Saúde

São Paulo tem 81 cidades em epidemia de dengue, mas casos e mortes caem mais de 90% em relação

Painel da Secretaria Estadual aponta 58.271 casos e 41 mortes até 1º de setembro; El Niño e suspensão da vacina do Butantan preocupam para a primavera e o verão.

São Paulo tem 81 cidades em epidemia de dengue, mas casos e mortes caem mais de 90% em relação

Dos 645 municípios do estado de São Paulo, 81 — o equivalente a 12,5% — estão em situação de epidemia de dengue, segundo o Painel de Arboviroses da Secretaria Estadual da Saúde, com dados atualizados até 1º de setembro. As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo. O número, embora expressivo, representa uma melhora drástica em relação aos dois anos anteriores: em 2025, no mesmo período, 553 cidades paulistas enfrentavam epidemia, e em 2024, o ano mais crítico da doença na história recente do Brasil, eram 590.

A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde consideram epidemia quando a incidência ultrapassa 300 casos por 100 mil habitantes. O cálculo é simples: multiplica-se o número de casos novos por 100 mil e divide-se pela população da área analisada. É esse coeficiente que permite comparar municípios de tamanhos muito diferentes na mesma régua — e é por ele que uma cidade pequena com poucas dezenas de casos pode aparecer em epidemia enquanto a capital, com quase 10 mil registros, fica longe do limiar.

Os números de 2026 em perspectiva

Em termos absolutos, o estado confirmou 58.271 casos e 41 mortes por dengue até 1º de setembro de 2026. A comparação com os anos anteriores dá a dimensão da mudança: em 2025 foram 855.132 casos e 1.112 óbitos, e em 2024, 2 milhões de casos e 2.129 mortes. Ou seja, o número de casos deste ano corresponde a menos de 7% do registrado no ano passado, e as mortes caíram para menos de 4%.

A queda acentuada acompanha um padrão conhecido da epidemiologia das arboviroses: anos de transmissão explosiva costumam ser seguidos por períodos de menor incidência, em parte porque uma parcela maior da população adquiriu imunidade ao sorotipo circulante, em parte pelas condições climáticas e pela intensificação das ações de controle após a crise. Isso não significa que o risco tenha desaparecido — significa que o ciclo está em outra fase.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a leitura correta dos dados exige cuidado com os dois extremos. "Comemorar a queda de 90% é justo, mas 81 cidades em epidemia em setembro, antes das chuvas, não é um número pequeno. O que os dados mostram é um estado que saiu do colapso de 2024 e 2025, mas que ainda tem focos ativos em todas as regiões. A pergunta relevante não é sobre o passado, é sobre o que acontece quando o calor e a chuva voltarem", avalia.

Onde a dengue está mais concentrada

A incidência mais alta do estado é a do município de São João do Pau D'Alho, no Departamento Regional de Saúde (DRS) de Presidente Prudente, no oeste paulista. A prefeitura local afirma realizar ações constantes de orientação e combate à doença. A lista dos 81 municípios em epidemia, divulgada pela Folha, mostra uma concentração clara no interior, especialmente nas regiões de Araçatuba, Marília, Presidente Prudente e São José do Rio Preto — áreas de clima quente que historicamente registram transmissão intensa.

O DRS de Presidente Prudente reúne o maior número de cidades em epidemia, com nomes como Dracena, Junqueirópolis, Pirapozinho, Teodoro Sampaio e Tupi Paulista. No DRS de São José do Rio Preto aparecem, entre outros, a própria cidade de São José do Rio Preto, Catanduva e Votuporanga. Na região de Araçatuba, estão em epidemia municípios como Araçatuba, Birigui e Andradina. O DRS de Marília inclui Assis, Vera Cruz e Parapuã, e o de Taubaté registra Jacareí, Taubaté, Tremembé, Ubatuba e Monteiro Lobato.

A cidade de São Paulo, por sua vez, não se aproxima do índice epidêmico. Com 9.805 casos confirmados, três mortes e incidência de 86,02 por 100 mil habitantes, a capital está bem abaixo do limiar de 300. O único distrito paulistano em epidemia é Cidade Tiradentes, na zona leste, com incidência de 393,1 por 100 mil habitantes — um dado que ilustra como a doença se distribui de forma desigual mesmo dentro de um único município.

El Niño: o risco que se aproxima

O ponto de maior atenção para os próximos meses é climático. Segundo especialistas ouvidos pela Folha, o fenômeno El Niño pode elevar os casos de dengue no país já a partir deste mês, com o Sul e o Sudeste — regiões que concentram a maior parte da população brasileira — sob maior risco de surtos. No estado de São Paulo, o El Niño costuma estar associado ao aumento das temperaturas, à irregularidade das chuvas e à maior probabilidade de temporais, vendavais, alagamentos, enchentes e deslizamentos, principalmente durante a primavera e o verão.

A combinação de chuva e calor é exatamente o cenário favorável à proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, da zika e da chikungunya. Água parada em recipientes, temperaturas elevadas que aceleram o ciclo de vida do inseto e umidade alta formam o ambiente ideal para a explosão de criadouros.

O governo paulista lançou recentemente o Plano Estadual de Preparação e Resposta em Saúde para o Fenômeno El Niño, uma tentativa de antecipar as ações de vigilância e assistência antes que a curva de casos volte a subir. As atividades de conscientização, prevenção e controle das arboviroses são executadas pelos municípios no âmbito do SUS, o que torna a capacidade de resposta muito variável de uma cidade para outra.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o plano estadual chega no momento certo, mas depende da ponta. "Plano de governo estadual é diretriz. Quem mata mosquito é o agente de saúde do município, com o orçamento que a prefeitura tem. A diferença entre uma cidade que vai passar bem pelo verão e outra que vai voltar à epidemia está na quantidade de visitas domiciliares feitas em setembro e outubro, não em dezembro, quando já é tarde", observa.

Vacina do Butantan suspensa; Qdenga segue disponível

No campo da imunização, a situação é de transição. A vacinação com a Butantan-DV — o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, que despertava expectativa por ser de dose única — permanece suspensa temporariamente após casos graves de reações adversas, segundo a Folha. A suspensão retira, ao menos por ora, uma ferramenta que era vista como decisiva para ampliar a cobertura vacinal em larga escala.

Continua disponível a Qdenga, da farmacêutica Takeda, para adolescentes entre 10 e 14 anos, em esquema de duas doses com intervalo de três meses. As vacinas estão disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A faixa etária restrita e a necessidade de duas doses limitam o alcance da estratégia, o que reforça o peso das medidas tradicionais de controle do mosquito na prevenção dos próximos meses.

Sintomas e sinais de alarme

A dengue costuma começar com febre alta de início súbito, acompanhada de dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores musculares e nas articulações, cansaço intenso e, em parte dos casos, manchas vermelhas na pele. Os sintomas duram em geral de dois a sete dias. O período de maior atenção é justamente quando a febre cede: é nessa fase que podem surgir os sinais de alarme que indicam evolução para a forma grave — dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos de gengiva ou nariz, sonolência ou irritabilidade, queda de pressão e diminuição da urina.

Diante de qualquer um desses sinais, a orientação do Ministério da Saúde é procurar atendimento imediatamente. A hidratação abundante desde o início dos sintomas e a proibição de medicamentos à base de ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios, que aumentam o risco de sangramento, são as duas condutas básicas que fazem diferença no desfecho.

O que o cidadão pode fazer

Com a vacinação restrita e o El Niño no horizonte, as orientações das autoridades de saúde voltam ao básico: eliminar água parada em vasos, pneus, calhas, caixas d'água destampadas e qualquer recipiente que acumule chuva; manter lixo ensacado e fechado; e procurar atendimento ao primeiro sinal de febre alta, dor no corpo, dor atrás dos olhos ou manchas na pele. A dengue tem tratamento de suporte, e o diagnóstico precoce é o principal fator para evitar a evolução para as formas graves da doença.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o momento é de aproveitar a trégua. "Os números de 2026 são a janela de oportunidade que o estado não teve em 2024. Com 58 mil casos em vez de 2 milhões, há tempo, há estrutura livre e há orçamento para agir antes da temporada de chuvas. Se o verão voltar a ser de epidemia generalizada, não será por falta de aviso — será por falta de ação nos meses em que ela era mais barata", analisa.

Os dados do Painel de Arboviroses da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo são atualizados periodicamente e permitem acompanhar, município a município, a evolução da incidência ao longo do ano.

Foto: Original author: US Department of Agriculture; then denoised rescaled, enhanced with adaptive denoising filters and mini (Public domain) via Wikimedia Commons.

TM
Escrito por

Thiago Baptista Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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