A Fifa iniciou nesta quinta-feira (3) as inscrições para as vagas de voluntário na Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que será disputada no Brasil — a primeira da história na América do Sul — entre 24 de junho e 25 de julho do ano que vem. São seis mil postos nas áreas de mídia, gestão de competições, cerimônias, tecnologia, transporte e operações de mão de obra, distribuídos pelas oito cidades-sede: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Não é exigida experiência prévia dos candidatos. As informações são da Agência Brasil.
Os voluntários selecionados desempenharão mais de 30 funções nos locais oficiais do torneio — estádios, hotéis das delegações, centros de treinamento e aeroportos — e receberão uniforme completo, presentes e o apoio de uma equipe experiente durante toda a competição. As inscrições são feitas pelo site oficial da Fifa, na página do Mundial Brasil 2027.
Quem pode se candidatar
A ausência de exigência de experiência é deliberada: a Fifa busca diversidade de perfis, de estudantes a aposentados, e conta com o treinamento oferecido pela própria organização para preparar os selecionados. O que pode fazer diferença no processo, segundo Aline Pellegrino, diretora executiva de Legado e Relações Institucionais da Copa Feminina no Brasil, é o domínio de outros idiomas — útil no contato com delegações, imprensa internacional e torcedores estrangeiros.
"Os voluntários desfrutam de uma experiência única e passam a fazer parte da equipe por trás de um dos maiores eventos esportivos do planeta. Durante todo o torneio, os voluntários da Fifa vão contar com o apoio de uma equipe experiente e receber um uniforme completo, presentes, tudo em reconhecimento à contribuição deles. É uma oportunidade, com certeza, de fazer contatos, conhecer pessoas de todo o mundo e aprender ou desenvolver novas habilidades. É uma experiência realmente valiosa e rende memórias para toda a vida", disse Pellegrino.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o programa de voluntários é a face mais democrática de um megaevento. "Ingresso de Copa é caro, credencial é para poucos. O voluntariado é a porta que qualquer brasileiro pode atravessar para estar dentro do evento — no estádio, no aeroporto recebendo delegação, na sala de imprensa. Seis mil vagas sem exigir experiência é uma oportunidade real, especialmente para jovens das oito cidades-sede que querem trabalhar com esporte, turismo ou comunicação", avalia.
O que faz um voluntário de Copa
As seis áreas anunciadas pela Fifa cobrem a operação inteira do torneio. Em mídia, os voluntários apoiam as salas de imprensa, as zonas mistas e as coletivas — credenciando jornalistas, organizando entrevistas, distribuindo informação. Em gestão de competições, atuam no entorno do campo: apoio às equipes, controle de acesso a áreas restritas, logística de material esportivo. Em cerimônias, participam da abertura, do encerramento e dos protocolos de cada partida, como a entrada das seleções e a execução dos hinos.
Em tecnologia, dão suporte aos sistemas de credenciamento, resultados e comunicação interna. Em transporte, orientam delegações, árbitros e convidados entre aeroportos, hotéis, centros de treinamento e estádios — função em que idiomas fazem diferença. Em operações de mão de obra, coordenam os próprios voluntários: escalas, uniformes, alimentação, pontos de encontro. A distribuição das mais de 30 funções entre as áreas é feita pela Fifa a partir do perfil e da disponibilidade de cada candidato.
Como o Brasil conquistou a sede
O Brasil foi escolhido sede do Mundial de 2027 no Congresso da Fifa realizado em Bangcoc, em maio de 2024, ao vencer a candidatura conjunta de Bélgica, Holanda e Alemanha por 119 votos a 78. Foi a primeira vez que a sede de uma Copa do Mundo Feminina foi decidida em votação aberta entre as federações, e a vitória brasileira refletiu tanto a avaliação técnica — estádios prontos, experiência de 2014 e 2016 — quanto o apelo de levar o torneio pela primeira vez à América do Sul.
A candidatura brasileira prometeu, entre outros pontos, investimento no futebol feminino de base e programas de legado que incluem exatamente iniciativas como o voluntariado. É a esse compromisso que a diretora Aline Pellegrino se refere ao falar em "experiência valiosa" e "memórias para toda a vida".
2014: 13 mil voluntários
A referência mais próxima é a Copa do Mundo masculina de 2014, também no Brasil, que contou com 13 mil voluntários em 12 cidades-sede. O Mundial feminino, com oito sedes e formato mais compacto, terá menos da metade — seis mil —, o que tende a tornar a seleção mais competitiva, sobretudo em cidades com grande população como São Paulo e Rio de Janeiro.
Os voluntários de 2014 foram amplamente reconhecidos como um dos pontos altos da organização daquele torneio, e muitos relatam que a experiência abriu portas profissionais em eventos, hotelaria e turismo. A Fifa costuma manter contato com sua base de voluntários e convocá-los para eventos subsequentes — o que faz da Copa de 2027 também uma credencial para futuras competições.
A Copa que falta: 294 dias
Faltam 294 dias para a abertura do Mundial Feminino, que reunirá 32 seleções — o Brasil, classificado automaticamente como país-sede, e outras 31 que disputam vagas em eliminatórias continentais ao longo de 2026. É a segunda edição com 32 equipes, formato adotado em 2023 na Austrália e Nova Zelândia, que ampliou a competição de 24 para 32 seleções e consolidou o crescimento global do futebol feminino.
Comandada pelo técnico Arthur Elias, a seleção brasileira busca o título mundial inédito. O Brasil foi vice-campeão em 2007, na China, e tem em Marta a maior artilheira da história das Copas — masculinas e femininas —, mas nunca levantou o troféu. Jogar em casa, com o público a favor, é a melhor oportunidade que a seleção já teve.
Na leitura de Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Mundial é a chance de virar uma página. "O futebol feminino brasileiro cresceu muito em clube — Corinthians, Palmeiras, Ferroviária, Flamengo investindo, Brasileirão com transmissão em TV aberta. Falta o título de seleção, que é o que muda a percepção do país. Uma Copa em casa, com estádios cheios e seis mil voluntários, é o palco. Se o Brasil chegar longe, o legado não é só esportivo — é uma geração de meninas que vai ver o futebol feminino como carreira", observa.
Oito cidades, um país de futebol
As sedes escolhidas cobrem as cinco regiões do país: Sul (Porto Alegre), Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte), Centro-Oeste (Brasília) e Nordeste (Salvador, Recife, Fortaleza). A distribuição repete parcialmente a de 2014 e aproveita estádios já construídos ou reformados para aquele Mundial — Maracanã, Arena Corinthians, Mineirão, Mané Garrincha, Fonte Nova, Arena Pernambuco, Castelão e Beira-Rio —, o que reduz o custo de infraestrutura e concentra o investimento em operação e legado.
Para cada cidade, a Copa significa hospedagem, turismo, exposição internacional e, no caso dos voluntários, mobilização local: a maioria das vagas é preenchida por moradores da própria sede, que conhecem a cidade e podem orientar visitantes.
Legado: a palavra-chave da organização
Não é acaso que a diretora responsável pelo programa de voluntários tenha "Legado" no cargo. A Fifa e o comitê organizador brasileiro vêm enfatizando que o Mundial de 2027 deve deixar resultados duradouros — na estrutura do futebol feminino, na participação de meninas no esporte, na formação de profissionais. O voluntariado é parte disso: seis mil pessoas treinadas em organização de eventos esportivos que permanecem no país depois que o torneio acaba.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o legado precisa ser cobrado. "O Brasil já ouviu falar de legado em 2014 e em 2016, e boa parte não veio. A diferença desta vez é o tamanho: a Copa feminina é mais barata, usa estádios prontos e tem metas mais concretas — futebol feminino de base, treinadoras, árbitras. O programa de voluntários é o legado mais fácil de medir: seis mil pessoas com experiência em evento internacional. Se em 2028 elas estiverem trabalhando com isso, valeu. Se não, foi só uniforme e memória", analisa.
As inscrições para o programa de voluntários da Copa do Mundo Feminina 2027 estão abertas no site oficial da Fifa e não têm, por enquanto, data de encerramento divulgada. A seleção dos candidatos ocorrerá ao longo dos próximos meses, com convocação para treinamento antes do início do torneio.
Foto: Egghead06 (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.