O Atlético-MG vive um período de azar no departamento médico. Com três zagueiros lesionados, o técnico Eduardo Domínguez recorreu aos jovens do setor, e Pedro Lemos, de 20 anos, virou opção — e pode ganhar chance diante do São Paulo, neste sábado, às 18h30 de Brasília, no Morumbis, pelo Brasileirão. Os titulares seguem em recuperação: Ruan Tressoldi, com lesão no músculo posterior da coxa esquerda, e Lyanco, com ruptura da fáscia plantar do pé esquerdo. Léo Duarte, que sequer estreou pelo Galo, trata lesão na região posterior da coxa direita. As informações são do ge.
Com isso, Vitor Hugo e Vitão devem começar a partida, e Lemos passa a ser a primeira opção como zagueiro de origem no banco. O jogador ainda não estreou pelo profissional, mas acumula 22 jogos pelo sub-20 entre 2025 e 2026 e foi relacionado pela primeira vez no empate sem gols com o Internacional, pela 24ª rodada. Desde então, treina com o elenco principal na Cidade do Galo.
De Palmas à Cidade do Galo
Pedro Henrique Lemos Barbosa nasceu em Palmas, no Tocantins, em 19 de abril de 2006. Zagueiro destro, tem 1,90 m e, segundo a avaliação interna do clube, boa saída de bola e forte dedicação nos treinamentos. Foi captado por Luiz Carlos Azevedo, hoje gerente da base do Atlético, quando o dirigente ainda trabalhava no Flamengo: os dois se conheceram em 2021, quando Lemos atuava na Ferroviária, de Araraquara, ainda no sub-16. "Na época, chamava atenção pela velocidade e boa saída de jogo", contou Azevedo ao ge.
No ano seguinte, Lemos foi para o Flamengo, onde jogou pelo sub-17. Em 2024, subiu ao sub-20, mas não ganhou espaço. O Atlético entrou na negociação em 2025, com o objetivo de dar mais minutos ao jogador, e firmou parceria com o Flamengo na divisão dos direitos econômicos para trazê-lo a Belo Horizonte. O contrato vai até dezembro de 2027.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a história de Lemos é a rota alternativa que a base brasileira precisa. "Zagueiro de 1,90 m, saída de bola, sub-20 do Flamengo — e sem espaço, porque o Flamengo tem dez desses. Em vez de mofar na base ou ser emprestado para a Série C, o Atlético o pegou com divisão de direitos, deu 22 jogos de sub-20 e agora, por necessidade, o coloca no banco do profissional. O Flamengo mantém parte do passe e lucra se ele explodir; o Galo tem um zagueiro barato pronto para usar. É negócio bom para os dois — e para o garoto, que aos 20 anos está a uma lesão de estrear no Brasileirão", avalia.
A parceria com o Flamengo
A divisão de direitos econômicos entre clubes é mecanismo cada vez mais comum na base brasileira: o clube formador cede o jogador sem se desfazer totalmente do ativo, e o clube de destino oferece minutos e desenvolvimento. Se o atleta valorizar, os dois ganham na venda; se não, o custo foi baixo para ambos. No caso de Lemos, o processo de transição foi alinhado com Paulo Bracks, vice-presidente de futebol do Atlético, e com a comissão técnica — sinal de que o clube o vê como projeto, não como preenchimento de elenco.
"É muito focado e dedicado aos treinos, nesse contexto ficamos muito felizes com a oportunidade dele ser relacionado para alguns jogos do profissional", disse Azevedo.
Ferroviária: onde começou
A Ferroviária de Araraquara, no interior paulista, é um dos clubes de base mais produtivos do estado — conhecida pela formação de jogadores que depois seguem para grandes centros e pelo trabalho no futebol feminino, em que é potência nacional. Foi lá que Lemos jogou até o sub-16 e onde chamou a atenção de Azevedo, então observador do Flamengo, "pela velocidade e boa saída de jogo". Para um garoto de Palmas, capital do Tocantins, sem tradição de revelar atletas para o alto nível, a Ferroviária foi a ponte para o Rio de Janeiro — e a origem de uma trajetória que percorre três estados antes dos 20 anos.
Flamengo: a base mais disputada do país
O Flamengo tem hoje a base mais cara e mais concorrida do futebol brasileiro: dezenas de jogadores por categoria, contratos de formação disputados por clubes europeus e uma peneira em que apenas uma fração chega ao profissional. Lemos jogou o sub-17 e subiu ao sub-20 em 2024, mas não ganhou espaço — o que, no Flamengo, não é diagnóstico de qualidade, e sim de concorrência. A saída negociada com divisão de direitos é a solução que o clube carioca adota para não perder o ativo: cede minutos a outro clube e mantém participação na eventual venda.
Contrato até 2027
O vínculo de Lemos com o Atlético vai até dezembro de 2027 — pouco mais de um ano. Se o zagueiro estrear e render, o clube terá pressa em renovar e ampliar sua fatia dos direitos; se não, o contrato encerra sem custo. É a janela típica de um jogador de base em fase de transição: tempo suficiente para mostrar serviço, curto o bastante para não pesar na folha. A relação com o Flamengo na divisão de direitos define também o que acontece numa venda futura — cenário que, hoje, depende de o garoto entrar em campo.
A crise da zaga atleticana
Três zagueiros lesionados ao mesmo tempo é situação rara e explica a improvisação. Lyanco, o mais experiente, tem ruptura da fáscia plantar — lesão no tecido da sola do pé, dolorosa e de recuperação lenta, que costuma afastar por semanas. Ruan Tressoldi e Léo Duarte têm lesões musculares na coxa, típicas de sobrecarga em temporada congestionada. Restam Vitor Hugo e Vitão como dupla titular, sem reserva de ofício — daí Lemos no banco e a possibilidade de Domínguez improvisar um volante na função se precisar.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a crise expõe um problema de planejamento. "Elenco de Brasileirão precisa de quatro zagueiros aptos; o Galo tem dois e um garoto que nunca jogou. Léo Duarte foi contratado e se lesionou antes de estrear — azar, mas também sinal de que a avaliação médica na chegada falhou. Não é culpa do Domínguez, que herdou o elenco, mas é o tipo de situação que decide temporada: um cartão vermelho no Morumbis e o Atlético joga com zagueiro de 20 anos e volante improvisado contra o São Paulo", observa.
Domínguez e a fase invicta
O argentino Eduardo Domínguez assumiu o Atlético-MG em meio a uma temporada instável e conseguiu uma sequência invicta que recolocou o time na parte de cima da tabela — fase que o lateral Renan Lodi, em entrevista ao ge, atribuiu em parte a um desabafo interno que mudou o ambiente do grupo. Para o jogo em São Paulo, além da zaga desfalcada, o técnico terá de lidar com o corte de um volante e prepara mudanças no time. É o tipo de partida em que a profundidade do elenco — ou a falta dela — aparece.
O que Domínguez pede de um zagueiro
O futebol de Eduardo Domínguez, forjado no Huracán e no Estudiantes, exige da defesa duas coisas que nem sempre andam juntas: linha alta, com zagueiros que defendem espaço às costas em velocidade, e saída de bola curta, com zagueiros que iniciam a construção sob pressão. Lemos, pelo relato de quem o acompanha, tem as duas — velocidade e saída de jogo foram exatamente os atributos que chamaram atenção na Ferroviária. Falta a leitura de jogo que só o profissional ensina: o momento de sair para marcar, a cobertura ao lateral, a comunicação com o companheiro. É isso que os treinos com o elenco principal, desde a 24ª rodada, tentam acelerar.
O Morumbis como estreia
Se Lemos entrar, a estreia será num dos palcos mais difíceis do país: o Morumbis lotado, contra um São Paulo que briga por vaga na Libertadores. Para um zagueiro de 20 anos, é batismo de fogo — mas é também o cenário em que carreiras se definem. A base brasileira está cheia de zagueiros que estrearam por acidente, em crise de lesões, e nunca mais saíram do time; e de outros que estrearam mal e demoraram anos para ter nova chance.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o momento é oportunidade disfarçada de problema. "Todo garoto de base espera a chance; poucos a recebem num jogo grande, e menos ainda com o time precisando. Lemos tem tudo o que se pede de um zagueiro moderno: altura, velocidade, passe. O que falta é a experiência — e experiência só se adquire jogando. Se Domínguez colocá-lo em campo no Morumbis e ele se sair bem, o Atlético ganha um zagueiro e o Flamengo se arrepende de ter dividido o passe. É assim que o futebol brasileiro descobre jogador: na urgência", analisa.
Atlético-MG e São Paulo se enfrentam neste sábado, às 18h30 de Brasília, no Morumbis, pelo Campeonato Brasileiro. A escalação do Galo será confirmada uma hora antes da partida.
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