O Fluminense tem a Libertadores como prioridade clara na temporada, mas o clássico deste sábado, às 21h, no Maracanã, contra o Vasco, não perde peso pela proximidade das quartas de final contra o Platense — pelo contrário. Internamente, os tricolores sabem a importância de vencer o rival para chegar com moral à decisão continental, sobretudo com o histórico recente recheado de provocações e eliminações: foi contra o Vasco que o Fluminense caiu na Copa do Brasil nesta temporada e na anterior, a mais recente com derrota por 3 a 1 que ajudou a enterrar o trabalho de Zubeldía. As informações são do ge.
São cinco confrontos em 2026, com uma vitória, dois empates e duas derrotas tricolores; o único triunfo rendeu classificação na semifinal do Carioca. Pelo Brasileirão, o Fluminense abriu 2 a 0 e levou virada no segundo tempo. Os comandados de Marcão querem quebrar a sequência de quatro jogos sem vencer o rival e terão força máxima; a semana livre deixou o time apto a competir no sábado e na terça, e a tendência é poupar titulares na rodada seguinte, contra o Atlético-MG, na Arena MRV — onde Thiago Silva evita atuar pelo gramado sintético.
Por que o clássico esquentou
Entre os clássicos do Rio, Fluminense x Vasco é provavelmente o mais quente em provocações — algumas além do campo, com temas sérios. Em 2023, após vitória vascaína por 4 a 2 no Nilton Santos, o post de comemoração do Vasco trazia "sensação sensacional", referência à música "Olho de Tigre", de Djonga, cujo trecho seguinte é "fogo nos racistas" — lido pela direção tricolor como imputação de racismo. O Fluminense entendeu que uma barreira além do futebol havia sido cruzada, e a relação entre os clubes ficou nula por meses. A publicação também ironizava a provocação de tricolores que dizem que o Vasco "inventou o negro no futebol", referência à Resposta Histórica de 1924.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o clássico é o mais carregado do Rio por razões que vão além da bola. "Flamengo x Fluminense tem história; Vasco x Flamengo tem rivalidade de massa. Fluminense x Vasco tem ressentimento — duas eliminações seguidas na Copa do Brasil, um técnico enterrado, o 'C' do Rayan, o escudo pisoteado, a faixa sobre o herói escravocrata. Quando a provocação passa pelo racismo, deixa de ser futebol. O Fluminense precisa vencer para desarmar isso e chegar ao Platense com moral. O Vasco precisa de ponto para fugir do Z-4. É o último capítulo de 2026 entre os dois, e o clima diz que vai ser jogado como final", avalia.
Rayan, Barros e o "C"
As provocações chegaram ao campo pelo elenco vascaíno. O atacante Rayan fez a letra "C" — alusão à terceira divisão em que o Fluminense jogou — ao comemorar gol na vitória de 2 a 1 no primeiro turno de 2025, e repetiu o gesto em duelos seguintes; o volante Barros, após a classificação na Copa do Brasil de 2025, pisoteou um escudo do Fluminense no gramado do Maracanã. Esposas de jogadores vascaínos postaram o "C" após o confronto do fim de 2025. Do lado tricolor, a torcida estendeu na semifinal do Carioca a faixa "O herói de vocês matou, escravizou e colonizou" — sobre Vasco da Gama —, e os mosaicos alternam a terceira divisão de um e os quatro rebaixamentos do outro.
Libertadores: a prioridade e o teste
O Fluminense decide vaga na semifinal da Libertadores contra o Platense, da Argentina, com jogo de ida na terça — três dias após o clássico. A comissão avaliou que a semana livre permite dois jogos de alto nível em sequência; o descanso vem depois, contra o Atlético-MG. Vencer o Vasco é, na leitura interna, a forma de chegar a terça com o Maracanã a favor e o elenco confiante — o "chamar a torcida para o próprio lado" que o clube busca após quatro jogos sem vitória no clássico.
Vasco: força máxima e rodízio
Pedro Emanuel, técnico português do Vasco, terá força máxima disponível: preservou Paulo Henrique, Tchê Tchê e Colidio na volta da Copa do Brasil contra o Vitória, e o trio retorna. O treinador mantém rodízio para dar conta de três competições — classificado na Copa do Brasil e na Sul-Americana, em viés de subida no Brasileirão — com apoio de fisiologistas e medições de desgaste por atleta. Bruno Duarte, centroavante, deve estrear; Alan Lescano chegou para exames. Depois do clássico, o Vasco tem três dias até a ida das quartas da Sul-Americana, contra o Santa Fe, em Bogotá.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, os dois times chegam no mesmo dilema. "Fluminense joga terça a Libertadores; Vasco joga quarta a Sul-Americana em Bogotá. Os dois vão ao Maracanã com titulares e vão poupar na rodada seguinte. É o calendário brasileiro obrigando o clássico a ser o jogo mais importante e o mais perigoso da semana — lesão no sábado tira o jogador do continental. Pedro Emanuel administra desgaste com fisiologista; Marcão aposta na semana livre. Quem sair do Maracanã inteiro e vencedor chega à quarta de final com o que mais importa: moral e elenco. Quem perder, chega machucado nos dois sentidos", observa.
A Resposta Histórica: a origem da provocação
Em 1924, o Vasco recusou-se a excluir jogadores negros e pobres de seu elenco, como exigiam os clubes da elite carioca, e enviou a carta que ficou conhecida como Resposta Histórica — marco do combate ao racismo no futebol brasileiro e orgulho da torcida vascaína. É a esse episódio que a ironia tricolor sobre "inventar o negro no futebol" se refere, e é por isso que a menção a racismo no post de 2023 foi lida pelo Fluminense como acusação e não como piada. A provocação toca no que cada clube considera sua história — e por isso fere.
Platense: o adversário da terça
O Platense, de Buenos Aires, chega às quartas da Libertadores como surpresa — campeão argentino recente, de orçamento modesto, com estilo físico e defesa compacta. Para o Fluminense, é adversário que exige elenco completo e concentração, o que explica a decisão de jogar o clássico com titulares e poupar contra o Atlético-MG. A ida é no Maracanã na terça; a volta, em Vicente López, na semana seguinte.
Thiago Silva e o sintético
O capitão tricolor evita atuar em gramados sintéticos — como o da Arena MRV — por precaução física, o que já define sua ausência na rodada seguinte e reforça a escalação completa no sábado. Aos 41 anos, é o eixo defensivo e o líder do vestiário; sua presença contra o Vasco é a garantia de força máxima que o clube anunciou.
Zubeldía e as eliminações
A derrota por 3 a 1 para o Vasco no jogo de volta da Copa do Brasil de 2026 foi o golpe final no trabalho de Luis Zubeldía, substituído por Marcão. É a segunda eliminação seguida para o rival no torneio — 2025 e 2026 —, o que dá ao clássico peso de revanche além dos três pontos. Marcão, ídolo e técnico interino recorrente, tem no sábado a chance de virar a página.
Último capítulo de 2026
Como Fluminense e Vasco disputam torneios continentais diferentes — Libertadores e Sul-Americana —, não podem mais se encontrar na temporada além do Brasileirão. O clássico de sábado é, portanto, o último de 2026 entre os dois, e a última chance tricolor de encerrar o jejum no ano.
Brasileirão: as posições
O Fluminense é quarto, com 42 pontos, abrindo o G-4; o Vasco luta contra o rebaixamento, em recuperação sob Pedro Emanuel. Para o tricolor, vencer mantém a vaga direta na Libertadores de 2027 sob pressão de Bahia e Cruzeiro; para o Vasco, pontuar no Maracanã é distância do Z-4. Os objetivos são opostos e igualmente urgentes.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o clássico merece ser visto pelo que é. "Não é decisão de título. É sábado à noite no Maracanã, com dois times que vão jogar continental na semana e que se detestam por razões que passam por racismo, escudo pisoteado e faixa sobre Vasco da Gama. O Fluminense não vence o rival há quatro jogos e caiu duas vezes na Copa do Brasil para ele. O Vasco chega embalado e com centroavante novo. Marcão e Pedro Emanuel colocam tudo. Quem quiser entender por que o futebol carioca ainda importa deveria ligar a TV às 21h", analisa.
Fluminense e Vasco se enfrentam em 5 de setembro de 2026, às 21h, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro. O Fluminense decide vaga na semifinal da Libertadores contra o Platense na terça-feira seguinte; o Vasco enfrenta o Santa Fe pela Sul-Americana na quarta.
Foto: Dylan Smith (Public domain) via Wikimedia Commons.