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Casal Estevam e Sonia Hernandes, da Renascer, fecha apoio a Flávio Bolsonaro

Apóstolo declarou voto no Instagram ao lado de fotos com o candidato na Marcha para Jesus; bispa já havia aberto o trio elétrico do 7 de Setembro e pedido desagravo a André Mendonça na Paulista.

Adriano Jose Reis Martins - Mundo - Casal Estevam e Sonia Hernandes, da Renascer, fecha apoio a Flávio Bolsonaro

O apóstolo Estevam Hernandes declarou nesta quarta-feira, 9 de setembro, que vai votar em Flávio Bolsonaro para presidente. "Eu voto 22 para presidente", registrou em seu perfil no Instagram. A legenda acompanhou uma série de fotos dele com o candidato na Marcha para Jesus de 2026, tendo ao fundo o jingle "vamos entrar com o pé direito que o Brasil tem futuro". As informações são da coluna Painel, da Folha de S.Paulo.

A opção à direita não chega a surpreender: líder da igreja Renascer em Cristo e idealizador da Marcha para Jesus, Estevam já havia endossado o pai de Flávio em 2022. Mas o líder evangélico mantinha até aqui postura mais contida sobre a candidatura do primogênito de Jair Bolsonaro. Era, isso sim, entusiasta de uma chapa presidencial que acabou não se concretizando, com o governador Tarcísio de Freitas à frente e Michelle Bolsonaro como vice. A bispa Sonia Hernandes, sua esposa, já havia dado pistas de que o casal estava fechado com Flávio: ela abriu o trio elétrico do 7 de Setembro bolsonarista na avenida Paulista, ocasião em que discursou que "o Brasil é do Senhor Jesus Cristo" e clamou pelo "nosso irmão André Mendonça" — um desagravo ao ministro do Supremo Tribunal Federal e pastor presbiteriano que entrou em rota de colisão com Alexandre de Moraes na corte.

Por que o endosso demorou a vir

A hesitação do casal até aqui não era doutrinária, e sim estratégica. Parte expressiva da liderança evangélica que apoiou Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 preferia, para 2026, uma chapa encabeçada por Tarcísio de Freitas, avaliada como mais competitiva no centro do eleitorado e menos exposta ao desgaste judicial que cerca a família Bolsonaro. Com a inviabilização desse arranjo e a consolidação da candidatura do primogênito, o cálculo mudou: manter-se neutro num pleito polarizado significaria perder influência sobre o campo em que essas lideranças construíram capital político. O anúncio a menos de um mês da eleição, marcada para 4 de outubro, indica que a fase de espera terminou e que o esforço agora é de mobilização da base.

Quem são Estevam e Sonia Hernandes

O casal fundou a Renascer em Cristo em 1986, em São Paulo, e a transformou em uma das denominações neopentecostais de maior projeção no país, com forte presença na comunicação — rádio, televisão e, mais recentemente, redes sociais. É também de Estevam a idealização da Marcha para Jesus, evento que reúne multidões anualmente em capitais brasileiras e se tornou o maior ato público do segmento evangélico no país.

A Marcha para Jesus como palco político

Criada como manifestação religiosa, a Marcha consolidou-se ao longo das últimas décadas como espaço de exposição de candidatos, sobretudo em anos eleitorais. Foi nela que as fotos publicadas por Estevam ao lado de Flávio foram registradas. A presença de postulantes no evento é regulada pela legislação eleitoral, que veda o uso de templos e cultos para propaganda, mas admite manifestação pessoal de preferência por parte de líderes religiosos.

O que a legislação permite e o que veda

A lei eleitoral proíbe a realização de propaganda em templos e a coação de fiéis, mas não impede que um líder religioso, como qualquer cidadão, declare publicamente seu voto. A fronteira entre a manifestação individual e o uso da estrutura religiosa para campanha é justamente o ponto que costuma gerar representações na Justiça Eleitoral a cada ciclo, e que tende a ser testado novamente neste.

A disputa por um eleitorado que não é monolítico

Tratar o eleitorado evangélico como bloco homogêneo é o erro analítico mais comum nas campanhas brasileiras. Pesquisas de opinião mostram divisões relevantes conforme denominação, renda, região e gênero: fiéis de igrejas pentecostais tradicionais, de neopentecostais e de denominações históricas apresentam padrões distintos de voto, e a distância entre homens e mulheres do segmento tem sido significativa nas últimas eleições. Governos de esquerda mantiveram, ao longo das últimas décadas, penetração relevante entre evangélicos de menor renda, sustentada por políticas sociais, ao mesmo tempo em que perderam terreno nas pautas de costumes. É nesse território disputado que endossos como o da Renascer atuam — não como chave que vira um bloco inteiro, mas como reforço de mobilização entre quem já está inclinado.

O peso do voto evangélico em 2026

Os evangélicos representam hoje cerca de um terço da população brasileira, segundo levantamentos demográficos recentes, com concentração nas periferias urbanas e forte crescimento no Norte e no Centro-Oeste. Em eleições decididas por margens estreitas — e as pesquisas apontam empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro —, a capacidade de mobilização das lideranças torna-se variável decisiva.

O desagravo a André Mendonça na Paulista

O clamor da bispa Sonia pelo "nosso irmão André Mendonça" durante o ato de 7 de Setembro conecta o campo religioso à crise institucional em curso no Supremo. Indicado por Jair Bolsonaro sob o compromisso de nomear um ministro "terrivelmente evangélico", Mendonça tornou-se referência simbólica do segmento na corte e protagonista do embate com Alexandre de Moraes que culminou nas decisões desta semana.

A chapa que não saiu do papel

O arranjo defendido por parte da liderança evangélica — Tarcísio de Freitas na cabeça e Michelle Bolsonaro como vice — combinava a gestão administrativa do governador paulista com a capacidade de mobilização da ex-primeira-dama junto ao público feminino evangélico. A não concretização redirecionou esses apoios para a candidatura de Flávio, mas sem o entusiasmo que o desenho original despertava.

Do palanque à urna: os limites do endosso

Estudos sobre comportamento eleitoral no Brasil mostram que a orientação de lideranças religiosas influencia mais a intensidade do engajamento — disposição para fazer campanha, convencer familiares e comparecer — do que a mudança de preferência de quem já tinha voto definido. Num eleitorado polarizado, esse efeito de mobilização pode ser mais relevante do que a conversão de indecisos.

A campanha na reta final

A menos de um mês do primeiro turno, os dois principais candidatos disputam margens estreitas, e cada adesão pública de liderança com capilaridade nacional é convertida em material de campanha. O jingle que acompanha as fotos publicadas por Estevam — "vamos entrar com o pé direito que o Brasil tem futuro" — indica alinhamento não apenas de voto, mas de comunicação com a campanha.

O histórico de 2022 e a comparação

Em 2022, o mesmo endosso foi dado a Jair Bolsonaro, então candidato à reeleição. A diferença de contexto é relevante: naquele pleito, o apoio somava-se a um presidente em exercício com base evangélica consolidada; agora, dirige-se a um candidato que herda o campo, mas precisa demonstrar capacidade própria de mobilização, num momento em que parte das lideranças ainda avalia o custo de associação com a crise judicial da família.

Como o segmento evangélico se organizou politicamente

A entrada estruturada das igrejas evangélicas na política institucional brasileira remonta à Constituinte de 1987, quando a chamada bancada evangélica se formou com pouco mais de trinta parlamentares. Quatro décadas depois, o grupo reúne mais de uma centena de deputados e senadores de diferentes partidos, articulados em torno de pautas de costumes, liberdade religiosa e defesa da família. O crescimento acompanhou a expansão demográfica do segmento, que saltou de menos de 7% da população em 1980 para cerca de um terço nos levantamentos recentes, com avanço mais acelerado nas periferias metropolitanas e nas regiões Norte e Centro-Oeste. Essa base territorial explica por que declarações de lideranças com alcance nacional, como as do casal Hernandes, produzem efeito prático: elas chegam a redes de igrejas locais que funcionam simultaneamente como espaço de fé, assistência social e organização comunitária.

O que observar até 4 de outubro

Três sinais indicarão se o endosso se converte em votos: a intensidade da participação de lideranças da Renascer em atos de campanha, a adesão de outras denominações que também aguardavam definição e a evolução das intenções de voto no segmento evangélico nas próximas rodadas de pesquisa. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.

A declaração de voto do apóstolo Estevam Hernandes em favor de Flávio Bolsonaro foi publicada em seu perfil no Instagram e noticiada em 9 de setembro de 2026 pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo. A bispa Sonia Hernandes havia aberto o trio elétrico do ato bolsonarista de 7 de Setembro na avenida Paulista.

Foto: YasminF (CC BY-SA 4.0) via Wikimedia Commons.

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Escrito por

Adriano Jose Reis Martins

Colaborador convidado do blog The Gin Flavors, assina esta matéria com curadoria própria.

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