As mortes recentes de Gabriel Ganley, Mailson Araújo e Dwayne Quamina por cardiopatias acenderam um alerta entre usuários de anabolizantes para fins estéticos — e aumentaram a procura por programas de desmame. É o que observa Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e coordenador do "Saindo do Suco", iniciativa do Núcleo de Endocrinologia da Disciplina de Medicina Esportiva da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp. Gratuito e anônimo, o programa multiprofissional atende 140 pessoas e tem mais de 200 na fila de espera. As informações são do blog Não Tem Cabimento, da Folha de S.Paulo.
Segundo Macedo, as mortes fazem repensar o uso dessas substâncias. A maioria dos que procuram tratamento chega por medo dos efeitos colaterais ou por incentivo de pessoas próximas — e encontra um processo que exige suporte médico, nutricional, físico e psicológico, porque a retirada dos esteroides envolve o corpo e a mente ao mesmo tempo.
O que são anabolizantes e o que fazem no corpo
Os anabolizantes são derivados naturais ou sintéticos da testosterona. Aumentam a síntese de proteínas e a massa muscular e têm efeito androgênico — masculinizante —, explica Carlos Minanni, endocrinologista do Hospital Albert Einstein. Testosterona, oxandrolona, estanozolol, boldenona e trembolona estão entre os mais conhecidos; parte deles não é aprovada para uso humano e é obtida clandestinamente. A Anvisa lista os anabolizantes sob controle especial na categoria C5.
Os efeitos vão muito além do músculo. As drogas elevam o hematócrito — a proporção de glóbulos vermelhos no sangue —, tornam o sangue mais viscoso e aumentam a pressão arterial e o risco de trombos. Há risco de cardiomiopatia, em que o músculo cardíaco adoece, se deforma e passa a exigir mais esforço para bombear, podendo causar morte súbita mesmo em jovens sem histórico de doença. Fígado e rins também podem ser afetados.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a fila de 200 pessoas é o dado que resume a história. "Um programa gratuito, anônimo, numa universidade pública, com 140 em tratamento e 200 esperando. Isso mostra duas coisas: que o uso de anabolizante para estética é muito maior do que se admite, e que parte dos usuários quer sair e não sabe como. As mortes de três fisiculturistas jovens fizeram o que anos de alerta médico não fizeram — assustar. O que falta agora é oferta de tratamento para quem se assustou", avalia.
O cérebro também paga
De acordo com Bruno Leandro de Souza, médico do Conselho Federal de Medicina, há risco de depressão e de surto psicótico em pessoas predispostas. Irritabilidade, insônia, impulsividade e ansiedade podem ser potencializadas em quem já convive com esses quadros. É um efeito menos visível que o cardíaco, mas frequente — e que complica o desmame, porque a retirada da substância pode agravar temporariamente o humor.
Dismorfia: o corpo que nunca é suficiente
Paulo Muzy, médico e fisiculturista, alerta que programas de desmame não devem reforçar preconceitos nem falar apenas entre pares, sob risco de ineficácia — o acolhimento profissional é essencial. Ele descreve o mecanismo psicológico que sustenta o uso: "A pessoa usa o esteroide na esperança de se conectar consigo, mas, sob o transtorno dismórfico, essa ideia de si é uma fantasia". A distorção da autoimagem, associada a predisposições individuais, alimenta a busca por um físico irreal. "Além de o consumo de anabolizantes piorar a saúde de forma evidente, os medicamentos sozinhos não produzem resultado", explica.
O transtorno dismórfico corporal — a percepção obsessiva de defeitos que os outros não veem — é frequente entre usuários de esteroides para estética e é uma das razões pelas quais o desmame exige psicoterapia: retirar a droga sem tratar a distorção costuma levar à recaída.
Por que é tão difícil parar
O medo de mudanças na aparência é o principal obstáculo. Os anabolizantes podem inibir a produção natural de testosterona nos homens, e a recuperação exige acompanhamento multidisciplinar — quando acontece. Entre 13 mil homens tratados por Muzy desde 2005, apenas dois voltaram a produzir testosterona nativa, segundo o médico. Homens podem desenvolver atrofia testicular, infertilidade e crescimento das mamas. Em mulheres, a virilização pode ser irreversível: voz mais grossa, acne e hipertrofia do clitóris.
O dado de Muzy — dois em 13 mil — significa que a maioria dos usuários de longo prazo se torna dependente de reposição hormonal para o resto da vida, sob supervisão médica, porque o corpo deixou de produzir o que produzia antes. O desmame, nesses casos, não é voltar ao normal; é substituir o uso clandestino por tratamento controlado.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, esse é o número que deveria estar em toda academia. "Treze mil homens, dois recuperaram a produção natural. Isso não é efeito colateral, é mutilação hormonal permanente. O jovem que começa um 'ciclo' aos 22 anos por causa do Instagram não sabe que está desligando um sistema que provavelmente não volta. A pergunta não é se ele vai ter cardiomiopatia; é se ele vai precisar de injeção de testosterona aos 60 para funcionar. E a resposta, para quase todos, é sim", observa.
"Não existe dose segura"
"Não existe dose segura", diz Clayton Macedo. A Resolução CFM nº 2.333/2023 proíbe a prescrição de esteroides, hormônios androgênicos, SARMs e gestrinona — o "chip da beleza" — para fins de desempenho ou estética. Ciclos, alternância ou adição de produtos, prática comum entre usuários que acreditam "proteger" o corpo, não protegem os órgãos e agravam os danos cardiovasculares, hepáticos e renais.
Outra crença falsa é a de que fazer exames regulares durante o uso previne complicações. "Não é verdade", alerta Bruno Leandro de Souza. O exame detecta o dano; não o impede. Em casos específicos e com cuidados associados, o tratamento com hormônios como a testosterona pode ser indicado — para deficiência diagnosticada, por exemplo. "Mas dificilmente um hormônio resolve sozinho uma questão de saúde", conclui.
Como funciona o desmame
Programas como o Saindo do Suco combinam avaliação médica — cardiológica, hepática, renal, hormonal —, redução gradual ou substituição controlada da substância, acompanhamento nutricional para manter massa muscular sem droga, treino orientado e psicoterapia para a dismorfia e os sintomas de humor. O anonimato é parte do desenho: muitos usuários são profissionais, pais de família ou atletas que não querem exposição. A gratuidade é o que permite atender quem não tem como pagar endocrinologista e psicólogo particulares.
O tempo de desmame varia: semanas para quem usou pouco e por pouco tempo, meses ou anos para quem fez ciclos repetidos. A equipe monitora exames de sangue, pressão e função cardíaca ao longo do processo, e a alta só vem quando o corpo demonstra estabilidade sem a substância — ou quando a reposição controlada está ajustada.
Os nomes que mudaram o debate
As mortes de Gabriel Ganley, Mailson Araújo e Dwayne Quamina, jovens ligados ao fisiculturismo, tiveram repercussão nas redes sociais e nas academias — o ambiente em que o uso de anabolizantes é normalizado e, muitas vezes, incentivado. É esse impacto que Macedo observa na procura pelo programa: o susto coletivo abriu uma janela para o tratamento. A questão é se a oferta — um programa universitário com fila de 200 — dará conta da demanda que a janela criou.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a resposta precisa ser de sistema. "Um programa na Unifesp é excelente, e não é suficiente. Se três mortes geraram 200 pessoas na fila em São Paulo, imagine o Brasil inteiro. O SUS deveria ter protocolo de desmame de anabolizante na atenção secundária, com endocrinologista e psicólogo, como tem para álcool e tabaco. O uso é epidêmico, o dano é permanente e a vontade de parar existe. O que falta é onde parar", analisa.
O programa Saindo do Suco, da Unifesp, é gratuito e anônimo. Informações sobre inscrição na fila de espera podem ser obtidas com o Núcleo de Endocrinologia da Disciplina de Medicina Esportiva da Escola Paulista de Medicina.
Foto: Rwendland (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.