Discreto e "low profile", Luiz Gustavo é um dos líderes do Athletico no Brasileirão. O volante voltou aos gramados há cerca de um ano, após temer o fim da carreira por um tromboembolismo pulmonar, e leva fora de campo uma vida comum — longe das redes sociais há 12 anos, decisão tomada depois do 7 a 1 contra a Alemanha na Copa de 2014, quando era titular da Seleção. Neste domingo, deve carregar a braçadeira de capitão contra o Cruzeiro, no Mineirão, o palco daquela noite. "Tudo que você ama na vida, tem que pagar um preço alto para fazer isso valer a pena. É uma coisa que está marcada, mas não é um resultado que define quem você é", refletiu em entrevista ao ge. As informações são do ge.
Aos 39 anos, Luiz Gustavo é titular absoluto de Odair Hellmann, com dois gols em 19 jogos no campeonato, e diz que ainda não pensa em parar: o contrato vai até o fim do ano, e ele não descarta seguir no clube em 2027.
O susto: "você não vai poder mais jogar"
Ainda no São Paulo, em 2025, o volante se queixou de dores e foi diagnosticado com tromboembolismo pulmonar — obstrução de uma artéria do pulmão, condição grave. "O ponto mais delicado é quando a gente vai no médico, faz os exames, e ele fala: 'Se tiver tal coisa, você não vai poder mais jogar futebol'. Sem dúvida, foi um dos pontos que me deixou reflexivo por ser um fim de uma forma que não seria a que eu desejo", contou. Ficou internado três dias em São Paulo e três meses afastado de qualquer atividade ligada ao futebol; voltou a treinar em setembro de 2025 e fez o primeiro jogo em outubro, contra o Bahia.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a história é sobre o que o futebol raramente mostra. "Tromboembolismo pulmonar mata. Um atleta de 38 anos com essa condição normalmente encerra a carreira — e o médico disse isso a ele. Luiz Gustavo esperou os três meses, respeitou os prazos, voltou e é titular de um time que briga na parte de cima. Não há milagre; há disciplina. E o detalhe da entrevista que mais diz sobre ele: agradece ao São Paulo pelo respaldo, não reclama de nada. É o mesmo homem que saiu das redes depois do 7 a 1 e nunca voltou. Coerência de doze anos", avalia.
"Vivi o processo da forma que tinha que ser"
"No momento ali, é um baque. Mas eu consegui me organizar na questão mental para entender o que estava acontecendo e não ficar ansioso. Eu vivi o processo da forma que tinha que ser, com os prazos que os médicos passaram", disse. "Fui criando coragem para voltar a jogar. O São Paulo me deu todo o respaldo ali para me recuperar bem, graças a Deus estou bem e agora é seguir desfrutando e agradecendo a vida todos os dias." É a linguagem de quem passou pela possibilidade real de perder tudo — e voltou.
O 7 a 1 e a decisão de sumir das redes
Luiz Gustavo tinha 26 anos em 2014 e formava com Fernandinho — de quem continua amigo — a dupla de volantes na semifinal contra a Alemanha, sem Thiago Silva suspenso e Neymar lesionado. Foi depois daquele jogo que decidiu deixar as redes sociais. "Foi um momento que todos conseguimos superar ou encontrar caminhos diferentes para continuar fazendo o que a gente ama, continuar nos superando como profissional, como pessoa, pai, marido, como tudo ali", disse. "A gente prosseguiu, continuamos firmes e fortes, plantando coisas diferentes. O que fica é o respeito, é o aprendizado, é a superação."
O futebol brasileiro de 2014 para cá
Questionado sobre o caminho do futebol nacional desde então, o volante vê identidade preservada e evolução pendente: "O Brasil já tem a sua identidade, a questão é a gente fazer a nossa identidade evoluir de acordo com o que o futebol moderno está buscando e necessitando hoje. Com disciplina, intensidade, com o lado humano das pessoas." E amplia: "É um processo muito mais global, a necessidade que nós temos como seres humanos de realmente querer aprender e deixar coisas que não são importantes de lado. A gente quer muitas coisas, mas faz tudo ao contrário."
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o depoimento é de uma geração que carregou o peso sozinha. "O 7 a 1 virou piada nacional, e os jogadores viraram alvo — Fernandinho, Luiz Gustavo, David Luiz. Doze anos depois, um deles fala sobre isso com serenidade e sem culpa. 'Não é um resultado que define quem você é' é a frase que a Seleção inteira precisava ter ouvido em 2014. Ele voltou ao Mineirão como capitão de outro time, aos 39, depois de quase morrer. Se há alguém autorizado a dizer que o futebol é mais que placar, é ele", observa.
Morar no CT: o método de chegada
Contratado pelo Athletico em janeiro, Luiz Gustavo morou no CT do Caju antes de definir onde viveria com a família em Curitiba — prática que já adotara ao chegar ao São Paulo, em 2024. "É uma forma de antecipar algumas coisas, conhecer a dinâmica do clube, as pessoas, entender os pontos positivos, as vulnerabilidades. Isso reforça a confiança de ambas as partes." É o profissional que estuda o ambiente antes de ocupá-lo — traço de quem passou por Bayern, Wolfsburg, Marselha e Fenerbahçe.
Odair Hellmann: "sabe quando apertar"
Sobre o técnico, o volante é preciso: "É um cara inteligente, não só no trabalho dentro de campo, mas também fora, consegue analisar muito bem o que ele tem nas mãos, potencializar o grupo. Ele sabe muito bem quando precisa apertar um pouquinho ou quando precisa compreender mais." A campanha do Athletico no Brasileirão — entre as melhores do returno — tem o veterano como eixo e o treinador como gestor de um elenco jovem.
Aos 39: "o desafio é comigo mesmo"
"O meu maior desafio é comigo mesmo. Continuar entregando, respeitando o futebol da forma que eu sempre respeitei, amando o futebol da forma que eu sempre amei. Enquanto eu estiver sentindo isso, sentindo o prazer de sair todos os dias para treinar, para me desafiar, para poder ajudar e aprender com os meninos mais novos, eu vou continuar." Sobre 2027: "Não é por causa disso ou daquilo que eu vou continuar ou parar, é muito mais o que eu sentir no coração. Sempre me cuidei, tenho saúde, fisicamente estou bem, cuido muito da minha parte mental. Estamos felizes aqui como família, é uma cidade muito boa, clube fora de série."
Preparando a aposentadoria
Além dos cursos da Uefa feitos durante a carreira, o volante estuda áreas fora do futebol: "Tenho feito cursos com empreendedores, saindo um pouco do futebol para me desenvolver, conhecer outras pessoas, ver outro mundo que existe um mundo gigantesco além do futebol. Tenho lido bastante para quando for o momento de parar já ter algo encaminhado." É o planejamento que a maioria dos atletas brasileiros não faz — e que explica a serenidade com que ele fala do fim.
Tromboembolismo pulmonar: o que é
O tromboembolismo pulmonar ocorre quando um coágulo — geralmente formado nas veias das pernas — se desprende e obstrui uma artéria do pulmão. É emergência médica com risco de morte, tratada com anticoagulantes por meses, período em que atividade física de contato é contraindicada pelo risco de sangramento. Em atletas, é raro, mas ocorre; o retorno ao esporte de alto rendimento depende de exames que confirmem a dissolução do coágulo e a ausência de causa recorrente. Os três meses de afastamento de Luiz Gustavo seguiram esse protocolo.
Fama, marketing e Racionais
Fora das redes há mais de dez anos, Luiz Gustavo é um perfil cada vez mais raro. "Esse foi um dos segredos de tudo que pude viver no futebol. Eu coloquei isso como meta lá atrás, e é sagrado. Para mim a questão da fama, do marketing não me enchia os olhos. O que me enchia os olhos era me desenvolver, performar, aproveitar o máximo que eu pudesse e me divertir." No tempo livre, música — Racionais MC's, o grupo preferido desde a infância em Pindamonhangaba.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Mineirão de domingo fecha um ciclo. "O mesmo estádio, doze anos depois, com a braçadeira de capitão de um time que ele lidera aos 39 sem postar nada. Luiz Gustavo é o contrário do jogador de 2026: não vende, não posa, não reclama. Sobreviveu ao 7 a 1 e a um trombo no pulmão do mesmo jeito — esperando o tempo passar e trabalhando. Se o Athletico precisa de alguém para entrar no Mineirão sem fantasma, é ele. O Cruzeiro vai enfrentar um volante que já perdeu tudo o que se pode perder num campo de futebol e voltou", analisa.
Luiz Gustavo, de 39 anos, tem contrato com o Athletico-PR até dezembro de 2026. O Athletico enfrenta o Cruzeiro no Mineirão neste domingo, pelo Campeonato Brasileiro.
Foto: G. Edward Johnson (CC BY 4.0) via Wikimedia Commons.