação à vacinação, assumiu o cargo de secretário da Saúde. As informações são da Folha de S.Paulo, a partir da agência AFP.
Diversas entidades — incluindo as academias americanas de pediatria e de medicina da família e a sociedade americana de doenças infecciosas — apresentaram recomendações para o calendário de vacinação do outono de 2026 no hemisfério norte. "Os pacientes precisam e merecem recomendações claras e confiáveis, baseadas nos melhores dados científicos disponíveis", afirmou Sandra Fryhofer, da American Medical Association (AMA), em coletiva de imprensa.
Por que o CDC perdeu a referência
Nos Estados Unidos, o calendário vacinal é definido por um comitê consultivo do CDC, cujas recomendações orientam médicos, planos de saúde, escolas e governos estaduais em todo o país. Em 2025, Robert Kennedy Jr. iniciou uma reforma dessa política: deixou de recomendar a vacina contra a hepatite B para todos os recém-nascidos e modificou as recomendações de vacinação contra Covid-19 e sarampo, contrariando a opinião de grande parte dos profissionais de saúde. As mudanças foram suspensas em março por um juiz federal, que considerou que o governo havia "ignorado" métodos baseados na ciência.
Mesmo com a suspensão judicial, o dano à confiança permaneceu: médicos e pacientes passaram a não saber se as orientações do CDC refletiam evidência ou orientação política. É esse vácuo que as associações tentam preencher ao publicar seus próprios calendários.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o gesto das associações é grave pelo que revela. "Quando a Academia Americana de Pediatria precisa publicar o próprio calendário de vacinas porque não confia no CDC, o sistema de saúde pública do país mais rico do mundo está quebrado na base. O CDC era a referência global — o Brasil, a OMS, todo mundo olhava para lá. Agora os médicos americanos olham para as próprias sociedades. É a medicina se organizando contra o próprio governo", avalia.
Quem é Robert Kennedy Jr.
Sobrinho do presidente John F. Kennedy e filho do senador Robert Kennedy, Robert Kennedy Jr. construiu carreira como advogado ambientalista antes de se tornar, nas últimas duas décadas, uma das vozes mais influentes do movimento cético em relação às vacinas nos Estados Unidos — associando imunizantes a autismo, tese repetidamente refutada pela ciência. Candidato independente à presidência em 2024, retirou-se e apoiou Donald Trump, que o nomeou secretário de Saúde e Serviços Humanos, pasta que supervisiona o CDC, a FDA e os Institutos Nacionais de Saúde. Desde a posse, em 2025, promoveu a substituição de integrantes do comitê consultivo de vacinas do CDC e as mudanças de recomendação que o Judiciário suspendeu.
O comitê que foi trocado
O calendário vacinal americano é elaborado pelo Comitê Consultivo de Práticas de Imunização, o ACIP — grupo de especialistas independentes que analisa evidências e recomenda ao CDC quais vacinas indicar, para quem e quando. Em 2025, Kennedy destituiu os integrantes do comitê e nomeou novos, vários deles com histórico de questionamento às vacinas. Foi esse comitê reformulado que embasou as mudanças na hepatite B, na Covid-19 e no sarampo — e é a ele que as associações médicas deixaram de reconhecer como referência. O juiz federal que suspendeu as medidas em março apontou que o processo havia "ignorado" os métodos baseados na ciência que o próprio CDC estabelece.
Sarampo de volta
As consequências já são visíveis. Desde a onda de desinformação que acompanhou a pandemia de Covid-19, as taxas de vacinação diminuíram nos Estados Unidos — e doenças que estavam sob controle voltaram. O sarampo, declarado eliminado do país em 2000, registrou surtos em vários estados nos últimos anos, com casos graves e mortes em crianças não vacinadas. A doença é uma das mais contagiosas que existem, e a cobertura vacinal precisa ficar acima de 95% para impedir sua circulação; em muitas comunidades americanas, está abaixo disso.
O caso citado pela Folha nesta semana — a ordem do secretário de Saúde para excluir registros de mortes por sarampo na Pensilvânia — mostra como a disputa sobre dados se tornou parte da política vacinal.
O que as associações recomendam
As recomendações publicadas cobrem o calendário de outono: vacina contra a gripe sazonal para todos a partir de seis meses de idade, com atenção especial a idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas; e vacina atualizada contra a Covid-19 para grupos de risco e, conforme cada entidade, para a população em geral. São orientações alinhadas ao consenso científico internacional — e ao que o próprio CDC recomendava antes de 2025.
Para o médico americano, ter essas recomendações assinadas pelas sociedades de sua especialidade dá respaldo para orientar pacientes e, em alguns casos, para que planos de saúde cubram a vacinação mesmo quando o CDC não a recomenda.
Hepatite B, Covid, sarampo: as mudanças contestadas
A vacina contra a hepatite B ao nascer é recomendada mundialmente porque a transmissão da mãe para o bebê no parto é uma das principais vias de infecção crônica — e a dose nas primeiras horas de vida a previne. Retirá-la da recomendação universal, como Kennedy fez, expõe recém-nascidos de mães não diagnosticadas. As alterações nas recomendações de Covid-19 e de sarampo seguiram a mesma lógica de reduzir a indicação, contra o parecer dos comitês técnicos — que o secretário reformulou, substituindo integrantes.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o precedente é o mais perigoso. "Não é sobre uma vacina. É sobre quem decide: o comitê de cientistas ou o secretário nomeado. Kennedy trocou o comitê, mudou as recomendações, e um juiz teve que intervir dizendo que ele ignorou a ciência. Se o governo americano pode fazer isso com hepatite B, pode fazer com qualquer vacina. As associações médicas entenderam que precisam de um calendário que não dependa de quem está no cargo", observa.
Efeito global
O CDC não influencia só os Estados Unidos. Suas recomendações são usadas como referência por agências de saúde de dezenas de países, por fabricantes de vacinas na definição de formulações e pela Organização Mundial da Saúde. O enfraquecimento de sua credibilidade abre espaço para que a desinformação vacinal, já forte nas redes sociais, ganhe verniz oficial — e para que grupos antivacina em outros países, inclusive no Brasil, citem o governo americano como respaldo.
O Brasil e o Programa Nacional de Imunizações
O Brasil tem um dos programas de vacinação pública mais amplos do mundo, o PNI, com calendário definido por comitê técnico e vacinas gratuitas nas Unidades Básicas de Saúde. A cobertura vacinal caiu no país durante a pandemia e vem se recuperando, mas o sarampo — eliminado, reintroduzido em 2018 e eliminado novamente — mostra a fragilidade do controle quando a cobertura recua. O que acontece nos Estados Unidos serve de alerta: a decisão política pode desmontar em meses o que décadas de saúde pública construíram.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a lição é institucional. "O PNI brasileiro funciona porque o calendário é técnico, gratuito e universal, e porque a decisão não passa pelo ministro do momento. Os Estados Unidos mostram o que acontece quando passa. As sociedades médicas americanas estão fazendo o papel que o Estado abandonou. No Brasil, o Estado ainda faz o papel dele — e a sociedade precisa garantir que continue fazendo, independentemente de quem governa", analisa.
As recomendações das associações médicas americanas para o outono de 2026 estão disponíveis nos sites das entidades. A decisão judicial que suspendeu as mudanças do governo nas recomendações do CDC segue em vigor.
Foto: Ajay Kumar Chaurasiya (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.