Começou nesta quarta-feira, 9 de setembro, o ciclo do Brasil para a Copa do Mundo de 2030. Carlo Ancelotti convocou 26 jogadores, dos quais nove estiveram no Mundial — além de Wesley, cortado dias antes. A lista tem muitos novatos, alguns dos quais o torcedor precisa recorrer à internet para saber quem são ou onde atuam. As informações são da coluna de Marcelo Bechler, na Folha de S.Paulo.
Entre os que participaram da Copa estão Douglas Santos, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Danilo, Vinicius, Endrick, Raphinha e Ryan. Entre os menos conhecidos aparecem Pedro Morisco, goleiro do Coritiba; Mauro Junior, lateral-esquerdo de 27 anos que fez toda a carreira no PSV; Arthur Dias, zagueiro do Athletico; e Jair, que passou por Santos e Botafogo antes de se transferir para o Nottingham Forest. A avaliação do colunista é que o novo Brasil não está e não precisa estar pronto: o momento é de desintoxicação da Copa, de pescar alguma boa novidade e de tentar observar um caminho de como o time deve jogar. Os amistosos serão contra Austrália e Índia, fora de casa, numa Data Fifa que chega ao fim de uma temporada desgastante para os jogadores do futebol brasileiro.
Uma lista que é diagnóstico, não escalação
Convocações de início de ciclo cumprem função distinta das que antecedem competições: servem para ampliar o repertório de opções, testar jogadores em ambiente de seleção e verificar quem sustenta o nível de exigência. É por isso que a presença de nomes pouco conhecidos do grande público não deveria surpreender — ela é a própria razão de ser da lista. O colunista reconhece que pode haver relutância em ver, logo após mais uma eliminação traumática, jogadores desconhecidos numa convocação. Mas argumenta que, além dos que estiveram no Mundial e formam uma base consistente, há apostas com fundamento: Breno Bidon pode ser o meio-campista de toque que faltou à equipe; Estêvão, que seria titular, está recuperado de lesão; Samuel Lino faz ótima temporada e merece estar; e as voltas de Pedro e João Pedro são positivas.
Os nove remanescentes da Copa
Douglas Santos, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Danilo, Vinicius, Endrick, Raphinha e Ryan formam o núcleo de continuidade. É uma base sólida em posições sensíveis — laterais, zaga, meio-campo de marcação e ataque —, o que dá ao treinador liberdade para experimentar nas funções em que a Copa expôs carência sem desmontar a estrutura da equipe.
Os estreantes e de onde vêm
Pedro Morisco defende o Coritiba; Mauro Junior, de 27 anos, construiu toda a carreira no PSV, da Holanda; Arthur Dias atua no Athletico; e Jair, revelado no Santos e passado pelo Botafogo, hoje joga no Nottingham Forest, da Inglaterra. O perfil misto — dois do futebol brasileiro e dois formados ou consolidados na Europa — indica que o critério de observação não se restringiu aos campeonatos de maior visibilidade.
Os nomes que ficaram de fora e poderiam estar
Na avaliação do colunista, Kaiki Bruno, ex-Cruzeiro e hoje no Como, da Itália, João Gomes, ex-Flamengo e atualmente no Aston Villa, e Mateus Martinelli, do Fluminense, poderiam figurar entre os convocados. São ausências que não configuram erro, mas indicam que a lista de observados é maior do que os 26 nomes e que a rotação deve continuar nas próximas convocações.
Por que não há mais jogadores do futebol brasileiro
O treinador poderia ter optado por uma lista com mais atletas que atuam no Brasil, o que resgataria alguma identidade com o torcedor. O obstáculo, porém, é logístico: seria preciso que os jogos ocorressem em solo brasileiro, e não na Oceania ou na Ásia. Além disso, o fim de temporada do futebol nacional, com Brasileiro e competições continentais em fase decisiva, não convida ao desgaste adicional gerado por uma Data Fifa distante.
Os adversários: Austrália e Índia
Os amistosos serão disputados fora de casa, contra seleções de nível técnico inferior ao brasileiro. Do ponto de vista competitivo, oferecem pouca resistência; do ponto de vista de trabalho, permitem exatamente o que um início de ciclo demanda — minutos para observar comportamentos, testar combinações e avaliar quem se adapta ao ambiente da seleção sem a pressão de um resultado decisivo.
Ancelotti e a adaptação a um cargo diferente de tudo que fez
O italiano construiu a carreira em clubes, ambiente em que o treinador convive diariamente com o elenco, trabalha padrões em sessões sucessivas e corrige rota ao longo de uma temporada inteira. Uma seleção nacional oferece o oposto: poucos dias de trabalho por ano, jogadores que chegam desgastados de competições distintas e a impossibilidade de contratar quem falta. O ajuste a essa realidade é o desafio central de qualquer técnico estrangeiro de renome que assume um selecionado, e explica por que treinadores vitoriosos em clubes nem sempre repetem o desempenho em Copas. No caso brasileiro, soma-se a distância geográfica: boa parte dos convocados atua na Europa, enquanto o campeonato nacional segue calendário próprio, o que torna a observação presencial de jogadores do futebol brasileiro um exercício logístico complexo.
Um time base já esboçado
O colunista sugere uma formação inicial possível: Hugo; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Bruno Guimarães, Breno Bidon e Estêvão; Raphinha, Vinicius e Pedro. Ressalva que Wesley foi cortado dias antes da convocação, mas defende que o desenho não é uma base a se jogar fora para um começo de trabalho.
Breno Bidon e a lacuna do meio-campo
A avaliação de que Bidon pode ser "o meio-campista de toque que nos faltou" aponta para o diagnóstico mais recorrente sobre a eliminação: a dificuldade de construir jogo em espaços curtos diante de defesas organizadas. É a função que exige mais tempo de maturação num ciclo, porque depende de entrosamento e de leitura coletiva, não apenas de qualidade individual.
Estêvão recuperado e o peso da lesão
Apontado como titular antes da lesão, Estêvão retorna recuperado. Sua reintegração é uma das notícias mais relevantes da lista, porque devolve ao elenco um jogador cuja ausência alterou o desenho ofensivo previsto para a Copa e cuja evolução recente sustenta expectativa alta para o ciclo que se inicia.
A eliminação para a Noruega como marco
O ciclo começa poucos meses após a eliminação nas oitavas de final do Mundial diante da Noruega, resultado que interrompeu de forma abrupta as expectativas da comissão técnica e da torcida. É desse ponto que Ancelotti parte: com uma base identificada, uma lacuna de criação a resolver e quatro anos até 2030.
O que a Data Fifa de setembro representa
Primeira janela após o Mundial, ela funciona como marco simbólico de virada de página. Nenhum resultado obtido contra Austrália ou Índia alterará a avaliação sobre a seleção, mas a forma como o time se organiza em campo dará os primeiros indícios sobre o modelo de jogo que o treinador pretende implantar.
O que significa começar um ciclo de quatro anos
Ciclos de Copa obedecem a uma cronologia razoavelmente previsível. O primeiro ano é de observação ampla, com listas rotativas, testes de função e acúmulo de informação sobre jogadores que raramente teriam chance numa convocação de competição. O segundo concentra a definição de um modelo de jogo e a redução progressiva do grupo observado. O terceiro é dominado pelas Eliminatórias, quando os resultados voltam a pesar e a experimentação cede lugar à busca por regularidade. O quarto é de ajuste fino e escolha final. Compreender essa lógica é o que separa a leitura ansiosa da leitura informada de uma convocação como esta: cobrar de setembro de 2026 as respostas que só existirão em 2029 é o erro que costuma consumir treinadores da seleção brasileira antes do tempo, e foi justamente o que Ancelotti procurou evitar ao montar uma lista deliberadamente aberta.
O que observar nos próximos meses
Três pontos definirão o rumo do ciclo: se os estreantes convocados se sustentam nas próximas listas, se o meio-campo de criação encontra dono e se o treinador consegue equilibrar a base europeia com jogadores do futebol brasileiro em janelas realizadas fora do continente. As respostas começam a aparecer nos dois amistosos desta Data Fifa.
A convocação de 26 jogadores por Carlo Ancelotti para o início do ciclo rumo à Copa do Mundo de 2030 foi anunciada em 9 de setembro de 2026 e analisada pela coluna de Marcelo Bechler, na Folha de S.Paulo. Os amistosos serão disputados contra Austrália e Índia, fora de casa.
Foto: Abcdmrr (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.