Diante de grave crise financeira, o presidente do Marília, Alysson Silva, anunciou a demissão em massa do elenco e uma reformulação drástica no planejamento para 2027, para cortar gastos num cenário que classificou como o "pior momento financeiro" desde 2019, quando a atual gestão assumiu. O pronunciamento veio após evento de planejamento da temporada 2027 na sede da Federação Paulista de Futebol. "A cota de 2025 para 2026 nas competições já diminuiu por conta do estreitamento do calendário e vai cair ainda mais para 2027. Precisamos repensar o futebol, diminuir valores; esses salários astronômicos que temos visto têm que acabar. Não dá mais, o clube não vai sobreviver e não faremos loucuras pelo MAC", disse. As informações são do ge.
"São essas loucuras que fizeram o clube se endividar ao longo dos anos. Vamos fazer quase uma demissão em massa, um desligamento geral de todos os atletas para 2027, com exceção de três. Com a comissão técnica a mesma coisa, mas não em relação ao treinador, que ainda não definimos. Temos um recurso para setembro e vamos utilizar para saldar salários e acertos. Mas estamos com inadimplências de repasses de patrocinadores — dois ou três, e vem de alguns meses." O elenco para 2027 só será montado em novembro; o Tigre tinha contratos com a maioria até o fim de outubro, mas foi eliminado na primeira fase da Copa Paulista e só volta a jogar no ano que vem. "Setembro e outubro serão meses só para ajustar salários, rescisões e recuperação judicial. Não temos dinheiro para nada. Não temos dívidas, mas também não temos dinheiro. Secou. O MAC vai estar zerado de dívidas, mas também zerado financeiramente. Vamos ter que repactuar os contratos com todos os patrocinadores e estou muito preocupado com a cota para 2027." Para o dirigente, o momento é "pior que a pandemia" e exige que "atletas, imprensa, torcedores, empresários" repensem: "Não temos como ficar recebendo em divisões de acesso salários que ouvíamos falar há muitos anos. Alguns empresários têm me ligado oferecendo jogadores e falando valores para 2027 que digo para esquecer."
Marília Atlético Clube: o que é o MAC
Fundado em 1942, o Marília — o Tigre, de camisa amarela e preta — foi força do futebol paulista nos anos 2000, com acesso à Série B nacional em 2004, participações na primeira divisão estadual e revelação de jogadores; a partir de 2010, mergulhou em dívidas, rebaixamentos e licenciamentos, chegando a ficar sem futebol profissional. A gestão que assumiu em 2019 reconstruiu o clube com orçamento pequeno, subiu da Série B paulista à A3 e disputou a Copa Paulista — e agora enfrenta o estreitamento do calendário que a FPF impôs às divisões de acesso, com menos jogos, menos cota e menos patrocínio. É o retrato de dezenas de clubes do interior de São Paulo que vivem de repasse da federação e de patrocínio local, e que a inflação salarial das divisões de base tornou inviáveis.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o discurso de Alysson Silva é o mais honesto que um presidente de clube deu em 2026. "Não temos dívida, mas não temos dinheiro — secou. Demissão em massa, menos três. Time só em novembro. Salário astronômico tem que acabar. Empresário ligando com valor que eu mando esquecer. É a verdade do futebol de A3 e Copa Paulista: cota da federação caindo, patrocinador atrasando, calendário curto, e jogadores pedindo o que ouviam falar há dez anos. O Marília escolheu parar antes de quebrar — o que a maioria não faz. Quem acompanha o União São João em Araras, na mesma Copa Paulista, entende: o interior paulista vive de cota, e a cota está minguando. Alysson disse o que todos sabem e ninguém fala", avalia.
Marília, a cidade e o Abreuzão
Marília, no centro-oeste paulista, a cerca de 440 quilômetros da capital, tem pouco mais de 240 mil habitantes e economia baseada em alimentos, serviços e universidades; o Estádio Municipal Bento de Abreu Sampaio Vidal — o Abreuzão — recebeu jogos de Série B nacional nos anos 2000, quando o MAC chegou a disputar o acesso à elite, e hoje vê públicos de poucos milhares nas divisões de acesso. A relação do clube com a cidade sempre passou pelo apoio de empresários locais e da prefeitura, que cede o estádio; quando os patrocinadores atrasam — como relatou o presidente — não há torcida em volume suficiente para cobrir a folha, e é aí que a cota da federação vira a diferença entre jogar e parar.
O calendário curto: o que a FPF mudou
A Federação Paulista reorganizou nos últimos anos o calendário das divisões de acesso: as séries A2, A3 e A4 concentram-se entre janeiro e abril, e a Copa Paulista ocupa o segundo semestre para os clubes que se inscrevem — o que deixa os elencos com poucos meses de jogos oficiais e obriga a manter contratos entre as competições ou dispensar e recontratar. A lógica era reduzir custos e alinhar-se ao calendário nacional da CBF, mas o efeito colateral é a queda das cotas, calculadas sobre número de jogos e transmissões; para clubes como o Marília, que dependem desse repasse, calendário curto significa receita curta com folha do mesmo tamanho — a equação que Alysson Silva chamou de insustentável.
Cota da FPF: de onde vem o dinheiro
Clubes das divisões de acesso do Paulista recebem cotas de participação da Federação — repasses de direitos de TV e patrocínio das competições —, que respondem por parcela relevante do orçamento; com o calendário mais curto — menos rodadas, menos jogos transmitidos — a cota de 2026 caiu e a de 2027 deve cair mais, segundo o dirigente. Sem cota, o clube depende de patrocínio local e de sócio — insuficientes em cidades médias.
Patrocinadores inadimplentes: o outro buraco
Dois ou três patrocinadores com repasses atrasados há meses — situação comum no futebol do interior, em que contratos são com empresas locais, sem garantia —; o clube usa o último repasse de setembro para quitar salários e rescisões, e precisará repactuar todos os contratos para 2027. É o ciclo que leva a recuperação judicial, citada pelo presidente entre as tarefas de outubro.
Desligamento geral: o que acontece com os jogadores
Com contratos até outubro e sem jogos, os atletas serão dispensados com acertos pagos pelo recurso de setembro; três permanecem — provavelmente da base ou com contrato longo —; a comissão técnica também sai, exceto o treinador, ainda não escolhido. Para os jogadores, é buscar clube na janela de fim de ano, com mercado em contração.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso é sintoma de uma reforma que a FPF fez pela metade. "Encurtar o calendário das divisões de acesso era necessário — clubes jogavam o ano inteiro sem receita. Mas encurtar sem compensar a cota e sem regular salário deixou clubes como o Marília com menos jogo, menos dinheiro e a mesma folha. O presidente chama de loucura os salários de A3 e Copa Paulista — e tem razão: são valores de Série B nacional em times que vendem 2 mil ingressos. A federação organiza a competição; deveria organizar também o teto de gastos, como a Série A discute. O MAC parou para não morrer. Outros vão morrer sem parar", observa.
Copa Paulista: a eliminação que antecipou o fim do ano
Fora na primeira fase da Copa Paulista — competição do segundo semestre que dá vaga à Série D nacional —, o Marília ficou sem jogos até 2027, com elenco contratado até outubro: pagar sem jogar é o pior cenário, que a demissão antecipada evita. Clubes que avançaram, como o União São João, seguem com receita de bilheteria e cota.
Recuperação judicial no futebol
Desde a Lei da SAF e as mudanças na Lei de Falências, clubes podem pedir recuperação judicial para renegociar dívidas — Cruzeiro, Vasco e outros usaram; para o Marília, que diz não ter dívida, o instrumento serviria para reorganizar contratos e proteger o clube durante a reestruturação. É a tarefa de outubro citada pelo presidente.
Novembro: como montar um time do zero
Definir treinador, contratar elenco com salários compatíveis, repactuar patrocínio, planejar a A3 de 2027 — em dois meses; o presidente admite que será time modesto. É o caminho que outros clubes do interior seguiram após crises — Rio Claro, Penapolense, XV de Jaú — com resultados variados.
O futebol do interior paulista: o contexto
Mais de 60 clubes profissionais no estado, a maioria nas séries A3, A4 e B, dependentes de cota, prefeitura e patrocínio local; o encurtamento do calendário, a inflação de salários e a queda de público criaram crise generalizada, com licenciamentos anuais. O Marília é caso visível de um problema estrutural.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o pronunciamento é aviso ao futebol de base do estado. "Pior que a pandemia — disse o presidente de um clube de 84 anos. Demitir todo mundo em setembro, ficar dois meses arrumando a casa e montar time barato em novembro é decisão dolorosa e correta. O Marília não vai fechar; vai encolher. A FPF deveria ler o discurso de Alysson Silva antes de definir as cotas de 2027 — e os empresários que ligam oferecendo jogador a preço de Série B deveriam ler também. O futebol do interior de São Paulo secou; ou muda o modelo, ou muda o número de clubes", analisa.
O anúncio da demissão em massa e da reformulação do planejamento do Marília para 2027 foi feito pelo presidente Alysson Silva após evento na Federação Paulista de Futebol e noticiado pelo ge em 5 de setembro de 2026. O clube foi eliminado na primeira fase da Copa Paulista de 2026.
Foto: Michael Barera (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.