Saúde

No México, cogumelos alucinógenos aproximam tradição ancestral e pesquisa científica

'Quando encontrávamos o primeiro, cantávamos uma oração e o comíamos', conta Alejandrina, curandeira mazateca; um Derrumbe é dose pequena — são necessários ao menos dez para efeito.

No México, cogumelos alucinógenos aproximam tradição ancestral e pesquisa científica

Agosto é sinônimo de colheita de cogumelos no México, mas não de qualquer tipo: embora o país ostente uma variedade de fungos comestíveis, abriga 25% das espécies alucinógenas do mundo. Esses cogumelos, que contêm psilocibina, são utilizados por povos indígenas como medicina tradicional desde tempos imemoriais — e despertam o interesse da comunidade científica. As informações são da Folha.

Alejandrina abre caminho pela vegetação densa da floresta da Sierra Mazateca, no sul do México, que conhece como a palma da mão; foi nessa cadeia de montanhas que nasceu, cresceu e aprendeu a curar com plantas e cogumelos. "Quando eu era pequena, costumávamos ir colher cogumelos. Quando encontrávamos o primeiro, cantávamos e recitávamos uma oração para ele. Depois, fazíamos a comunhão, ou seja, nós o comíamos. Em seguida, dizíamos a ele: 'Mostre-me onde estão seus irmãos'. Eles então nos guiavam até sua família. Havia tantos deles", relembra. Membro da comunidade indígena mazateca, que vive nessas montanhas há milhares de anos, ela coleta na estação chuvosa, de junho a agosto, os cogumelos que crescem em abundância nas florestas úmidas. "Olhe, aquele é um cogumelo medicinal. É um Derrumbe, uma espécie nativa desta região. Este exemplar representa apenas uma dose pequena. Para uma pessoa, são necessários pelo menos dez para sentir algum efeito", explica. "Usamos essa medicina desde tempos imemoriais para prevenir doenças, para estar em sintonia com nosso ambiente e nossos corpos e para nos lembrar de que somos simplesmente natureza." Há 70 anos, essa medicina ancestral ganhou fama mundial quando a revista americana Life publicou uma reportagem sobre María Sabina, uma das xamãs da comunidade; Bob Dylan, John Lennon, Jim Morrison e outras celebridades foram à Sierra Mazateca experimentar a substância, e o uso se disseminou — até que, em 1970, o governo dos Estados Unidos decidiu proibi-lo. A psiquiatra Rebeca Espinosa estuda os cogumelos e seu composto ativo: "Os cogumelos com psilocibina são classificados como substâncias da Lista I, a categoria mais restritiva para substâncias controladas. Isso significa que são considerados perigosos ou nocivos, sem potencial terapêutico ou médico. Consequentemente, não podem sequer ser objeto de pesquisas científicas no México".

De María Sabina a Johns Hopkins: a volta da psilocibina à medicina — menos no país que a guarda

A reportagem da Life de 1957, escrita pelo banqueiro e etnomicólogo Gordon Wasson após participar de uma velada com María Sabina em Huautla de Jiménez, apresentou ao Ocidente o "cogumelo mágico", e a década seguinte transformou a curandeira mazateca em atração de contracultura — ela morreu pobre em 1985, lamentando que a peregrinação de estrangeiros tivesse profanado o ritual — e a psilocibina em substância proibida pela Convenção da ONU de 1971, sob pressão americana, o que congelou por quarenta anos a pesquisa que Sandoz e universidades haviam começado; a partir de 2006, a Universidade Johns Hopkins retomou os estudos com protocolos rigorosos, e em quinze anos a psilocibina tornou-se a substância psicodélica mais estudada do mundo, com ensaios clínicos mostrando redução rápida e duradoura de depressão resistente, ansiedade em pacientes terminais, dependência de álcool e tabaco e transtorno obsessivo-compulsivo — resultados que levaram a FDA a conceder o status de "terapia inovadora" em 2018 e 2019, o Oregon a regulamentar o uso terapêutico em 2020, a Austrália a autorizar psiquiatras a prescrever em 2023, e dezenas de empresas e universidades, inclusive brasileiras, a investir no que se chama de "renascimento psicodélico". O paradoxo que a Folha descreve é que o México, dono de um quarto das espécies e da tradição que originou tudo, mantém a psilocibina na Lista I e proíbe até a pesquisa — enquanto o Canadá, os Estados Unidos e a Europa patenteiam formulações sintéticas e protocolos derivados do conhecimento mazateco, sem que a comunidade de Alejandrina receba reconhecimento ou benefício; é a mesma tensão que o Brasil vive com a ayahuasca, o rapé e as plantas indígenas, entre a proteção do saber tradicional, a regulação sanitária e o mercado. No Brasil, a psilocibina é proibida pela Anvisa, mas ensaios clínicos autorizados avançam na USP, na Unifesp e no Rio, com foco em depressão — e o uso ritual e "microdose" cresce à margem da lei.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem é sobre quem é dono do conhecimento. "Uma curandeira mazateca colhe dez cogumelos na chuva e diz que servem para lembrar que somos natureza; setenta anos depois de a Life transformar sua antecessora em atração de hippie, a psilocibina está em ensaio clínico em Baltimore, Londres e São Paulo, com patente de empresa — e proibida no México até para pesquisa. A ciência confirma o que a tradição sabia: funciona para depressão que nada mais trata. O que não confirma é quem vai ganhar com isso. O portal registra o paradoxo e a lição para o Brasil, que tem ayahuasca, jurema e a mesma pergunta: como regular o remédio sem roubar o saber? A resposta começa por ouvir Alejandrina", avalia.

Psilocibina: o composto e o efeito

Alcaloide presente em mais de 200 espécies de cogumelos, convertido no organismo em psilocina, que age em receptores de serotonina e altera percepção, humor e conectividade cerebral por quatro a seis horas; em contexto terapêutico, com preparação e acompanhamento, ensaios mostram efeito antidepressivo rápido e persistente após uma ou duas sessões.

A Sierra Mazateca e o povo mazateco

Região montanhosa de Oaxaca, com florestas úmidas onde crescem espécies como o Derrumbe; o povo mazateco, de língua própria e tradição de cura por plantas e fungos, usa os cogumelos em veladas noturnas com canto e oração, conduzidas por curandeiras — a tradição que María Sabina tornou conhecida e que a comunidade tenta proteger do turismo psicodélico.

María Sabina e a Life: 1957

A reportagem de Gordon Wasson revelou a velada ao mundo, atraiu celebridades e curiosos a Huautla, e transformou a curandeira em ícone — e em vítima: perseguida por vizinhos e autoridades, morreu na pobreza em 1985, arrependida de ter aberto o ritual a estrangeiros. A comunidade lembra a história como aviso.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a fala da psiquiatra mexicana é a mais reveladora. "'Não podem sequer ser objeto de pesquisa' — no país que tem um quarto das espécies e a tradição de uso mais antiga documentada. Enquanto isso, Johns Hopkins publica, a FDA acelera, o Oregon licencia e empresas patenteiam. O México proíbe por herança da guerra às drogas americana de 1970, e o conhecimento mazateco vira propriedade intelectual de outros. O portal registra e lembra que o Brasil está no mesmo cruzamento: proíbe a substância, autoriza ensaios a conta-gotas e assiste a estrangeiros patentearem o que os povos daqui sabem há séculos", observa.

Lista I: a proibição e seus efeitos

Classificação de substâncias "sem uso médico e com alto potencial de abuso", herdada da Convenção de 1971; no México, impede pesquisa acadêmica e cultivo, empurra o uso para a informalidade e o turismo psicodélico e deixa as comunidades sem proteção legal para a prática ritual — situação que pesquisadores como Rebeca Espinosa tentam mudar.

O renascimento psicodélico: a ciência desde 2006

Johns Hopkins, Imperial College, NYU e dezenas de centros publicaram ensaios com psilocibina para depressão resistente, ansiedade em câncer terminal, dependência e TOC; a FDA deu status de terapia inovadora; Oregon, Colorado e Austrália regulamentaram o uso clínico; empresas farmacêuticas desenvolvem versões sintéticas e patenteadas.

Brasil: proibição, ensaios e uso à margem

A psilocibina é proibida pela Anvisa, mas ensaios clínicos autorizados para depressão avançam em universidades paulistas e cariocas; o uso ritual, o cultivo caseiro e a "microdose" crescem sem regulação; a ayahuasca, liberada para uso religioso desde 2010, é o precedente de convivência entre tradição e lei que o país já construiu.

Saber tradicional e patente: a disputa

Comunidades indígenas do México, do Brasil e de outros países reivindicam reconhecimento e repartição de benefícios sobre conhecimentos que a indústria transforma em produto — princípio da Convenção da Biodiversidade que raramente se aplica a substâncias psicoativas; a história de María Sabina é o exemplo do que acontece sem proteção.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a reportagem mostra a ciência chegando atrasada ao óbvio. "Os mazatecos usam cogumelo para 'estar em sintonia com o ambiente e o corpo' há milênios; a psiquiatria descobre em 2020 que a psilocibina trata depressão. Não é milagre, é farmacologia que a proibição de 1970 escondeu por meio século. O portal registra a colheita de Alejandrina e a Lista I do México como o retrato de uma política de drogas que pune o remédio e protege a ignorância. Que a pesquisa avance — e que a Sierra Mazateca seja parte dela, não só a origem", analisa.

A reportagem sobre o uso tradicional e o interesse científico pelos cogumelos com psilocibina no México, com a curandeira mazateca Alejandrina e a psiquiatra Rebeca Espinosa, foi publicada pela Folha em 2 de setembro de 2026; o país abriga 25% das espécies alucinógenas do mundo, e a substância permanece na Lista I, o que impede até a pesquisa científica.

Foto: U.S. Army photo by 1st Lt. Catherine Bean (Public domain) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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